Um evento que se fez (re)conhecido apenas em setembro de 1999, o Massacre de No Gun Ri é apenas um dos eventos que a história dos vencedores tentou apagar. A história normalmente é escrita pelos vencedores. No entanto fazer as outras vozes serem ouvidas é um verdadeiro ato de resistência. E de resistência, a sociedade coreana entende desde os confins do século XIX. Contudo, há muito de sua história que foi roubada, apagada e houve um esforço para que fosse esquecida.

O Massacre de No Gun Ri aconteceu durante a Guerra da Coreia. Ainda não entrei na temática da Guerra da Coreia, mas o farei em breve. Resumidamente, com o fim da 2ª Guerra Mundial em agosto de 1945, o Japão após duas bombas atômicas, se rendeu.

Com o fim da guerra, iniciou-se a demarcação geográfica do território coreano, conhecida como Paralelo 38 pois a área norte encontrava-se dominada por soviéticos e o exercito vermelho da China à espera da redição japonesa enquanto na área sul, estava o exército americano também esperando a rendição. Na Coreia, enquanto colônia do país derrotado, jovens líderes de resistência espalhavam movimentos de libertação nacional. Norte e sul possuíam grupos de resistência, que exaltavam seu país, porém, mais uma vez, passava por disputas ideológicas ligadas a influencia de países estrangeiros em seu território. O que inicialmente era uma luta para o fim do Império Japonês e seu exercito, se tornou rapidamente palco de lutas ideológicas culminando na divisão nacional.

No final de junho de 1950 em meio a invasões generalizadas de exércitos dos dois lados em cidades do norte e do sul, deu-se como iniciada a Guerra da Coreia. Recém saída de uma colonização, a Coreia enfrentava novamente perseguições e disputas. A população em geral encontrava-se na linha de fogo sem realmente entender que era preciso escolher um lado e lá ficar, até o fim. Ao menos era o que parecia que os comandos gerais dos exércitos propunham.

Mapa de localização de No Gun Ri

Um mês depois de assumir a grandiosidade das batalhas e invasões, houve uma ordem para o 8º Batalhão do Exército Americano em julho de 1950 para que qualquer civil coreano que estivesse viajando ou se movendo pelo país fosse parado. “À nenhum refugiado é permitido atravessar as linhas de batalha”. Mas a incerteza e o medo fazia com que os refugiados atravessassem a ponte ferroviária próxima da vila de No Gun-Ri. Seguindo ordens do exército americano, soldados abriram fogo sob gritos de “Acabem com tudo. Matem todos” e por três dias, coreanos foi assassinados deliberadamente.

Sobreviventes descrevem ter memória dos trilhos da ponte se tornando vermelhos e dos constantes gritos de crianças. Cerca de 300 civis foram mortos em No Gun Ri.

Reconhecido apenas em 1999, após uma investigação publicada na ‘Associated Press’, o incidente de No Gun Ri chamou a atenção de pesquisadores a fim de diminuir as controvérsias que os relatórios oficiais ofereciam. Numa pesquisa histórica a memória de No Gun Ri dependia dos relatos de sobreviventes e relatórios de oficiais do exercito – que insistiam que havia armas automáticas, não responsabilizando o exercito americano em si.

Assim, a discussão sobre esse evento desenvolveu a problemática de forma clara: Era preciso que os Estados Unidos assumissem sua responsabilidade histórica. As famílias e sobreviventes buscavam reparação.

Pesquisadores usam da história oral para construir um fato, de forma que, ao ouvir dezenas de pessoas, os acontecimentos se provem como similares ou não aos já contados pelas vias oficiais. As narrativas contadas são fonte de descobertas para construir um fato, em cima de memórias. Logo, os arquivos de sobreviventes e relatos de ex-soldados são a mais importante fonte para estudos sobre este evento histórico.

Foto de uma das vitimas do massacre. Fonte:http://nogunri.rit.albany.edu/APpackage2/nogunri/survivors.html

Acreditava-se que havia infiltrados inimigos entre os camponeses que passavam pela ponte” – disse o ex-atirador Herman Patterson. Logo, havia ordens para atirar em civis como forma de proteção, segundo documentos revistos pela equipe de pesquisadores da Associated Press nos arquivos militares americanos e entrevistas com veteranos nos Estados Unidos. Seis veteranos da 1ª Divisão de Cavalaria disseram ter disparado contra a multidão de refugiados no vilarejo de No Gun Ri, e outros  disseram ter testemunhado o assassinato em massa.

Dos relatos de sobreviventes extraíram-se frases como: “Os soldados americanos brincaram com nossas vidas como meninos brincando com moscas” disse Chun Choon-ja, uma garota de 12 anos na época.

A congruência de relatos entre sobreviventes e ex-soldados motivou a criação de 300 petições pelos 300 assassinados por ataques em terra e 100 por ataques aéreos.

Isso torna o acontecimento em No Gun Ri um dos dois únicos casos conhecidos pelos assassinatos em larga escala de civis por tropas terrestres dos EUA nas principais guerras deste século. A outra aconteceu durante a Guerra do Vietnam.

Pelo fato da Coreia do Sul ser aliada aos Estados Unidos, por muitos anos, os envolvidos se viam desencorajados a falar dos acontecimentos em No Gun Ri, pois o próprio governo coreano evitava entrar em conflitos políticos com os Estados Unidos, dada sua dependência econômica.

Em 1997 através de petições pela reparação aos sobreviventes, pesquisas históricas começaram a ser feitas na tentativa de provar que fora uma ordem da 1ª Cavalaria que iniciou o massacre. Em resposta, o Serviço de Reclamações das Forças Armadas dos Estados Unidos disse que não havia provas que mostrassem que a 1ª Divisão de Cavalaria estava na área.

A Associated Press subsequentemente reconstruiu movimentos unitários a partir de coordenadas de mapas em registros de guerra desclassificados. Eles mostraram que quatro batalhões da Primeira Divisão de Cavalaria estiveram na área na época.

Ponte No Gun Ri atualmente.

A ponte em No Gun Ri existe até hoje. Por 49 anos, seu concreto foi profundamente marcado por balas. Algumas partes foram restauradas. Um erro, diga-se de passagem. Afinal é um monumento histórico construído pelo próprio evento. Nenhuma marca de bala deveria ser consertada, nenhuma memória deve ser esquecida, nenhuma história deve ser deixada de lado.

Não há no mundo um evento histórico que não tenha razões maiores do que pareça carregar. Uma simples ponte e um mar de sangue. O combate contra o inimigo invisível ou apenas a afirmação da politica de domínio total.


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