Como contei em um post anterior, minha família saiu da Coreia quando eu tinha apenas dois anos, em 1976. Chegamos ao Brasil em 1981 após viver no Paraguai e também no Chile, onde estudei a primeira série (equivalente ao segundo ano no sistema atual).

Já falava espanhol como um nativo quando nos mudamos para cá, portanto a minha adaptação foi um pouco mais fácil. Apesar do espanhol e do português não serem tão parecidos como a maioria pensa, ao menos para mim a língua não foi o maior dos problemas de adaptação.

Casal_Discutindo_Brigando1
Foto: comofas

Mesmo assim, uma das experiências que me marcaram bastante foi justamente algo relacionado ao idioma. Lembro que já estava matriculado na segunda série do Colégio Anglo Latino quando tivemos aula de redação e fui escolhido para ler a minha. Com sotaque meio carregado, fui lendo aos trancos e barrancos quando li a palavra “casa”, que em espanhol se lê como “caça”.

E uma simples questão de sotaque se transformou em algo grandioso, com direito a bronca da professora que não tinha a devida sensibilidade para lidar com a situação e achou que eu estava brincando. Pronto, bastou para que eu chorasse quando encontrei minha mãe após as aulas, pedindo para que voltássemos para “casa”… Que seria em Santiago e não em Seul.

Ser um filho de coreanos que até os sete anos viveu em diversos países não me ajudou a firmar a minha identidade cultural da maneira que todas as crianças normalmente fazem. Lembro de ter passado por duas ou três crises de identidade: afinal, quem sou eu?

Na maior parte do tempo, nem ligava, mas em certos momentos lembro de me pegar olhando no espelho e pensando porque eu tinha olho puxado e cabelo liso, enquanto todos os meus outros amigos tinha olhão e cabelo arrumadinho sem precisar passar gel ou usar secador por 10 minutos! E que inveja eu tinha dos cabelos jeitosos dos meus amigos!

Quem Sou Eu
Foto: como fazer uma redacao

Mas de qualquer maneira, crianças aprendem rápido. E fui me adaptando e sobrevivendo. Acho que foi lá pelo colegial que me dei conta de que eu era “diferente” dos outros de uma maneira mais séria. Não havia muitos coreanos no colégio e foi nessa época que comecei a me enturmar com os colegas japoneses, que no fim das contas, tem uma identidade cultural similar. Mas as coisas mudaram quando entrei na faculdade.

A minha tinha uma associação de estudantes coreanos e logo no primeiro dia de aula fui recrutado para fazer parte dele. E assim esta parte da minha história se conecta com o meu primeiro texto aqui no Koreapost. Nessa mesma época, fiz minha primeira viagem à Coreia, uma aventura que vou contar no próximo texto!

Hoje, depois de 41 anos e muita reflexão, encaro o assunto com muito mais naturalidade. Busquei intensamente entender quem eu era pois sabia que isso me traria paz de espírito. Lembro muitas vezes que eu me exigia demais pois (segundo eu mesmo) precisaria ser uma pessoa melhor para provar que eu e os coreanos éramos tão capazes quanto os brasileiros. Hoje vejo que isso é desnecessário mas para concluir isso tive que passar por toda uma experiência pessoal de (re)conhecimento da minha identidade cultural.

Para quem tem interesse neste assunto e fala inglês, pode procurar por artigos relacionados à “Third Culture Kid”, ou seja, “Criança de Terceira Cultura”, um termo usado para se referir a crianças que são criadas em um ambiente diferente da cultura dos seus pais e um assunto pelo qual tenho grande interesse!

É muito interessante ver como cada criança estrangeira ou descendente tem uma experiência diferente da outra de acordo com diferentes fatores como idade de imigração, nível de interação, etc. E você, tem alguma experiência para compartilhar conosco? Então não deixe de escrever um comentário! 🙂


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

5 COMENTÁRIOS

  1. As vezes parece ser mais fácil pra uma criança se adaptar, do que um adulto, mas cada pessoa acaba reagindo de uma maneira. Uns se adaptam bem, outros demoram ou nem se adaptam. Deve ter sido difícil pra você quando criança, mas que bom que com o tempo conseguiu se encontrar, se é que posso dizer assim. Eu nunca passei por isso, mas me incomoda muito as pessoas me chamarem de branca apenas levando em consideração a cor da minha pele. Meu avô era negro, o outro índio, tem até asiático três ou quatro gerações antes de mim. Eu tenho muita dificuldade de me enquadrar em uma “raça”. Não sou branca, não sou parda, não sou nada. E é estranho porque tem muitas origens na minha família, mas não tem nenhuma tradição forte que foi passada de geração em geração. Eu sei que são questões diferentes, o seu texto e meu comentário, mas de repente isso me veio à cabeça. Como uma pessoa tão miscigenada, ao mesmo tempo que eu acho o máximo “ser de várias cores”, eu sinto que eu podia ter crescido num ambiente muito rico, cercado de muitas culturas, mas não foi assim. Sinto que toda a história dos meus antepassados se perdeu e tenho um pouco de vergonha de não saber muito sobre eles.

  2. Amei a reportagem, Bruno.
    Muito bom. Às vezes me surge essa dúvida sobre como vou educar e meus futuros filhos poderão lidar vivendo em um país e tendo que aprender 3 idiomas.
    Porque estou noiva de um Sul coreano ee pretendemos ter filhos, porém ele mora nos EUA.

  3. Bruno tmb tem o problema do preconceito ou até de desconhecimento cultural por parte dos nativos do país em que estamos morando temporariamente ou definitivamente.
    Muitas vezes sofri preconceito na escola por ser descendente de japoneses, quando por brincadeira ou não me chamavam de vários nomes que ressaltavam a diferença asiática em relação aos “nativos” (alguns até de forma pejorativa), ou até mesmo me confundiam com chineses, coreanos, filipinos e etc (acho que vc tmb deve ter passado por isso muitas vezes).
    Assim, em alguns raros momentos de paciência eu acabava explicando quais eram as diferenças entre os povos asiáticos e o que cada um tinha de bom em sua cultura, mas em diversas outras ocasiões via que não valia a pena perder meu tempo e tentava simplesmente ignorar ou ficava internamente morrendo de raiva pela tamanha ignorância de alguns.
    Além disso quando era pequena, sempre ficava com receio de fazer amizades com outros asiáticos, principalmente coreanos e chineses, pois temia que eles não iriam aceitar a minha amizade por causa das histórias e brigas do passado que infelizmente nossos países se envolveram.
    Algumas vezes tentei me aproximar deles, mas alguns (não todos, graças à Deus)me rejeitou pq simplesmente eu era descendente de japoneses e que devido as guerras do passado eles nunca iriam ser meus amigos. Imagine essa situação para uma criança?! Algo simplesmente terrível e triste, pois não conseguia entender a não aceitação de alguns brasileiros e até de outros asiáticos que também sofria de preconceito da mesma forma que eu sofria, mas por causa de algo que não cometi sofria as consequências (desde pequena sofria de bulling e não sabia kkkkk)
    Por fim, sei que ser uma “Third Culture Kid” ou Criança de Terceira Cultura não é fácil e que o assunto é vasto e profundo…..
    Mas adorei o seu post….acompanho sempre e me identifico com muitas histórias que vc conta.

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