Kim Dae Jung ao receber o Prêmio Nobel

O século XX, como bem descreveu o historiador Eric Hobsbawn, foi a Era dos Extremos, do radicalismo ideológico, dos confrontos históricos, de transformações sócio-políticas e econômicas profundas. Em especial, aqueles nascidos durantes as primeiras décadas do século presenciariam um quadro de muito sofrimento, mas também de lutas pela eliminação total do colonialismo e do autoritarismo em todas as suas formas.

Neste cenário mundial, viveu o ex-presidente sul-coreano Kim Dae-jung (6 de janeiro de 1924 – 18 de agosto de 2009), cujo mandato de 1998 a 2003, o fez ganhar o único Prêmio Nobel da Coreia e o tornou conhecido ainda como o Nelson Mandela sul-coreano, por suas iniciativas em busca da paz na península. Neste período em que as duas Coreias buscam novamente uma aproximação, relembramos nesta coluna um pouco da trajetória desta figura política percursora na luta pela reunificação, com informações de fontes pesquisadas na internet.

Kim Dae-jung foi o segundo filho de sete irmãos, provenientes de uma família de fazendeiros. Foi registrado com uma data diferente de nascimento, a fim de evitar o recrutamento no período que a Coreia ainda vivia sob o julgo imperial do Japão. Ele é original de Sinan, localizada na província de Jeolla, como era conhecida a região naqueles tempos. A família mudou-se para o município de Mokpo, possibilitando ao filho graduar-se na Mokpo Commercial High School em 1943, sendo um dos primeiros da classe. Morando em uma cidade portuária, trabalhou para uma empresa de navegação japonesa e adotou o nome de Toyota Taichu. Após anos exercendo a função de escriturário, ele passou a ocupar altos cargos da companhia, tornando-se posteriormente seu mais novo dono.

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Kim Dae Jung nos Tempos da na Mokpo Commercial High School em 1943. Foto: The Chosun Ilbo

Kim iniciou sua vida política em 1954, durante a administração do presidente da Coreia, Syngman Rhee. Este último foi o primeiro e o último chefe de Estado do Governo Provisório da República da Coreia, e posteriormente, Presidente da Coreia do Sul de 1948 a 1960, liderando o país durante a Guerra da Coreia e o início da Guerra Fria. Foi considerado uma figura política autoritária que ordenou dezenas de milhares de assassinatos extrajudiciais de partidários comunistas no país, no que ficou chamado de Massacres de Bodo League. Foi reeleito por diversas vezes e usou de métodos ditatoriais para manter-se no poder.

A constatação de fraudes eleitorais em 1960 provocou um protesto estudantil, na chamada Revolução de Abril, que incitou votação unânime da Assembleia Nacional a favor da renúncia do presidente. Nas eleições seguintes, Kim Dae-jung seria eleito como representante da casa em 1961, mas seu mandato seria curto demais, pois logo um outro golpe militar, liderado por Park Chung-hee, pai da atual presidente deposta Park Geun-hye, anulou as eleições.

O jovem Kim Dae Jung. Foto: Jungyoujin
O jovem Kim Dae Jung. Foto: Jungyoujin

Em 1963, Kim tornou-se um líder da oposição, sendo candidato a eleição presidencial em 1971, quase derrotando Park, apesar das inúmeras desvantagens que lhe foram impostas pelo regime. Líder nato e orador talentoso, ganhou em sua região natal mais de 95% dos votos populares, um recorde até hoje na história político-eleitoral sul-coreana. Suas críticas ao governo Park quase o levaram a morte em agosto de 1973, quando foi sequestrado em um hotel de Tóquio, durante seu exílio no Japão. Tal experiência ele contou durante seu discurso ao receber o prêmio Nobel. Segundo ele, a fé católica foi sua aliada em um momento de extrema dificuldade.

Contudo, ele pode contar com o apoio também do embaixador dos EUA em Seul, Philip Habib que intercedeu a seu favor. Em 1976, Kim foi banido da política e preso por ter participado de novos protestos contra o governo. Assim, foi condenado a cinco anos de reclusão em regime fechado, sendo a pena reduzida para prisão domiciliar em 1978. Seus direitos políticos foram restaurados apenas em 1979 com o assassinato do general Park.

No entanto, em 1980, o político voltou a ser preso e condenado à morte sob a acusação de conspiração contra o governo de Chun Doo-hwan, instaurado em um novo golpe. A chegada ao poder de mais um ditador resultou na conhecida revolta popular em Gwangju, documentada pelo jornalista alemão Jürgen “Peter” Hinzpeter, cuja história foi retratada no filme “O Motorista de Taxi” (2007). Mais uma vez a intervenção de figuras importantes como o Papa João Paulo II e do principal aliado sul-coreano, os Estados Unidos, conseguiram amenizar a sentença de Kim para 20 anos de prisão. Posteriormente, ele teria asilo em Boston, lecionando em Harvard como professor visitante do Center for International Affairs. Suas críticas ao governo sul-coreano não cessaram e vários artigos seus foram publicados na imprensa ocidental.

Foto: Time Magazine
Foto: Time Magazine

Em 1985, ao retornar à Coreia, acabou também tendo que voltar à prisão domiciliar. Porém, foi bem-sucedido em retomar seu papel como um dos principais líderes de oposição. Quando Chun Doo-hwan sucumbiu às demandas populares em 1987, Kim e a outra figura proeminentemente contrária ao ditador, Kim Young-sam, finalmente poderiam concorrer em novas eleições e tentaram uma aliança. Contudo, os problemas entre as duas lideranças fizeram com que Kim Dae-jung deixasse o principal partido da oposição, o Partido Democrático da Reunificação, e formasse o Partido Democrático da Paz (RDP) para concorrer à presidência. Com a oposição dividida, o ex-general Roh Tae-woo – sucessor escolhido por Chun Doo-hwan – ganhou com apenas 36,5% dos votos populares. Kim Young-sam recebeu 28% e Kim Dae-jung 27% dos votos.

Em 1992, Kim perdeu outra eleição presidencial, mas, desta vez, contra Kim Young-sam. Nesta época, ele ainda realizou a fusão entre o RDP e o Partido da Justiça Democrática, formando o Partido Liberal Democrata, que viria a ser o Grande Partido Nacional. Passado um tempo, depois de um período na Inglaterra, atuando como professor em Cambridge, ele voltou a disputar eleições, com um novo cenário que se desenhava mais favorável a sua candidatura.

O colapso econômico da Coreia na crise financeira asiática levou a uma oposição massiva da sociedade coreana ao governo em situação. Aliado com Kim Jong-pil, ele derrotou Lee Hoi-chang, sucessor designado por Kim Young-sam, na eleição de 18 de dezembro de 1997. Sua posse marcou a primeira vez na história que o partido no poder transferia pacificamente a presidência para um vencedor da oposição democraticamente eleito em solo sul-coreano.

Kim Dae jung e o então líder norte-coreano Kim Jong-Il (pai do atual líder Kim Jong Un) na reunião de cúpula em Pyongyang. Foto: AFP /KOREA POOL/YONHAP
Kim Dae jung e o então líder norte-coreano Kim Jong-Il (pai do atual líder Kim Jong Un) na reunião de cúpula em Pyongyang. Foto: AFP /KOREA POOL/YONHAP

O governo de 1997 a 2003 foi caracterizado por reformas econômicas que seguiram em parte algumas recomendações do Fundo Monetário Internacional, instituição internacional extremamente atuante na época e que impulsionou reformas neoliberais no mundo todo. Em especial, ele exigiu mais transparência dos conglomerados empresariais e cortou investimentos públicos. Contudo, a política que estabeleceu para a Coreia do Norte foi a causa que viria marcar o seu nome na história mundial.

A denominada “Política do Sol Brilhante” buscou uma aproximação com o governo socialista da Coreia do Norte, culminado em uma cúpula em Pyongyang com o líder norte-coreano Kim Jong-il, no ano 2000. Tal iniciativa marcou uma nova conjuntura nas relações intercoreanas, promovendo o contato direto dos dois países. Por tal conquista, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz. No entanto, o evento histórico foi manchado significativamente por alegações de que pelo menos várias centenas de milhões de dólares foram pagos a Pyongyang e também por outras acusações de corrupção de empresas sul-coreanas que atuaram para tornar o encontro entre os dois líderes realidade.

No entanto, ainda que recebesse várias críticas, ele sempre permaneceu resoluto na defesa de uma política de aproximação e diálogo com os norte-coreanos, visando futuramente a reunificação. Kim morreu no dia 18 de agosto de 2009, no Hospital Severance da Universidade de Yonsei, em Seoul, em razão da síndrome de disfunção múltipla de órgãos. O presidente foi a segunda pessoa na história sul-coreana a receber um funeral de Estado depois de Park Chung-hee. Em suas próprias palavras o ex-presidente em diversas vezes afirmou que a ‘Política do Sol Brilhante’ não pôde ser totalmente concluída, devido às relações conturbadas entre EUA e Coreia do Norte.

Até seus últimos anos, ele tentou convencer George W. Bush a apoiar uma política de aproximação das Coreias, o que foi em vão. No entanto, em demonstração de respeito a sua figura política, a Coreia do Norte enviou uma delegação ao seu funeral.


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