Eu conversava com a minha amiga Miru quando começamos a falar da nossa época de faculdade. Papo vai, papo vem e foi inevitável a gente falar sobre a ABUC, que era a abreviação para “Associação Brasileira dos Universitários Coreanos”, uma entidade que agremiava todos os grupos de universitários coreanos. Sim, isso existia. E se você é um adolescente coreano, é bem que capaz que seus pais tenham se conhecido numa festa promovida por ela! 🙂

A ABUC surgiu na década de 80 com o intuito de promover a união entre os universitários coreanos no Brasil e a divulgação da cultura coreana. Em seus tempos áureos, chegava a juntar cerca de 1.000 coreanos em cada uma de suas festas semestrais. A mais concorrida era sempre a do primeiro semestre, quando havia a tradicional “Festa dos Calouros”. Todas as faculdades preparavam um esquete teatral com os bixos e havia um concurso, que era levado a sério! Entrei na GV em 1993 e participamos com uma apresentação embalada pela música “신 인류의 사랑” do 015B. E ganhamos o primeiro lugar! Foi lá que conheci a Miru, que era da Letras/USP.

ABUC 1995
Parte da diretoria da ABUC em 1995, durante a Festa dos Calouros. Sou eu de colete marron! 🙂

E era assim uma das maneiras de fazermos amigos. Naquela época, a comunidade coreana era outra, menos entrosada com o resto da sociedade brasileira principalmente pela barreira de língua. Era menor e praticamente todos se conheciam. Ou se era de alguma igreja ou se era de alguma faculdade. E cada faculdade ou universidade tinha a sua associação de estudantes coreanos: PUC, FASM, ESPM, FAAP, GV, Santa Casa, EPM, Unip, Belas Artes. E praticamente cada escola da USP tinha uma associação para chamar de sua: Poli, FEA, Letras, Medicina, Direito, Farmácia, etc.

ABUC 1996
Doação para a construção do Colégio Polilogos.

Foi uma época em que praticamente todos tinham a “obrigação” de entrar em alguma faculdade e praticamente todo calouro já era automaticamente membro da ABUC! E era lá que acontecia boa parte das atividades sociais dentro da comunidade coreana. Festas, gincanas, campeonatos de futebol, churrascos, campanhas do agasalho, pedágios. E falando em pedágios, todos iam recolher dinheiro nas lojas do Bom Retiro e Brás. Pasme, todos os 어르신들 ficavam orgulhosos dos calouros mesmo se não os conhecessem e os tratavam como seus próprios filhos, “doando” dinheiro que seria gasto depois em… festas de confraternização! Essa era a essência de ser coreano, o tal do 정!

Hana 1997 (Argentina), evento que reuniu as associações de universitários da Argentina, Brasil, Chile e Paraguai.
Hana 1997 (Argentina), evento que reuniu as associações de universitários da Argentina, Brasil, Chile e Paraguai.

Mas com o tempo, a dinâmica da comunidade coreana foi mudando e a necessidade de existir uma associação de universitários coreanos foi acabando. Todos já falavam português e tinham amigos fora da comunidade e consequentemente houve uma dispersão muito grande. E num determinado momento a existência da ABUC já não parecia fazer tanto sentido aos mais jovens. Aos poucos, foi enfraquecendo-se até (infelizmente) tornar-se inativa no fim dos anos 2000. Tive a honra de ser presidente da ABUC em 1995, época que deixou muitas saudades.

신 인류의 사랑 – Amor de uma nova geração.

어르신들 – Adultos.

정 – Afeto, sentimento de carinho.


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