Neste mês de março de 2019 completou-se o centenário do Movimento de Libertação Nacional 1º de Março. Ainda em março, vivemos a homenagem pela luta feminista de 8 de março. Março é um mês voltado à luta e às mulheres, sem dúvida. Por isso hoje escrevo sobre um assunto delicado, uma reflexão que não deve ser ignorada e o registro da dificuldade de ser mulher na Coreia. Refiro-me aqui as mulheres de conforto, ou seja, escravas sexuais coreanas. Mas não apenas as denominadas escravas sexuais durante o tempo de colonização japonesa ou subjugação militar dos Estados Unidos em suas bases militares, que até hoje não mudaram seus hábitos.

Ao longo da história, a mulher e seu papel na sociedade eram denominados apenas pela sua honra, determinado unicamente pela adesão ao homem. Culturalmente na sociedade coreana (como um todo por séculos no mundo inteiro) a mulher não passa de um ser que deve ser obediente ao homem, fértil, subjetivo e, acima de tudo, sexualmente abstinente. Um ser material fácil de ser dominado pelo ego masculino.

Diferentemente de como ocorria em Silla (57 a/C – 935 d/C) quando as mulheres tinham certa autonomia, e podiam contribuir até mesmo politicamente pelo desenvolvimento do reino, através de trabalho, independente se eram casadas ou não. A mulher naquela época tinham um papel social reconhecido, e algumas chegavam até a ocupar a principal função politica, como rainhas executoras do poder.

Kisaeng vestindo hanbok. Fonte; http://www.sweetandtastytv.com/blog/2013/05/09/7-interesting-facts-about-kisaeng-korean-geishas

Porém, em Koryo (918 d/C – 1392 d/C) a influencia do Confucionismo alterou os rumos de como a sociedade se organizava. No caso, mulheres perdiam direitos e liberdades e os homens “possibilitados” de exercer maior domínio sobre o ser-mulher. Neste tempo, mulheres solteiras passam a ser menosprezadas e excluídas como cidadãs.

Com o passar do tempo, o número de mulheres confinadas dentro de casa e restritas ao trabalho interno e domestico cria uma tradição de comportamento submisso. Com o confucionismo se tornando cada vez mais popular durante o período Koryo, o status que mulheres portavam declinou como um todo e o fortalecimento de uma cultura machista e conservadora se fortalecia.

Como de se esperar, durante a Dinastia de Joseon (1392 d/C – 1897 d/C) a tendência se intensificou e a filosofia confucionista moldaram a imagem de mulher como um ser de fraco encargo e a submissão feminina e sua castidade  era ensinada como um fator importante desde a infância. As meninas então foram ensinadas a reverenciar os pais, dedicar-se aos maridos, fazendo todas suas vontades, obedecer a filhos homens, e aos homens elas confiavam suas vidas, sua liberdade e seu trabalho. As mulheres então pertenciam aos homens e eram eles que tomavam decisões por elas.

Ainda durante Joseon, não apenas a educação puramente determinada apelo confucionismo, mas também leis que determinavam as atividades das mulheres, reprimindo a liberdade física como participar de jogos, festas ao ar livre, etc. Eram assim punidas a chicotadas e confinadas se desobedecessem às leis. E assim foi por séculos.

Então quando Confucionismo e Joseon declinaram, o Império japonês dominou as terras, os recursos, o povo e principalmente as mulheres coreanas. As mulheres coreanas ainda desempenhando seu papel objetificado tornaram-se escravas sexuais, kisaengs e prostitutas dominadas pelos colonizadores. O fim da 2º Guerra Mundial transferiu a dominação japonesa para o exercito estadunidense. Até mesmo obrigavam que as mulheres associada prestação de serviços sexuais aos soldados passassem por exames médicos para evitar contagio de doenças a virilidade do soldado americano.

Com a Guerra da Coreia em seu fim (1953) a Coreia do Sul passou por uma tentativa democratização, falhando ao cair no centralização da ditadura de Park Chung Hee. Ai o papel da mulher se transformou um pouco. Era preciso dar educação e trabalho – evidenciar a mulher coreana para desenvolver o emergente país e consolidar o nacionalismo. Apenas no final dos anos 1950 que a mulher passa a ser vista como um ser humano necessário para o desenvolvimento da nação.

Crianças e mulheres de conforto. Fonte: https://t2conline.com/south-korean-comfort-women-peace-accord-upheld/

Ainda assim, as politicas de censura exercidas durante o governo de Park, no cinema, por exemplo, por falta de liberdade de expressão de narrativas livres, a produção de filmes pornográficos alcançou um nível altíssimo. E não é preciso dizer que nesses filmes pornográficos a mentalidade de que a mulher serve como um objeto de prazer ao corpo masculino.

Recentemente, neste mesmo mês de março de 2019, o mês de luta e feminismo, um dos maiores escândalos evolvendo artistas do entretenimento sul-coreano veio à tona. Investigações acerca de prostituição, abuso sexual com mulheres forçadas a se drogarem, dormir, entre outras descrições difíceis de registrar por aqui estão ocorrendo, porém, aparentemente a imagem “manchada” dos artistas parece mais importante do que o crime em si. Nenhuma atenção a esse tipo de colonização da mulher em pleno século XXI.

Já não bastava a pressão social de ser magérrima linda dentro do padrão imposto, falar manso, aturar injuria e abusos de poder vinculada a justificativa de ser mulher. Apesar de mudanças, a voz ativa de uma mulher na Coreia é pouco considerada. Ainda há as correntes que aprisionam. Cameras escondidas? Videos ponográficos caseiros e produzidos – também escondidos – difundidos na internet entre rapazes.

Manifestação contra cameras escondidas. Fonte:https://www.independent.co.uk/news/world/asia/south-korea-spycam-porn-women-protest-voyeurism-invasion-of-privacy-a8477611.html

O que propus expor neste mês, é que para uma sociedade milenar como a coreana, as mulheres de conforto não foram apenas àquelas escravizadas pelos japoneses e estadunidenses. Elas têm uma história maior e ainda há vestígios presentes na atualidade. Um problema de caráter cultural, infelizmente mundial, e que deve ser combatido todos os dias. A luta de libertação nacional ou a luta das mulheres de oito de março é uma só. Todos os dias e todos os meses, para mulheres, é dia de luta. A lembrança pelas mulheres de conforto, o pedido de desculpas nunca será suficiente enquanto ainda colonizarem as mulheres. Ainda é preciso muita luta, muita transformação e muita voz da autonomia feminina não apenas coreana.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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