Sem dúvidas, uma das coisas que mais gosto do Brasil é a sua mistura de etnias e culturas! Obviamente ainda temos problemas sérios como preconceito e desigualdades sociais, mas onde mais podemos encontrar judeus e palestinos, coreanos e japoneses, portugueses e espanhóis vivendo harmoniosamente no mesmo espaço? E essa característica é ainda mais acentuada na cidade São Paulo, onde por exemplo encontramos mais restaurantes japoneses do que churrascarias!

imigracao
Fonte: alessamusic (Foto: Porto de Busan com destino para o Brasil)

De uma certa maneira, todas as famílias de imigrantes tem uma história parecida, onde as primeiras gerações sofreram de diversas maneiras: barreira de língua, desconhecimento cultural, adaptação a um novo lugar, saudades da terra natal. E com a comunidade coreana não foi diferente. Às vezes tento colocar-me no lugar dos primeiros coreanos que chegaram ao Brasil e fico imaginando o quão sofrido deve ter sido a experiência de deixar a Coreia para vir para cá. Porque nada, absolutamente nada era parecido! Comida, comportamento, língua, feições do rosto, nada! Na bagagem, somente a coragem para enfrentar uma viagem de navio de meses com a esperança de alcançar uma vida melhor para as suas famílias.

william woo

Oficialmente, a imigração coreana começou em 12 de fevereiro de 1963. Há inclusive uma lei municipal paulistana de autoria do atual deputado federal William Woo que oficializou a data comemorativa (Lei 13.222/01) em uma justa homenagem. Mas houve coreanos que chegaram na década de 50 e relatos de outros que vieram no início do século XX. Dados não oficiais estimam que cerca de 50.000 coreanos vivam no país, a maioria concentrada em São Paulo. Mas não é possível confirmar os números com precisão por diversos motivos, sendo um deles a miscigenação que traz dificuldades na contagem.

data da imigracao

Já ouvi muitas histórias de sofrimento de imigrantes coreanos, mas tem duas experiências pessoais que gosto muito de contar. Uma delas ainda gosto de ouvir diretamente do meu avô, ainda vivo e prester a fazer 90 anos. Ele dizia que no início era tão complicado viver que nem dinheiro para comida havia. E como eu chorava por algo para comer, ele ia à feira pegar as bananas que sobravam no chão, cortava as partes ruins e me dava. Outra experiência é o fato de que desde muito cedo tive que ser intérprete dos meus pais porque aprendi o português muito mais rapidamente do que eles, que até hoje falam um português à la Dona Armênia, tipo “o pacote está na chon”, sem concordância ou fluência alguma.

brasil e coreia

Hoje, considero essas dificuldades como um grande aprendizado pelo qual passamos, pois com certeza o caráter dos descendentes da comunidade coreana foi moldado em cima dessas experiências. Se antes eu reclamava por que não podia brincar para ter que acompanhar meus pais no banco, na prefeitura ou qualquer outro lugar para resolver problemas, vejo que foi isso que me ensinou a ter jogo de cintura. Se hoje valorizo cada cada centavo que tenho, foi pelas dificuldades do passado pois nada veio de graça para os pioneiros. E para mim, essa é a grande beleza de ser um imigrante, olhar para o passado com gratidão e lutar para que possamos ajudar a construir um futuro melhor, como brasileiros.

Bruno


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6 COMENTÁRIOS

  1. Admiro a forma como o Sr disserta sobre os assuntos, me envolvo diretamente passo a passo no discorrer de seus argumentos! E quanto ao tema de hoje, eu diria que: Amigos são os irmãos que a vida nos permite escolher, (by fattoconsumado), independente de raça, sexo, crédulo, cor, etc… E eu escolhi formar minha família de amigos, com irmãos (as) coreanos, e isso nada têm haver, com dramas, K-pop ou qualquer opção de modismo, tendo em vista, que essa minha escolha, se deu por volta de 197980, época em que a maioria dos brasileiros, se quer imaginava onde ficava a Coreia. Quanto a forma de comunicação dos coreanos dentro do idioma verde amarelo, eu diria que, da mesma forma como o coreano diz, “o pacote está na chon”, eu também me pego desempenhando esse mesmo papel, quando me expresso em hangul, então apenas trocamos risos de nossos erros e acertos, afinal o importante é como acrescentamos, como evoluímos, com essa troca cultural, em nossa bagagem de vida! Isso não tem Wones ou Reales (Como coreano se expressa) que pague!
    Parabéns ao Senhor e a iniciativa do Korean Post, por permitir e elaborar um texto na 1ª pessoa, e desta forma, me fazer interagir, com o pensar do outro lado da moeda! (eu sou o lado da coroa, risos).
    나의 형제들은, 나의 친구입니다: – 환영이! (Não vale rir, dos meus erros em coreano)

  2. Eu gosto muito desses assuntos sobre xenofobia e preconceitos porque é algo que as pessoas esquecem ou não querem falar. No Brasil a questão da miscigenação é mais do que parte da história do país. Não sei o que os coreanos mais velhos que moram aqui pensam disso, se eles aceitam bem ou não que os filhos e netos se misturem com brasileiros, pois já li que na Coréia tem um pouco disso: os mais tradicionais não apoiam a miscigenação. Quer dizer, não vou ser ignorante, no Brasil também acontece certa aversão se você é branco, tem boas condições e decide se relacionar com um negro de baixa renda. Acho que sempre tem uns corações amargos em todo e qualquer lugar do mundo… Mas sabe, Bruno, apesar de não conseguir imaginar o que os imigrantes passam, sejam os coreanos, os haitianos, eu penso que quem tem a família por perto ao menos tem um apoio, alguém a quem recorrer e dar forças nos momentos difíceis. Quando você conta da banana eu lembro do meu pai contando que as vezes só tinha farinha pra comer e eu acho que pra mim (que sou filha e que nunca precisei passar por isso porque meu pai lutou pra que os filhos pudessem ter tudo que ele não teve), eu penso que são essas histórias que fazem a gente valorizar o pai, a mãe, as pessoas que lutaram por nós todos os dias. Com certeza você valoriza muito seus avós e seus filhos também valorizam muito sua história. E eu acho que todo mundo que passou por grandes dificuldades, mas conseguiu ver os filhos e/ou netos em uma situação melhor, sabe que seus esforços valeram a pena.

    • Bianca, muito bacana o seu comentário! Pois é, esse assunto do preconceito e xenofobia é muito complexo para que possamos discutir em profundidade por aqui, mas sim, ele existe no mundo todo. Enfim, cabe a cada um de nós espalhar amor no coração das pessoas, trabalho de formiguinha mesmo! 🙂

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