Nações Unidas, 1947

Acabada a 2ª Guerra Mundial, a península coreana, que passou todos os anos do século XX sob domínio e exploração imperialista tanto do Japão, seu colonizador, como das outras potências imperialistas tirando o máximo de proveito de sua terra e de sua gente, ainda enfrentam, no período pós-guerra a condição mundial de “problema das Nações Unidas”. 

Assim que Japão é derrotado pelos aliados, os Estados Unidos entram na colônia coreana a fim de garantir bases militares em combate às forças do exército vermelho já presentes no norte da península. A posição geográfica da península coreana sugeria uma tomada comunista e os anos finais da Segunda Guerra já sugerem o combate ideológico e político da Guerra Fria. Sendo assim, não podemos considerar a Coreia como um país livre e independente, mesmo com a retirada japonesa de sua colônia. 

A situação da península se torna um “problema” para as Nações Unidas. Isso porque, em  1947 tanto União Soviética como Estados Unidos pressionavam a Coreia a ter compromisso com uma das nações (um dos lados ideológicos no caso, não havia nenhuma possibilidade de reconciliação entre ambos). Logo, os Estados Unidos decide levar a questão da conciliação coreana para as Nações Unidas. Isso foi inevitável para a divisão permanente da nação. 

Compreender que a investida dos Estados Unidos definindo a problemática política da península para ser determinada pelas Nações Unidas implica que a Coreia, após anos de colonização, ainda não era considerada um país forte e capaz de determinar sua própria condição política. Claro que as Nações Unidas eram unidas principalmentes por nações imperialistas de concordância com as políticas estadounidenses anti comunistas. 

Tanto fato, que a afirmação de um oficial militar de uma das bases militares na parte sul da península afirma que “A real explicação para os americanos se firmarem na Coreia é primordialmente a ocupação da Coreia do Sul para lutar contra a influência soviética. Isso nada tem a ver com estabelecer a democracia no país.”

Contudo, caso você leitor, tenha lidos os textos anteriores da seção ‘Tensões pré-guerra’ já leu sobre as dificuldades de organização política entre os diversos líderes e partidos políticos que se formavam desde a ocupação japonesa. Também já compreendeu que as divisões políticas eram frágeis e democracia era algo nunca inserido na sociedade coreana, que precisava de cuidados para se organizar. A narrativa dos Estados Unidos em “auxiliar no estabelecimento da democracia” ainda usada em diversas nações, justificando implementações grosseiras de domínio militar, foi usada também na Coreia. 

Demonstração de apoio a Comissão Da URSS-EUA em 1946, na Coreia do Sul [Fonte:
Korean People Journal – Japanese book “The First Anniversary of Korean Liberation” published by Shinkan Sha]
Levar o “problema coreano” às Nações Unidas permitiu tempo aos Estados Unidos para determinar seus interesses e influenciar os partidos de direita da Coreia, para ter um apoio popular. Enquanto isso a União Soviética defendia a retirada de ambos poderes da península para que a própria nação se reorganizasse e afirmavam que, enquanto houvesse partidos de Direita na península, eles não chegariam a acordos políticos e independência entre os seus, principalmente, porque estavam sob influência direta estadunidense – que por seu lado, argumentava que estavam no direito de expressão. 

Em maio de 1947 a comissão que definiria a situação coreana iniciou as primeiras comitivas. Em julho, a justificativas para novos encontros consistiam em afirmar que não haveriam acordos mas ainda aconteceriam encontros de discussão. Depois disso, os Estados Unidos enviaram o problema diretamente para Washington como um problema dos Estados Unidos a ser resolvido por si, e isso forçaria as Nações Unidas a exigir a retirada do país americano da península. 

Para as Nações Unidas, não era espanto entender o problema coreano como teste de superação entre Rússia-EUA e que politicamente, por mais que houvesse lideranças nacionais, eram as forças estrangeiras que definiriam o futuro da península. A estratégia de ambas potências era não perder o controle para não fragilizar, diante do mundo, o conceito defendido. Portanto se EUA falhasse na politica coreana, automaticamente daria vantagem a URSS. Por isso, as Nações Unidas apoiaram as eleições democráticas na Coreia do Sul a fim de conduzir a ordem internacional política.

Estados Unidos em comunicação com União Soviética considera a recepção da Comissão das NU para acompanhar e legitimar os acontecimentos políticos eleitorais da Coreia. Caso a Soviética declinasse, EUA reforçaria o caso para as Nações Unidas e se houvesse falha de seu interesse particular (partidos estimulados pelos EUA perdessem), também garantiria a independência da Coreia do Sul. Um documento foi emitido com algumas considerações para a US, tornado contraditorio alguns acordos com o que os sovieticos vinham defendendo desde o inicio do conflito.

Um cidadão da Coreia do Sul deixa seu voto na urna, coma supervisão de oficiais em Nae Chon. [Fonte: United States Library of Congress’s Prints and Photographs division under the digital ID cph.3b13550]
Com eleições marcadas para 1948 sob o olhar das Nações Unidas, a Coreia do Sul podia garantir um maior número de representantes para ser eleito com a ideia de que poderiam estabelecer um governo nacional, e organizar soberanamente suas políticas e forças nacionais, propondo a retirada de ambos países da península e considerando o evento como a solução do “problema coreano”. 

Porém a União Soviética argumentou que as eleições não estavam caminhando de acordo com o tratado entre as duas potências, dando claramente benefícios para que os acordos entre Nações Unidas, EUA e Coreia do Sul fossem facilitados  e por isso a NU interpretou que a US estaria rejeitando o compromisso da comissão pelo problema coreano. 

Com as eleições de 1948 e a constituição do Governo Nacional da Coreia foi estabelecido que EUA e US deveriam retirar as forças e bases militares o mais rápido possível. A vitória partidária seria paralelamente uma vitória dos Estados Unidos e as políticas estadunidenses em acordo com as Nações unidas eram inoportunas para a Coreia. A unificação total da Coreia já não era mais viável pelas alegações entre União Soviética e Estados Unidos sobre a impossibilidade de retirada de um enquanto o outro permanece. Com a vitória do partido de Syngman Rhee com o apoio dos EUA, a União Soviética considerou a necessidade de continuar fazendo da península, palco de combate político contra os Estados Unidos, já que não estava sendo criado de fato um país soberano unicamente pelos coreanos. 

Eleição geral sul-coreana em 10 de maio de 1948. [Fonte: Comitê de História da Cidade Metropolitana de Seul. https://aulazen.com/historia/ocupacao-da-coreia-pelos-eua-e-urss/]
Faltava pouco mais de dois anos para eclodir a Guerra da Coreia que definiria a partição definitiva da península. Estados Unidos e União Soviética continuavam suas negociações que mantinham os interesses de levar toda península ou perder metade dela  para um status natural do resultado. As políticas americanas de interferência com as Nações Unidas apenas maquiaram a condição do aproveitamento da fragilidade política da península. De 1945 a 1950 mesmo que houvesse tentativa de criar a soberania nacional coreana, era claro ao mundo todo que a península era apenas o palco do conflito direto União Soviética e Estados Unidos e não pertencia a si mesmo nem a responsabilidade de auto recriar-se, pois o atrasos de acordos via Nações Unidas encheram de esperanças vazias o povo coreano que ainda buscava a liberdade.


Textos utilizados:  Kim Jung Wung –  America’s Korea Policy and the United nations, 1947-48  e Yang Song Chol – The United Nations on the Korean Question since 1947


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