Comitê Politico em 1946.

O período de transição pós-colonização e pré-guerra da Coreia envolveu disputas politicas essenciais para entender os estímulos da fragmentação nacional. Este é o primeiro texto que trago sobre as polarizações politicas internas até finalmente começar uma série de textos sobre os pontos principais da Guerra da Coreia.

Neste artigo vamos focar nas atividades da cúpula politica a partir de 1945 e sua responsabilidade na unidade nacionalista do período. Anteriormente a organização de movimentos nacionalistas ficava a encargo do Comitê para preparação da Independência da Coreia (CPKI), porém esse se desintegrou no final de agosto de 1945 com a chegada do exercito dos Estados Unidos para evacuação os vestígios da colonização japonesa.

Movimento de apoio aos líderes politicos dos Estados Unidos e URSS, 1945

Nessa época, o partido da Direita se dividiu e separou-se da CPKI (Comitê Preparatório da Independência da Coreia) e se juntou ao líder politico, ativista social e jornalista Song Jin U (apelidado Goha) iniciando um movimento autônomo para um Governo Provisório Coreano em Chongqing. Ao mesmo tempo, o partido da Esquerda criou o “People’s Republic” (Pessoas da República), dividindo o país em dois partidos de ideologias distintas. Enquanto se organizavam em frentes sociais, o partido da esquerda tomava destaque por ser forte e bem estruturado em suas propostas, enquanto a frente da direita estava mais preocupada com a criação do governo provisório.

É válido ressaltar que o partido da frente esquerda possuía força e muitos adeptos principalmente por ser formado pela maioria dos grupos de militantes da resistência contra a ocupação japonesa. Esses grupos eram formados por socialistas e também nacionalistas exaltados pelas ideias de bem comum e sociedade justa, além de princípios de liberdade para todo o povo.

Ambas as frentes, Direita e Esquerda, se esforçaram para consolidar suas bases de poder e não estavam interessadas em integrar o National United Front (organização com inicialmente 72 partidos pequenos e organizações sociais). A frente Esquerda era composta pela força de organização em massa, enquanto a Direita de pré-japoneses que se tornaram apoiadores da força armada dos Estados Unidos (que posteriormente ocupavam postos na polícia).

Depois de voltar para a Coréia, Syngman Rhee fala ao público, 1945

Logo a Coreia se dividiu em quatro partidos políticos: Korean Democratic Party, National Party, Communist Party e People’s Party. E devido à insistência do Korean Provisional Government em Chongqing e o movimento antissoviético ganhava força lentamente. Enquanto o partido comunista afirmava que a Direita representava um campo de reacionários que contava com forças não apenas antidemocráticas mas também antinacionalistas. Também em um discurso de oposição, afirmavam que o Korean Democratic Party e o National Party eram partidos que se importavam apenas com os interesses de latifundiários e continham viés antidemocrático.

Essas disputas partidárias não resolviam os problemas imediatos da sociedade, e ainda havia a necessidade de reconstrução do país para acabar com vestígios da colonização. Por isso em 1946 foi criado a Coligação Esquerda-Direita. Essa coligação propunha organizar os maiores partidos políticos de forma unitária, a fim de democratizar o país através de princípios básicos que deveriam ser escolhidos democraticamente. Esta Coligação teve duas fases: a preparação e a fissura. Havia um senso de crise do nacionalismo derivada da realização do conflito sobre a junta EUA-URSS que definiram impossibilidades para construir um Estado- Nação forte e equilibrado e por isso os partidos políticos acreditavam que a Coligação era a melhor alternativa do momento.

O exército americano na Coreia (USAMGIK – Militar Government in Korea) dificultou que Rhee Syngman, um dos líderes do Korean Democratic Party e Kim Ku a iniciar oposição à Coligação. Isso influenciou a frente nacionalista da Direita adquirissem algum grau de confiança ante a esquerda, isso mesmo sendo que a Direita ainda precisava se fortalecer perante as camadas populares, logo alguns nomes vanguardistas do movimento de resistência anti-Japão foram nomeados para serem lideres do partido da Direita.

Reunião de Syngman Rhee, Kim Ku e General John Hodge em novembro de 1945 para fortalecer uma oposição ao partido da frente Esquerda.

Vale destacar aqui que as divisões ideológicas já existiam no período colonial e que embora as ideologias e objetivos gerais fossem distintos, havia o propósito principal de expulsar os japoneses para a soberania e fortalecimento nacional.

Logo a colisão do movimento da Esquerda-Direita assumiu de forma concreta a movimentação politica no final de 1946. Seguindo a preparação inicial, os primeiros encontros aconteceram em julho do mesmo ano. A Frente Democrática Nacional apresentou cinco princípios que estipulavam a rejeição e compromisso de novas estratégias do Partido Comunista Coreano havia adotado. Isso foi um obstáculo para que a frente Direita aceitasse os princípios e em contrapartida, a Direita anunciava oito princípios básicos, porém não havia disposição para excluir colaboradores pró-japoneses do governo provisório, além de ignorar a necessidade de uma reforma agrária.

Definidos os pontos propostos pelos dois lados, outros encontros aconteceram para estipular os representantes políticos. Entre setembro e outubro estavam claras as dificuldades em manter a coligação sem criar condições de extrema hostilidade entre os dois lados. Porém insistia-se na coligação.

Depois que o líder politico Yo Um Hyeon retornou de Pyongyang, sete princípios foram anunciados- e desses princípios, dependendo de como fossem usados, iriam abrir vantagem para frente Esquerda. Um dos princípios destacava-se a reforma agraria e resolução dos problemas causados pelos elementos japoneses inseridos no cotidiano coreano.

o líder politico, Yo Um Hyeon.

Mas de todo modo, o Partido Democrático Coreano imediatamente se opôs aos ‘Sete princípios’ tornando-se oposição. Kim Ku (já escrevi sobre ele aqui) inicialmente apoiava os princípios, porém, mais tarde questionou o Comitê da Coligação.

O acordo dos sete princípios da Coligação Esquerdo-Direita ainda não era aceito por parte dos lideres políticos, em sua maioria influenciada por propostas politicas dos Estados Unidos e URSS. Por causa desses conflitos sobre os acordos, um largo numero de nacionalistas saíram do Partido Democrata Coreano e isso significa que a partir d’então a facção centro-direita em uma força politica independente do Comitê de Coligação.

Em outubro de 1946, o Comitê de Coligação organizou uma investigação para entender as crises internas. As questões cruciais caíram sobre a demanda de colaboradores pró-japoneses, que apoiavam posições importantes na policia- levando o Comitê a debater problemas internos da policia, como a presença de colaboradores pró-Japão entre os oficiais coreanos dentro de o Governo Militar dos Estados Unidos, além, da corrupção entre as altas patentes da policia.

Com tantas falhas e desorganização, o Comitê da Coligação Esquerdo-Direita se extinguiu, e dele organizaram os partidos políticos: Partido dos Trabalhadores da Coreia do Sul e o Partido dos Trabalhadores Socialistas.

Kim Ku e outros ativistas politicos, 1945.

Após o fim do Comitê e a definição dos partidos, iniciou-se finalmente a tentativa de democratizar a Coreia com poder moderado, mas em pouco tempo as influencias internacionais romperam as bases frágeis da politica coreana e dos movimentos nacionalistas. Mas isso é assunto para o próximo texto.


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