Estudantes na Praça Provincial. [[Fonte: https://asiasociety.org/korea/gwangju-uprising-divided-country-within-divided-peninsular]

Enquanto o próprio Estado tenta calar seu povo e oferecer migalhas, sempre haverá estudantes gritando em resposta do outro lado. A massa popular coreana aprendeu a ser resistência desde o final do século XIX, quando a consciência de que ali naquele território o povo era pelo povo e não haveria força maior que os derrotaria. O povo coreano foi resistência durante a colonização japonesa, entrada dos Estados Unidos e China no país, sobreviveram a Guerra e Divisão Nacional, e não estremeceram diante a ditadura entre os anos 1960 e 1980.

Com o calamitoso século XX marcado por mais de 30 anos de colonização japonesa, palco de conflitos ideológicos e três anos de Guerra que determinaram a divisão nacional, a repressão continuou sendo o contexto de desenvolvimento para a Coreia do Sul. Em busca de uma estabilidade no modelo capitalista liderado pelo Estado, o caminho seguido era a da repressão da ditadura instaurada por Park Chung Hee entre 1961 e 1979.

Estudantes em protestos contra o governo em maio de 1980 [Fonte:http://blog.naver.com/PostView.nhn?blogId=jungwoo629&logNo=220712843820&categoryNo=6&parentCategoryNo=0&viewDate=&currentPage=1&postListTopCurrentPage=1&from=postView]
O regime de Park desenvolveu a explosiva industrialização por meio da exploração de politicas trabalhistas repressivas em um sistema chamado Yusin. Esse sistema Yusin denominava restrições às liberdades civis com justificativas como a “necessidade de disciplina na força de trabalho para combater a Coreia do Norte”. Basicamente o regime intencionava fortalecer o país Coreia do Sul usando como base a exploração da classe trabalhadora, em ações exaustivas incluindo restrições e salários baixos. As medidas tomadas por Park no regime pertenciam às Diretrizes de Segurança Nacional, que denominava as medidas tomadas como exclusivamente benéficas pelo fortalecimento nacional.

Com seu assassinado em 1979, um – muito – breve período de democracia vigente na Coreia do Sul possibilitou que trabalhadores exigissem melhores condições de trabalho, tal qual estudantes e intelectuais clamavam por melhorias e liberdade acadêmica como reforma social. Os protestos dos estudantes continuaram até a primavera de 1980. Ano em que o general Chun Doo Hwan quebrou o ideal de politicas democráticas e deu um golpe militar, tomando poder.

Se enquanto o regime de Park, os movimentos de democratização haviam sido abolidos, no final dos anos 1979 ressurgiam com velocidade por todo país e das mais diversas reinvindicações. No inicio de 1980 sindicatos estudantis foram organizados para liderarem manifestações nacionais por reformas sociais, democratização e respeito aos direitos humanos, além de luta por direitos trabalhistas como salário mínimo e liberdade de expressão nos meios de comunicação em massa.

Porém em maio de 1980, a cidade de Gwangju, na província de Jeolla (ao sul), eclodiu em uma revolta popular contra o novo líder militar, General Chun Doo Hwan. O novo ditador reagiu violentamente e matou centenas de cidadãos de Gwangju. Este evento é conhecido como o Massacre de Gwanju. Mas os protestos não paravam apesar do aviso sangrento do novo general.

Foi em maio de 1980 que estudantes se reuniram na Universidade de Chonnam, a fim de impedir seu fechamento. Durante a manhã cerca de 200 estudantes entraram em conflito com as forças militares que agiam sob ordem do novo presidente ditador. Para o período da tarde o número aumento para mais de 2000.

À medida que o conflito crescia, o exercito passou a atirar nos cidadãos, nos dias 20 e 21 de maio, motoristas de taxi e ônibus se juntaram aos estudantes contra as forças armadas. Mas na tarde de 21 de maio, o ápice da manifestação, o exército literalmente massacrou a multidão que protestava em Chonnam. Em resposta,  civis manifestantes invadiram a delegacia. Quase ao anoitecer, tiroteios sangrentos entre as milícias civis e o exército irromperam na Praça Provincial.

Os conflitos continuaram por dias e se alastravam por outras cidades. A Coreia do Sul estava tomada por manifestações de estudantes em conjunto de reivindicações trabalhistas e sociais contra as politicas tomadas por anos de repressão devidamente exercendo o poder com o único objetivo de crescer economicamente no padrão capitalista. Não foi dado um número exato de morte dos civis nos dias de protesto e massacres, mas cerca de 130 civis e 22 soldados foram mortos. Inclusive existe uma discussão alegando que pelo fato de que o numero de civis mortos em três dias serem relativamente baixo, o evento não deveria ser considerado um massacre.

Estudantes presos sendo elvados pelo exército d Coreia. [Fonte:https://www.religiousleftlaw.com/2018/05/the-gwangju-uprising-may-18-1980.html]
Após cessar o fogo nos protestos, o governo exigiu a prisão de possíveis instigadores da rebelião: Kim Daejun e seus seguidores. Kim Daejun foi condenado à morte como punição e quase 1400 pessoas foram presas. Ser preso em uma ditadura militar na Coreia não se diferencia aos presos políticos durante a ditadura militar brasileira, logo não vamos entrar nesses detalhes.

A Revolta de Gwanju impactou profundamente a história politica da Coreia do Sul, não apenas por consolidar a moral de resistência que a massa popular da Coreia se envolvia desde final do século XIX, mas também estremeceu ainda mais o governo de Chun Doo, que enfrentava crises de um governo fraco desde o inicio do mandato. Autorizar o exército massacrar publicamente a própria população prejudicou ainda mais sua legitimidade. Era uma catástrofe, sem dúvidas, pois os dias de revoltas em Gwanju e cidades próximas foram referencia para dezenas de outros movimentos de resistência posteriores durante a década de 1980. Esses movimentos eventualmente levaram a democracia à Coreia do Sul, por isso a Revolta de Gwangju é conhecida como um dos símbolos de luta sul coreano contra os regimes autoritários e pela democracia da nação.

O ativismo politico de estudantes na Coreia vem desde os movimentos de libertação em 1919, 1926 (a primeira em Gwangju) e 1929. Dezenas de protestos e manifestações liderados por estudantes marcam a história moderna da Coreia. E ainda em 1960 com a Revolução Estudantil de Abril. Estudantes coreanos desempenham por si, um dos principais papeis de liderança pró-democrática seguindo uma linha de discursos da moral e cultura coreana, já que historicamente os intelectuais eram considerados a “consciência da sociedade” ou “guerreiros contra a escuridão”.

Exército Sul Coreano agredindo estudantes em protestos pela democracia, em 1980. [Fonte:https://www.religiousleftlaw.com/2018/05/the-gwangju-uprising-may-18-1980.html]
No contexto, o massacre a estudantes de Gwangju pode servir como estimulante histórico para fortalecer os discursos morais entre os intelectuais e estudantes universitários após a década de 1980 quando a Coreia do Sul enfim se democratizava. Culturalmente, a razão do desenvolvimento coreano sempre se efetuou devido o investimento à educação. Sempre foi o trunfo de seu caráter progressista investir na educação e pesquisa cientifica (ao menos são os argumentos usados até hoje).

Qual grande erro é não ouvir suas manifestações (a dos estudantes) e pior ainda: o esculhambo, a agressão determinada a por um fim justamente a esses estudantes (dita às cores iluminadas da Coreia), defensoras da nação e democracia e autores de opinião pública. Estados sempre caem nessas armadilhas. Os estudantes continuam em pé, marchando.

Estudantes em protesto contra o governo autoritário em 1980. [Fonte:https://www.huffingtonpost.kr/jingeol-ahn/story_b_16995800.html]

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2 COMENTÁRIOS

  1. Que artigo bom!
    Em um momento no qual o desempenho dos estudantes da Coreia do Sul está ironicamente sendo usado como forma de comparar e legitimar o desmonte da Educação no Brasil, como se eles apenas estudem silenciosamente sem se manifestar politicamente, eis que surge esse artigo como forma de demonstrar o quão importante historicamente é o movimento estudantil!
    É o Koreapost se mostrando cada vez mais atual e inteligente. Maravilhoso!
    Ainda não vasculhei o site, e não querendo abusar, gostaria muito de ler algo sobre a relação entre o último escândalo da indústria K-pop e o sexismo existente na Coreia do Sul. Essas análises sociais relacionadas à história e cultura são mara!!!!
    Saranghae!

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