Todo país tem, em seu próprio povo, o reflexo de sua história e essência. Quando uma nação estrangeira, abertamente instala politicas colonizadoras, que suprem apenas e somente os próprios interesses, arriscam mexendo na “onça com vara curta”.

O que quero dizer é que a Coreia, como um todo, ao ser colonizada pelo Japão, sofreu o domínio e perda de características próprias. Contudo, posteriormente a situação mostrou-se ser uma oportunidade para que o povo tomasse voz.

É do grito do povo da Coreia, que podemos destacar um dos grandes nomes consagrados na história. Kim Ku foi um politico, professor, poeta e guerreiro. É desta personagem que vamos falar este mês.

 

Ele nasceu em 1876, na hoje Coreia do Norte, Província de Hwanghae. Kim Ku era sinônimo de rebeldia, coragem e para alguns, era uma ameaça. Porém, era também um líder nato.

Após falhar no Gwageo (Exame Imperial) de Joseon, aos 16 anos, se juntou ao Movimento Donghak (uma rebelião contra o governo e opressões estrangeiras) em 1893 e por isso mudou seu nome para Kim Chang Soo. Com 17 anos, foi apontado como um dos líderes do movimento, que crescia consideravelmente. Agindo com o Movimento, Kim Ku tentou invadir o Forte Haeju, porém o exército governamental derrotou a pequena tropa. Mesmo com essa derrota, houve outras ações do Movimento com indicações e liderança de Kim.

Seu primeiro grande ato foi assassinar um japonês suspeito de estar envolvido com o assassinato da Rainha Myeongseong (já citada neste site como Rainha Min) e foi sentenciado a morte. Mas escapou da prisão e após refugiar-se num templo budista, tornou-se professor.

Assim que foi preso e condenado a morte, muitos coreanos passaram a admira-lo pela bravura e patriotismo. Não somente ocorreram ações para que a sua execução fosse suspensa, mas também petições e recolhimento de doações para seu resgate antes da execução se consolidar.

Na prisão, Kim teve a chance de ler livros recém-publicados sobre cultura e ciência ocidentais. Profundamente impressionado com os pontos fortes da “nova” ciência ocidental, Kim reconheceu a importância da educação para o povo coreano. Assim, ele começou a ensinar cerca de 100 prisioneiros analfabetos.

Continuando a tecer sua história como alguém rebelde, em 1898 fugiu da prisão e escapou para Magoksa, um templo budista em Gongju, província de Chungcheong, e entrou para o sacerdócio budista. Um ano depois, Kim deixou o sacerdócio e retornou a Hwanghae, onde se dedicou à iluminação e educação do povo coreano, fundando a Escola Jangyeon. Em 1907, criou e tornou-se o diretor da escola de Yangsan.

Mas lembramos de que em 1905 a Coreia foi anexada ao Japão, passando a responder como parte colonial do Império Japonês. Kim se juntou aos protestos anti-japoneses e em 1908 acabou se tornando uma das principais figuras do movimento de independência, passando os próximos quinze anos dentro e fora da prisão.

Após a luta do ‘Movimento 1º de Março‘ de 1919 e a subsequente humilhação sofrida por uma delegação coreana na Conferência de Paz da 1ª Guerra Mundial em Paris , Kim se exilou na China. No exílio, suas habilidades de liderança o levaram para a politica, de um modo mais concreto. Afinal, desde adolescente todos seus atos eram políticos.

Depois de servir como Ministro da Polícia, Kim tornou-se o presidente do ‘Governo Provisório da República da Coreia‘ em 1927.

Voltou à Coreia em 1945, após combater na 2ª Guerra Mundial. Ele retornava a um país necessitado de um novo governo. Sem descanso se deparou com um país forçado a se dividir. Contestou logo em seguida, em 1947, a criação da ‘Comissão de Integração Soviético-Americana‘. Quando a divisão parecia mais próxima e irreversível, Kim liderou uma equipe de ex-ativistas da independência em direção a Pyongyang para manter conversações de unificação com Kim Il-sung (que mais tarde se tornou líder da Coreia do Norte).

Em 1948, a ‘Assembleia Nacional‘ inaugural da Coreia do Sul, indicou Kim como candidato ao cargo de primeiro presidente da República. Na eleição da Assembleia Nacional, Kim foi derrotado por Rhee Syngman, o primeiro presidente do governo provisório, porém este sofreu o impeachment em 1925 por 180 votos a 16.

Ele perdeu uma nova eleição para a vice-presidência para Lee Si-yeong por um voto de 133-59. Kim não sabia sobre sua nomeação até depois da eleição. Ele não aprovou a indicação, considerando-a uma manobra para desacreditá-lo. Kim nunca teria participado da eleição, pois se opunha ferozmente ao estabelecimento de governos separados na Coreia do Norte e do Sul.

Kim Ku foi assassinado em seu escritório em 1949 pelo tenente Ahn Doo-hee. Ahn entrou e atirou nele quatro vezes enquanto ele lia poesia. Ahn afirmou que ele matou Kim porque o viu como um agente da União Soviética. Em 13 de abril de 1992, uma confissão de Ahn foi publicada pelo jornal coreano Dongah Ilbo. Na confissão, Ahn afirmou que o assassinato foi ordenado por Kim Chang Ryong (chefe de segurança nacional) sob a administração Rhee.

O historiador Bruce Cumings em 1981 conduziu um estudo onde aponta que outro possível motivo para o assassinato, foi uma suposta ligação de Kim com o assassinato de Song Jin-woo, líder do Partido Democrático Coreano (KDP), que escolheu trabalhar em estreita colaboração com o governo militar americano. Em 2001, documentos não confiáveis revelaram que Ahn estava trabalhando para o Corpo de Contra Inteligência dos EUA, levando a sugestões de envolvimento dos EUA no assassinato. No entanto, alguns questionaram a evidência para estas acusações.

Enfim, Kim Ku escreveu uma autobiografia onde conta sobre seus mais impressionantes atos, sentimentos, e encorajamentos. No final da autobiografia, ele escreveu o poema “My Desire”! (Meu Desejo) o qual evidencia suas motivações para todos seus atos e sentimentos sobre as turbulentas brigas politicas que antecederam a Guerra da Coreia.

Você pode ouvir “My Desire” aqui:

“Se Deus me perguntasse qual era o meu desejo, eu responderia sem hesitação: “independência coreana“.

Se ele me perguntasse qual o meu segundo desejo, eu responderia novamente: “A independência do meu país”.

Se ele me perguntasse qual seria o meu terceiro desejo, eu responderia em voz ainda mais alta: “Meu desejo é a completa independência do meu país, a Coreia”.

Meus companheiros. Este é meu único desejo. Vivi setenta anos da minha vida por este desejo, estou vivendo a minha vida por este desejo e vou viver a minha vida apenas para satisfazer este desejo.

Recentemente, alguns de nossos irmãos disseram que queriam que nossa nação fizesse parte de uma federação de outro país. Eu não acredito nisso, e se há realmente alguém que o faz, só posso dizer que ele é louco e perdeu a cabeça.

Eu estudei as ideias do Confúcio, Buda e Jesus; Eu os respeito como santos, mas mesmo que haja um céu feito por eles, não é uma nação criada por nossa nação, e eu nunca levarei nossa nação para lá.

É porquê, uma nação que compartilhou sangue e história é pura, e assim como meu corpo não pode ser o de outro, a razão pela qual uma determinada nação não pode se tornar outra é o mesmo que os irmãos que moram em uma mesma casa. Se dois se reúnem e se tornam um, um seria mais alto e outro mais baixo, então se torna um problema básico que alguém ordena de cima, e o outro obedece de baixo.

E os chamados esquerdistas negam a pátria do sangue, e dizem isso e aquilo sobre a chamada pátria da ideologia, ignorando irmãos de laços de sangue, e reivindicam o chamado camarada de ideologia e classe internacional de proletariado, e falam como se o nacionalismo esta fora da verdade.

Isso é um pensamento tolo. As filosofias mudam e as teorias da política e da economia são apenas instantâneas, mas o sucesso de uma nação é eterno.

… Eu quero que nossa nação seja a mais bonita do mundo. Por isso não quero dizer a nação mais poderosa. Porque senti a dor de ser invadido por outra nação, não quero que minha nação invada os outros. É suficiente que nossa riqueza torne nossas vidas abundantes; é suficiente que nossa força seja capaz de impedir invasões estrangeiras. A única coisa que desejo em quantidade infinita é o poder de uma cultura nobre. “Isso porque o poder da cultura nos faz felizes e da felicidade aos outros.”

Kim Ku foi uma figura de importância indiscutível. Pouco explorado, contudo. Não encontrei, infelizmente, estudos sobre sua imagem, seus discursos, nada criticamente à sua existência. Infelizmente, parece ser um buraco na historiografia coreana.

Convido vocês, leitores, a assistirem ao filme ‘Ah! Baekbeom Kim Ku’ de 1960, dirigida por Jeon Chang Keun. O filme homenageia o líder politico para alguns, herói para outros. São 145 minutos de um filme-biografia que nos permite envolver com os sentimentos da nação sobre aquele herói que inspirou tantos membros de movimentos espalhados pelo território que tinham o mesmo “desejo”, de libertação, independência e de resistência de algo que, maquiado por desenvolvimentistas, colocavam desde o inicio, em risco a condição de seu país.

Segue, em duas partes, o filme (sem legendas e áudio em coreano).


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