Um dos aspectos que considero mais bonitos na cultura coreana é o respeito aos mais velhos. É algo enraizado na nossa cabeça desde muito pequenos, influenciado principalmente pela filosofia confucionista e que vem há muito tempo (muito mesmo!) moldando a sociedade coreana. Apenas por curiosidade, as cinco virtudes essenciais segundo o confucionismo são: amar o próximo, ser justo, ter comportamento adequado, ter consciência da vontade dos céus e cultivar a sabedoria e a sinceridade. Mas não é sobre isso que quero falar hoje. Hoje vou contar duas histórias da minha infância, uma envolvendo a minha mãe e a outra envolvendo o meu pai.

Eu vivi em Santiago do Chile dos cinco aos sete anos e estudava numa tradicional escola chamava “Instituto de Humanidades Luiz Campino”, que na época ficava bem ao lado do Cerro Santa Lucia, na Bernardo O’Higgins. A minha família era de classe média mas a maioria dos meus coleguinhas tinha condições financeiras melhores que a nossa. E um dia, tivemos uma festa a fantasia onde haveria um desfile interno com prêmios para as melhores! Naturalmente, eu fiquei todo feliz, sonhando qual seria a minha fantasia! Batman? Super-homem? Ficava perturbando a minha mãe, que dizia que seria uma surpresa.

Minha Fantasia De Zorro, Detalhe Para Cinto Com Coldre Para A Espada Que Está Com O Meu Irmão.
Minha fantasia de zorro, detalhe para cinto com coldre para a espada que está com o meu irmão.

Achei que a minha mãe iria comprar uma fantasia, mas não sabia que passávamos por dificuldades financeiras. E naquela idade, nem poderia compreender o que era isso. O que sabia é que vi a minha mãe cobrindo um pedaço de madeira com papel alumínio, dizendo que aquilo era uma espada. Vi ela cortando cartolina preta e montando um largo chapéu. No dia da festa, ela trouxe esses dois acessórios, uma camisa marrom, uma calça preta e um par de botas e me vestiu. “Pronto, você é o Zorro”, disse ela. “Mas mãe, está feio! E esta camisa é de mulher!”, respondi, super desapontado e fazendo cara feia. Mas mãe é mãe, né? Ela me convenceu a ir assim mesmo e ainda me disse “Quando você passar pelos juízes, levante a espada com convicção!”. No dia do desfile, fiz o que minha mãe mandou, mas depois eu vi um amigo vestindo uma fantasia do Zorro comprada, muito linda! Lembro de ter voltado pra casa de cara fechada, super desapontado…

Meu Pai, Com 70 Anos E Ainda Na Ativa, Mandando Ver!
Meu pai, com 70 anos e ainda na ativa, mandando ver!

A segunda história envolve meu pai, que é um Grão-Mestre de Taekwondo e também Grão-Mestre de Hapkido, duas artes marciais coreanas. Ele sempre foi meu herói e era um grande orgulho vê-lo vestido de “dobok” com aquela faixa preta grossa, “derrubando todos”. Ele começou a lutar com apenas sete anos e era (é) amigo de todos esses que estão hoje no topo do Taekwondo e Hapkido mundiais. Então, nada mais natural do que querer seguir os seus passos, tornando-me professor de artes marciais. Pois um dia, quando eu estava treinando, ele me disse “Filho, não se envolva demais com artes marciais. Estudar é muito mais importante”. Pronto, encarei aquilo como um balde de água fria nas minhas pretensões de também me tornar um professor de artes marciais. Foi uma grande decepção, mas acabei obedecendo a sua orientação.

Hoje, sou pai de duas crianças e mesmo sem perceber me pego fazendo coisas que meus pais faziam. Muitas vezes olho para trás e vejo coisas que eu não enxergava através dos meus pequeninos olhos. Às vezes, sinto arrependimento de atitudes que tive. Como reclamar da fantasia que a minha mãe me fez com o maior carinho do mundo e da ordem de levantar a espada. Ou de ficar frustrado com o meu pai, que não me deixou mergulhar no mundo das artes marciais, como ele fez. Não sabia que na verdade eles queriam me ensinar que na vida, aconteça o que acontecer temos que ter uma atitude confiante e que a educação é a chave para o futuro. Obrigado mãe, obrigado pai, tenho orgulho de ser filho de vocês.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

17 COMENTÁRIOS

  1. Ser pai é se entregar incondicionalmente aos filhos. Não esperar reconhecimento imediato e muitas vezes ser ignorado ou contrariado. Ser firme e buscar a cada dia educar da melhor forma possível é um desafio que enfrentamos sem pestanejar mesmo com a maior das dificuldades. Ser filho é passar por tudo isso é um dia enfrentar os mesmos desafios quando se tornar pai. Não é preciso culpa. O reconhecimento ainda que tardio é a uma recompensa extra para país que veem seus filhos crescer como boas pessoas.

    Com certeza seus pais têm muito orgulho de você!

  2. Adoro suas publicações, também entendo melhor meus pais hoje, apesar de ter sido odiada pelo meu pai durante 26 anos de minha vida sem entender o porque, assim mesmo aprendi muito com ele, não usei como desculpa o odio que ele tinha por mim para ser uma pessoa ruim, ao contrário, sempre procurei ser correta, honesta e responsável. Hoje somos pai e filha, e sei que ele tem orgulho do que eu sou como pessoa…

  3. Sr. Kim, tomei a liberdade de publicar no meu face o que segue, apenas nao mencionando o seu nome, mas colocando em aspas parte de sua citaçao, mesmo porque devo respeitar os direitos autorais, mas que acho relevante para aqueles que partilham os mesmo valores e possam levar adiante aos nossos todos amigos, familiares e curiosos, de como pensamos, agimos e vivemos para colaborar com o bem da humanidade, por meio de palavras e testemunhos, como sao os seus.

    Publicado no meu face: Penso que educaçao eh tudo, e que teriamos adultos mais conscientes e respeitaveis em nossa sociedade, caso agissem de maneira humanamente possivel, ao incultirem na vida de seus filhos o respeito, a dignidade e o amor,
    para sejam melhores cidadaos e pessoas.
    Um exemplo vinga em algum lugar de nosso pais, que enternece nosso coraçao e nos dah esperança, por meio de um educador e ativista das virtudes que devem ser realçadas em todos os seres, independente da origem, raça, cor, sexo, idade e que abomina quaisquer formas de discriminaçao:
    ” … virtudes essenciais são: amar o próximo, ser justo, ter comportamento adequado, ter consciência da vontade dos céus e cultivar a sabedoria e a sinceridade. … pai de duas crianças e mesmo sem perceber me pego fazendo coisas que meus pais faziam. Muitas vezes olho para trás e vejo coisas que eu não enxergava através dos meus pequeninos olhos. Às vezes, sinto arrependimento de atitudes que tive. Como reclamar da fantasia que a minha mãe me fez com o maior carinho do mundo e da ordem de levantar a espada. Ou de ficar frustrado com o meu pai, que não me deixou mergulhar no mundo das artes marciais, como ele fez. Não sabia que na verdade eles queriam me ensinar que na vida, aconteça o que acontecer temos que ter uma atitude confiante e que a educação é a chave para o futuro. Obrigado mãe, obrigado pai, tenho orgulho de ser filho de vocês.”

  4. O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.Platão.
    Quando crianças ou jovens não conseguimos ver aqueles que nos impulsiona para caminhos que nos faz cultivar a sabedoria e a sinceridade, mas quando adultos podemos colher frutos daqueles que tiveram o trabalho de criar-nos é educar-nos .
    Parabéns papai é mamãe de Bruno Kim pela formação de um grande homem.

    Não deverão gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los.(Opinião de Platão)

    • O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.Platão.
      Quando crianças ou jovens não conseguimos ver aqueles que nos impulsiona para caminhos que nos faz cultivar a sabedoria e a sinceridade, mas quando adultos podemos colher frutos daqueles que tiveram o trabalho de criar-nos é educar-nos .
      Parabéns papai é mamãe de Bruno Kim pela formação de um grande homem.

      Não deverão gerar filhos quem não quer dar-se ao trabalho de criá-los e educá-los.( Platão)

  5. Mais um otimo post.
    So quando nos tornamos adultos e pais é q damos valor as palavras dos nossos pais…
    O pior é q os nossos filhos fazem a mesma coisa q nós quando eramos pequenos…kkkkkk

  6. Eu adoro essas histórias sobre família! Quando eu era criança passei por uma situação parecida, era carnaval na escola e eu queria me vestir de Sakura Card Captors. Minha mãe fez uma roupa linda, mas faltava o báculo mágico e a asa, escolhi uma roupa que parecia de fada. Como não havia recurso, meu báculo era um improviso de cabo de barraca infantil (aquelas da Turma da Mônica) um arquinho cor de rosa e uma estrela de árvore de Natal hahaha tudo colado com durex. E minha asa foi meu pai quem fez, com arame, plástico verde e durex. Eu lembro que achei feio e fiquei com vergonha daquilo. Mas realmente quando a gente é criança a gente não percebe as coisas que nossos pais fazem pra gente. Ainda bem que a gente cresce :’)

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