A China e o Japão entraram em conflito na Guerra Sino-Japonesa para decidir qual país teria autonomia de proteger a península coreana das rebeliões que estavam acontecendo entre os camponeses e o governo. O país, já enfraquecido o suficiente, clamou por ajuda internacional. O conflito acabou culminando com a vitória japonesa (Tratado de Shimonoseki). O Japão ao colonizar a península em 1910 já enfrentava movimentos de resistência de caráter nacionalistas. Os grupos nacionalistas que se formavam dentro e fora do território coreano, tinham como objetivo comum, a libertação da colônia e restabelecimento de um Estado Soberano. 

Atualmente, cerca de 75 anos desde a dissolução da colônia japonesa na Coreia, ainda é difícil falar da emancipação total da sociedade coreana. Voltando em sua história, enquanto as nações se enfrentam na Segunda Guerra Mundial e acordos diplomáticos fervilhavam entre as potências da Aliança e do Eixo, na Coreia os movimentos de resistência enfrentavam não apenas os japoneses, como também a insuficiência de organização política que determinaria seu futuro. 

Similar a tantos outros países colonizados durante o século XIX, movimentos nacionalistas emergiam constantemente entre os coreanos, com grande senso de proteção da identidade cultural e hegemonia natural. Enquanto a ofensiva japonesa determinava a aniquilação de identidades da cultura coreana – como, por exemplo,  proibir a língua coreana – também limitou atividades políticas, sendo que essas eram comuns entre a aristocracia e intelectuais nos séculos anteriores.

Sendo assim, os líderes políticos que conduziam os movimentos de resistência eram líderes com contatos internacionais e condições de debates insistentes sobre a libertação. Aproveitando o frágil momento entre os anos 1930 e 1940 em que o Japão priorizava a Guerra, os líderes se destacaram efetivamente. Após alguns exílios de membros, parte dos grupos de resistência situavam-se na China, Rússia e Manchúria e a vigorosa influência socialista se destacava nas identidades dos movimentos. 

Dentre os nomes que mais se destacavam entre os líderes dos movimentos, encontravam-se o conservador Syngman Rhee e o comunista Kim Il Sung. Vamos destacar aqui a atividade conflitante de Rhee, que como antigo membro da burguesia e cristão, considerava  o arquétipo imperialista como modelo a ser tomado assim que a Coreia conquistasse sua independência. Rhee defendia que era necessário estabelecer acordos diplomáticos com os países imperialistas de modo que fizessem parte dos interesses da Coreia, mesmo que honrasse os acordos de exploração com o Japão.

Rhee, como líder de movimentos da burguesia, considerava que a libertação traria a força para a modernização da sociedade coreana, porém essa força era projetada na ideologia de darwinismo social, determinando que a burguesia iria, além de trazer a liberdade da nação, promover a evolução social com apoio de outras nações poderosas, como os Estados Unidos. 

Kim Il Sung e Syngman Rhee. Foto: SidePlayer

Nessa situação, Rhee se tornou o homem responsável pela afinidade do interesse dos Estados Unidos sobre a península coreana. Com as manifestações dos grupos de resistência que se intensificaram durante a Guerra Mundial, os vários líderes políticos organizaram meios de estruturar as vertentes políticas. Os líderes políticos sistematizaram-se em alinhamentos ideológicos e partidos possíveis para condicionar o arranjo pós libertação. No entanto, havia falta de unidade entre os nacionalistas, e esse é um dos argumentos que justificam a eclosão da Guerra da Coreia, mais tarde em 1950. 

Um ponto pouco comentado sobre a situação da península coreana na balbúrdia diplomática entre os países em guerra, é que os Estados Unidos não considerava se esforçar para auxiliar a Coreia. Nisso, os vários movimentos coreanos buscavam centralizar o poder através de um governo provisório, admitindo que o Japão não mais exerceria força política entre aquela sociedade. Rhee viu a oportunidade que precisava para ser aclamado presidente da Coreia, portanto passou a trabalhar suas influências nos Estados Unidos chamando atenção para interesses distintos, seja dos Estados Unidos, como dele próprio.

Rhee, claramente opositor do comunismo, interviu nas possíveis ações dos Estados Unidos sobre a península. Enquanto os líderes políticos de movimentos, tentavam se organizar politicamente pelo Governo Provisório Coreano, e assim adquirir autonomia se livrando tanto da colonização japonesa, como das determinantes das Nações Unidas, Rhee articulou no inícios dos anos 1940, sua posição como representante oficial do Governo Provisório (mesmo que ainda não tivesse nada decidido).

Porém, funcionários americanos bloquearam as primeiras intenções de Rhee, ao analisar que considerar uma política estável na Coreia não era viável, até que fosse possível eliminar as intenções das outras potências aliadas. Significa que a descentralização política da Coreia, não era interessante aos Estados Unidos em primeiro momento, mas Rhee persistiu na condição.

Presidente Syngman Rhee com o General Americano Douglas MacArthur na cerimonia de fundação da República da Coreia do Sul. Foto: (Carl Mydans/The LIFE Picture Collection via Getty Images)

Colônias já desfaziam-se, e a atenção maior dos Aliados era sobre a Índia e Grã-Bretanha. Era consensual o alargamento dos exércitos da China e Rússia pela Ásia, e de que o Japão era o inimigo que deveria ser não apenas derrotado, mas também penalizado. Rhee apresentou-se, com uma cópia de um comunicado do jornal em 10 de dezembro de 1941, onde anunciava que Washington simpatizou com o desejo de todas as pessoas sujeitas à libertação da Coreia, mas não pretendia reconhecer “movimentos livres” de grupos exilados, ou seja, os movimentos de resistência que em sua maioria eram comunistas, foram taxados como obstáculo para que os Estados Unidos auxiliasse na libertação coreana.

Ele afirmou que o movimento de independência da Coreia e os Estados Unidos estavam, como muitos outros, sujeitos a essa política. E do outro lado, o Japão perpetuava os estereótipos sobre os coreanos, para defender que a colonização na Coreia foi estabelecida por incapacidade de uma organização política puramente coreana para torná-la uma nação independente. 

Os outros líderes que se mantinham divididos entre partidos de Esquerda, de Direita e de Centro discutiam os rumos que a política coreana tomava. Rhee rebateu as formações partidárias, declarando a falta de unidade entre os nacionalistas coreanos e “daqueles cuja  intenção de reconhecer reivindicações de independência da Coreia”. Ele denunciou “oportunistas” e comunistas como pessoas que procuravam utilizar a guerra do Pacífico “para estabelecer liderança própria.”

Rhee, claramente contrário às organizações políticas, mais uma vez recorreu à Comissão estadunidense para que ele fosse reconhecido o primeiro líder do Governo Provisório.  Agentes americanos responsáveis pela comunicação gostaram da ideia de organizar um exército irregular coreano, mas questionaram a capacidade de anunciar o apoio do ‘Conselho da Guerra do Pacífico’ à Independência Coreana pois uma declaração referente apenas à Coreia seria inoportuna, uma vez que a situação da Índia não havia sido resolvida. 

Logo, os Estados Unidos aconselharam que a ideia de governo provisório fosse adiada tanto quanto a ideia de independência coreana para um futuro propício. Enquanto isso, os Estados Unidos assumiram “fazer tudo possível promover a organização e o equipamento de um exército coreano” além de promover a unidade entre os vários grupos coreanos.” Sob as circunstâncias, no entanto, os esforços americanos para unir as facções coreanas tinham poucas chances de sucesso. Rhee se opôs a qualquer coligação, pois segundo eles, os grupos nacionalistas estavam infestados de comunistas.

Assim, pelas determinações estadunidenses, a estratégia de usar a Coreia apenas para seus próprios interesses futuros, tinha aliados. Não apenas um líder político como também a falta da unidade entre os nacionalistas. A investida americana era inevitável, principalmente quando na Conferência do Cairo, saiu à frente do bloqueio do Japão ao usar a estratégica posição geográfica coreana que era interessante tanto para Estados Unidos, como para a China.

O embaixador responsável pela comunicação entre Estados Unidos e Rhee, Cromwell, enfatizou em uma carta que o reconhecimento e a “ajuda viável” dos Estados Unidos facilitariam o desenvolvimento de “atividades revolucionárias organizadas” na Coreia e, portanto, contribuiria para vencer a guerra contra o Japão. 

Ao saber dos esforços de Cromwell, Kilsoo Haan, um líder político oposto às ideias de Rhee imediatamente tentou desacreditar o Governo Provisório ao Conselho Coreano-Americano, estrategicamente para que o interesse dos Estados Unidos diminuísse. Em uma série de cartas aos funcionários do Departamento de Estado, ele acusou Rhee de uma “ganância egoísta pelo poder” e descartou o plano do Governo Provisório e as atividades revolucionárias.

Haan insistiu que todos os “verdadeiros patriotas coreanos” lutassem contra os japoneses até o fim e não esperassem conquistar a independência devido influência americana.  

Soldados coreanos e americanos assistindo a um bombardeio em uma vila, 1948. Foto: Fox News

Apesar dos esforços pela organização política e determinação da liderança para a nação coreana, Rhee argumentava que a União Soviética tinha força e parecia mais interessada em auxiliar a libertação da península coreana do que os Estados Unidos. Entre seus argumentos havia a “certeza do estabelecimento da União Populista Soviética da Coreia” como consequência inevitável, caso os Estados Unidos continuassem a recusa de reconhecer o governo provisório, podendo culminar em uma Coreia comunista. Esses argumentos chegaram aos estados Unidos como determinantes da inevitável entrada americana na península. 

Não seria diferente, dentro do contexto geopolítico entre os anos de 1942 e 1945 que os Estados Unidos tomaria por responsabilidade a autonomia coreana, pois sempre foi um ponto interessante e fácil de dominar. Também estamos longe de responsabilizar a falta de unidade política entre os líderes de movimento da libertação coreana, como argumento de alguns historiadores coreanos, quando escrevem sobre a prévia da Guerra da Coreia.

Conforme apresentam que a disposição de concentrar alianças diplomáticas contribuíram para subestimar a importância do nacionalismo coreano, cuja ideologia havia sido construída durante anos de resistência contra o governo japonês e a aristocracia entreguista do início do século XX, a experiência colonial em seus primeiros anos auxiliou a unidade de resistência mas não dissolveu por completo a mentalidade burguesa assistente de uma entrega nacional aos interesses americanos, até hoje manipulados e reféns.

Mesmo seu nacionalismo contemporâneo precisa se desamarrar por completo da influência que impede a soberania real coreana, porém, muito longe de falta de organização política e polarizações nós percebemos ainda a mesma mentalidade culturalmente encadeada que permitiu tais alianças. 

N/A: Texto originalmente postado na Revista InterTelas


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