O aplicativo Uber, queridinho de muitos, que já conquistou clientes fiéis ao redor do mundo e revolucionou a forma como a mobilidade urbana é pensada na atualidade, provavelmente não será de grande auxílio quando você pisar em solo sul-coreano.

Disponibilizado pela primeira vez em Seul em setembro de 2013, o serviço de transporte teve uma vida breve e turbulenta. Tendo sido acusada de operar um serviço ilegal, a companhia encerrou suas atividades em março de 2015, menos de dois anos após ter chegado ao país. Na ocasião, o CEO da empresa, Travis Kalanick, e outros 28 funcionários estiveram diretamente envolvidos nas acusações.

Todavia, resiliência é o que não falta à Uber. Já familiarizada com acusações e escrutínios dada a desregulamentação do setor em que atua, a companhia buscou uma abordagem diferente – iniciou canais de diálogo e negociação com a administração local de Seul – e finalmente logrou reiniciar suas atividades no país em 2016, dessa vez com o apoio governamental, aspecto determinante para o seu retorno, após fechar acordo que permitia apenas a operação do serviço premium do Uber BLACK – o UberX permaneceu banido.

Mas, afinal, por que a companhia americana enfrentou tantos desafios ao adentrar o mercado sul-coreano e até hoje não é capaz de se expandir da mesma forma que fez em muitos outros países? Intensa e constante oposição. De quem? De autoridades locais, uniões e empresas de táxi, e dos próprios taxistas.

Taxistas protestam contra lançamento de aplicativo de transporte da Kakao Mobility/Fonte: Yonhap

A Uber nunca havia enfrentado tanto escrutínio regulatório e pressões sindicais como o fez na Coreia do Sul. A 11ª economia mundial possui legislação extremamente rigorosa. Segundo a agência de notícias Yonhap, em 1961, toda forma de transporte comercial realizada por carros particulares foi banida no país. Contudo, em 1994, uma cláusula de exceção foi introduzida para serviços de carona – em que motoristas e acompanhantes têm destinos similares – com a finalidade exclusiva de aliviar congestionamentos em horas de maior deslocamento (horas de pico). Essas horas, não obstante, não foram especificadas, o que abriu espaço para confusão e diferentes interpretações.

E não é apenas a Uber que sofre com essa conjuntura. Nos últimos anos, o tema da mobilidade urbana como um todo tem ganhado força e se tornado o centro de discussões calorosas a respeito da legalidade de novos serviços de transporte (aplicativos de carona) que almejam iniciar suas operações no país, com atenção especial para o aplicativo desenvolvido pela Kakao Mobility, empresa subsidiária da Kakao Corp., gigante sul-coreana de TI provedora de um serviço de mensagens instantâneas usado pela maioria da população sul-coreana, o KakaoTalk (fazendo uso de uma analogia, o KakaoTalk corresponde ao nosso WhatsApp).

Com previsão de ser lançado em dezembro de 2018, o acontecimento foi adiado – e posteriormente cancelado – em virtude de um trágico incidente: a auto-imolação de um taxista, em frente à Assembleia Nacional do país, no dia 10 daquele mesmo mês, em protesto ao lançamento do serviço.

A tragédia chocou o país e inflamou os espíritos de sindicatos, uniões e dos próprios taxistas que, como já haviam feito meses antes, tomaram as ruas de Seul no que foi um dos maiores protestos vistos até então. O taxista Yoon Woo-seok, 62, na ocasião afirmou: “Se o serviço for implementado, minha renda será reduzida pela metade. Eu estarei fadado à pobreza”.

A ativa e enérgica oposição dos taxistas sul-coreanos, que muitos julgam beirar a hostilidade, é um aspecto que merece ser melhor entendido. A classe dos taxistas não possui boa reputação dentre os coreanos, que frequentemente denunciam o mau serviço, a condução imprudente, a falta de educação e o desrespeito às passageiras do sexo feminino. Apesar da veracidade e recorrência desses comportamentos, as condições a que esses trabalhadores estão sujeitos não devem ser desconsideradas. Trata-se de uma profissão que no país é vista como último recurso por pessoas, frequentemente adultos e idosos, que enfrentam problemas financeiros e não encontram outra opção a não ser se sujeitar a longas jornadas de trabalho, elevados níveis de estresse e uma baixa remuneração.

Fonte: Business Korea

Segundo Lee Yang-Deok, Diretor Executivo da Associação Nacional de Táxis, a profissão de taxista na Coreia é licenciada há mais de 100 anos. Os motoristas recebem rigoroso treinamento para conseguir suas licenças – ao contrário dos motoristas dos aplicativos, ele enfatiza – e estão bem capacitados para realizar o seu trabalho. Lee afirma que a frota de táxis no país opera com cerca de 250 mil veículos, número suficiente para atender à demanda existente e, segundo ele, “em nosso país, o sistema de transporte público é ótimo, nós não acreditamos que os serviços de carona sejam necessários”. O Diretor advoga em favor do fim desses aplicativos, uma vez que a indústria de táxis sul-coreana estaria prestes a colapsar com a operacionalização dos mesmos.

Assim, apesar de possuir uma das maiores taxas de “smartphone penetration” do mundo e, por consequência, ter grande potencial para usufruir em larga escala desses novas tecnologias do setor de transporte urbano, a Coreia não se apresenta como o local mais propício para a sua operacionalização. Mesmo os aplicativos de carona sendo aceitos por mais da metade da população sul-coreana, como aponta uma pesquisa feita em outubro de 2018 pela Realmeter, as fortes uniões, rígidas regulações e grande resistência das empresas de táxi e seus trabalhadores são ainda grandes impedimentos à sua popularização e propagação.

A fim de explorar estratégias benéficas a todas as partes envolvidas e amenizar as tensões, o governo, as empresas de táxi e a Kakao Mobility iniciaram tentativas de diálogo em janeiro deste ano. Os participantes acordaram, no dia 7 de março, segundo a Yonhap, que serviços de carona e compartilhamento de veículos serão permitidos de 7:00 às 9:00 e 18:00 às 20:00, não se aplicando a finais de semana e feriados – nesses dias, os aplicativos não devem operar. Também concordaram em buscar uma maior desregulamentação na indústria de táxis e melhorar as condições de trabalho dos taxistas. Cabe aguardar para saber de que forma tais mudanças vão ocorrer, como serão recebidas e outros futuros desdobramentos.

Dica: o canal do Youtube ASIAN BOSS produziu um vídeo sobre o assunto – “Why Uber failed in South Korea” – que vale a pena ser assistido caso você tenha se interessado pelo assunto (legendas em inglês).


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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