O sonho coreano está tão profundamente enraizado na consciência coletiva que dificilmente há espaço para algum desvio. A fórmula segue sendo estudar dia e noite para obter bons resultados escolares, afim de entrar em uma universidade top de linha para, na sequencia, conseguir um emprego em um dos grandes conglomerados do país.

A cada ano, milhares de novos formandos entram na competição para cargos na Samsung e Hyundai, um sinal socioeconômico de que eles “chegaram lá”. Aqueles que conseguem, começam uma brincadeira de gato-e-rato pelas décadas seguintes, almejando alcançar degraus na escada corporativa, cumprindo a visão de outra pessoa. Trabalhar, comer, dormir – repetir – semana após semana, mês após mês, ano após ano.

Mas por que?

Esta foi a pergunta que a coreana Do You-Jin fez a si mesma quando retornou a Seul em 2013, depois de estudar em uma universidade chinesa e, em seguida, estagiar em São Francisco, nos Estados Unidos. Ela observou seus amigos trabalharem incansavelmente para construir suas qualificações “especificíficas”, para obter certificados para habilidades que eles talvez nunca precisem, apenas para sucumbir a empregos de meio-período no McDonalds, por terem se afundado em dívidas.

Do You-Jin
Do You-Jin

Ela, que teve uma criação tipicamente coreana, também cresceu acreditando nesse sonho. Era comum ver seus amigos trabalhando aos fins de semana ou fazendo horas extras infindáveis. Não importa o quanto estavam sendo pagos, ou que tipo de trabalho tinham. Suas vidas eram exatamente as mesmas. Ela pensou que isso era normal até que estudou no exterior, aprendeu chinês e inglês, e abriu os olhos para um novo mundo.

Enquanto seus colegas diziam odiar seus empregos, ela se recusava a aceitar que tinha que ser desta maneira. “Eles tinham enormes dívidas com mensalidades escolares. Pegavam empréstimos do governo, do banco e as vezes dos próprios pais. Faziam entrevistas todos os dias, mandavam currículos, mas não estavam conseguindo nada do que desejavam“, disse ela sobre o estilo de vida de seus amigos. “Há um monte de coisas incríveis (na cidade)… Você pode ficar o resto da sua vida em Seul, se quiser. Mas esta escolha tem que ser feita por você mesmo. Pense, é isso que eu quero para a minha vida?

O sonho coreano, que tem motivado jovens estudantes ao longo de décadas, tornou-se apenas isso – um sonho. O desemprego dos jovens atingiu um pico de 15 anos em 2015, e mesmo aqueles com mestrado, lutam para encontrar trabalhos de alto nível. Enquanto isso, Seul está sofrendo por ter de assumir o peso econômico do país, uma vez que boa parte da população vem para a região da capital em busca de emprego, e o governo está em um impasse político sobre as reformas trabalhistas.

Em um país com horas notadamente longas de trabalho e a maior taxa de suicídio da OCDE, esta cultura engessada não funciona mais, na opinião de Do You-Jin . Como em muitos países considerados médias e grandes potências, o mercado de trabalho na Coreia está mudando, e empregos de tempo integral estão se tornando escassos. Os jovens não podem mais perseguir o sonho de ter casas grandes, carros e uma vida confortável, como seus pais – simplesmente porque é impraticável. O aumento dos preços nas cidades e a automação de tarefas não criativas também são fatores que irão enxugar o mercado de trabalho.

Do You-Jin, de 27 anos, quer mostrar a seus colegas que há outra maneira de se viver. No ano passado, ela, que costumava ser jornalista da start-up/agência de notícias coreana Venture Square viajou para cerca de 15 países do sudeste da Ásia à Estônia e Panamá para trabalhar em seu projeto, obtido através de crowdfunding, o documentário “One Way Ticket“, que explora o estilo de vida das pessoas na indústria da tecnologia que optam por trabalhar remotamente, muitas vezes por elas mesmas.

Eu acho que a maioria das pessoas na Coreia do Sul não sabem que há outra opção“, disse ela. “Se você é bom o suficiente para viver em Seul, você pode fazer isso em qualquer lugar. Eles estão se subestimando“.

Estes profissionais são chamados de nômades digitais, e o movimento de especialistas em tecnologia que trabalham enquanto viajam pelo mundo, tem sido um estilo de vida aceito em muitas culturas ocidentais. Empresas como a Buffer e a Toptal têm forças de trabalho, na maior parte remotos, incluindo nômades, em todo o mundo. Mas em sua missão, You-Jin reuniu-se com muito poucos nômades da Ásia desde que deixou a Coreia no início de 2015.

Jeon Je-Woo (à direita) e sua esposa Park Mi-Young (centro) apresentam seus planos para a mãe de Mi-Young, no documentário "One Way Ticket" de Do You-Jin.
Jeon Je-Woo (à direita) e sua esposa Park Mi-Young (centro) apresentam seus planos para a mãe de Mi-Young, no documentário “One Way Ticket” de Do You-Jin.

Para Jeon Je-Woo e sua esposa Park Mi-Young, que eram ex-alunos de universidades coreanas proeminentes e deixaram grandes empregos no conglomerado SK Telecom, obter a aprovação de seus pais, era necessário. No documentário de You-Jin, Je-Woo comenta: “Se eu não puder convencer as pessoas mais próximas a mim, que eu sou capaz, como poderei convencer a outros?”

O casal apresentou seus orçamentos e planos para a mãe de Mi-Young, que finalmente apoiou os planos da filha. “Eles veem trabalhando nessa ideia há muito tempo, eu não encontrei uma razão sólida para me opor a eles” disse ela no documentário. “Como mãe, eu não senti que seria certo atravancar o seu caminho“.

A hesitação não é só na Coreia. You-Jin acredita que a hierarquia e a importância da família profundamente tradicional em toda a Ásia, mantém as pessoas inseguras de se virarem por conta própria, além do medo de se apartar do “status quo” de um emprego de colarinho branco.

Especialmente na Ásia, temos fortes laços familiares. Essa é uma das maiores diferenças entre os países ocidentais e a Coreia do Sul. As pessoas têem medo de experimentar coisas novas. As pessoas não conseguem imaginar outra maneira de viver“, disse ela.

A maioria dos assalariados que You-Jin entrevistou em Seul chamou a ideia de trabalhar remotamente de “impossível” e até mesmo “absurda”. Seus amigos também deram desculpas do tipo “não serem talentosos o suficiente” ou “bons o suficiente em Inglês”, mas numa época em que posições em conglomerados coreanos são tão competitivas que a Samsung e a Hyundai precisam fazer seus próprios testes padronizados e rigorosos, ela acredita que nômades teriam mais facilidade em encontrar emprego.

You-Jin observou que, embora muitos países ocidentais estejam familiarizados com o estilo de vida dos nômades digitais, os coreanos nunca ouviram falar do conceito e muito menos conversam sobre isso. Ela recebe muitos e-mails sugerindo que seu documentário deveria ir além dos nômades da população jovem do sexo masculino e branco, mas ela disse que o foco do filme, não é a diversidade.

You-Jin (centro) posa com nômades digitais na Tailândia
You-Jin (centro) posa com nômades digitais na Tailândia

Ter mais diversidade no meu filme era uma meta durante a minha viagem, mas também de vez em quando eu sentia pressão em relação a isso“, disse ela. “Eu percebi que mostrar a realidade atual é a melhor maneira de fazer as pessoas pensarem sobre a diversidade. Eu acho que mostrar a realidade de onde estamos é um ponto mais forte do que mostrar uma visão distorcida em favor de grupos marginalizados, porque mostra o problema como ele é “.

Ela continua a receber comentários pessimistas de leitores em seus posts e artigos na mídia coreana, especialmente sobre o assunto do trabalho remoto. As pessoas têm a idéia [errada] de que os nômades “só querem saber de viajar”, mas ela argumenta que na verdade trata-se da liberdade de localização, que impacta a qualidade de vida. “Foi mais fácil do que eu pensava, viver dessa maneira. Eu não precisava me preocupar com o meu alojamento e comida. Cada dia era uma nova oportunidade“, disse ela.

Ela espera que seu documentário não explore somente os fatores sociais, econômicos e culturais que fizeram o estilo de vida “nômade digital” possível, mas também como esses fatores foram influenciados por esta nova geração de trabalhadores.

O filme é produzido não para os nomades, mas para os telespectadores em geral. Ela quer mostrar-lhes que o estilo de vida não é exótico ou um conto de fadas. Ela também não quer promovê-lo. Quer apenas mostrar que, mesmo que os nômades digitais sejam um exemplo meio louco e radical de como a cultura do trabalho está mudando, este estilo de vida está cada vez mais viável.

Uma das razões pessoais de fazer este filme é que eu realmente espero ver esse movimento acontecendo na Coreia do Sul, porque eu acho que o país precisa disso“, disse ela. “Mesmo que a Ásia esteja um pouco atrás, mais e mais pessoas vão começar a questionar por que devemos ir ao mesmo lugar todos os dias se trabalhamos on-line de qualquer forma“.

Como uma nômade ela mesma, You-Jin não tem planos imediatos de voltar em definitivo para Seul – embora admita que sente falta da comida coreana. Ela, no entanto, virá para a Coreia para encerrar o documentário ainda na primavera, e planeja lançar “One Way Ticket” logo depois, em vários canais.

Para mais informações, visite o site http://digitalnomaddocumentary.com/


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