Hoje trazemos para vocês, numa tradução e adaptação do jornal The Independent, algumas histórias sobre pessoas que deixaram seu país, por vontade própria ou não, e como seguem suas vidas, após esta experiência.

JEONG MINWOO, 29 ANOS

Jeong Minwoo
Jeong Minwoo diz que se voltar algum dia, eles precisará de seu uniforme para ‘entrar em carros e roubar outros’. Foto: Reuters

Natural de Hyesan, na fronteira com a China, Jeong era um oficial comissionado do Exército Popular Coreano e deixou o país usando seu uniforme, que foi confiscado pela inteligência Sul-coreana. Apesar de tudo, conseguiu convencer seus contatos no exército norte-coreano a enviarem um novo.

Eu cheguei na Coreia do Sul no dia 22 de novembro de 2013. Eu não desertei. Nunca foi uma deserção. Eu parti para ganhar dinheiro. Eu disse aos guardas da fronteira que estava indo. E isso funcionou, já que somos todos militares”.

Quando eu cheguei na Tailândia, eu peguei algumas roupas com amigos e coloquei meu uniforme na minha mala. Se eu voltasse para a Coreia do Norte, eu precisaria estar vestido com ele. Um uniforme militar e uma identidade são coisas valiosas na Coreia do Norte. Os militares podem fazer qualquer coisa.

Eu entreguei meu uniforme original para a inteligência sul-coreana. Esse também é autêntico, mas foi contrabandeado.

É um uniforme de verão, feito de algodão. Eu usei quando apareci no Now on My Way to Meet You, um talk-show onde as pessoas da Coreia do Norte dividem suas experiências. Esses uniformes não são vendidos nos mercados. Eu ainda converso com alguns oficiais e pedi que me enviassem esse, em 2014.

Existe uma taxa para transportar as coisas pelo rio. Então, eu tive que pagar, também, uma taxa para atravessar o rio até a China. A coisa toda custou uns bons mil dólares.

chapéu militar de Jeong Minwoo
Um chapéu que pertence a Jeong Minwoo. Foto: Reuters

Eu consegui meu casaco com o exército, mas alguns militares fazem seus próprios. Alguns costureiros fazem, ou arrumam, uniformes por cerca de 40 mil wons norte-coreanos.

Tecnicamente, as pessoas não podem vender esses uniformes. Acessórios militares são vendidos secretamente. Oficiais querem uniformes mais bonitos, então eles compram, ou alteram, os seus.

Na Coreia do Norte, eu usava meu uniforme todos os dias, mesmo quando não estava de serviço. Eu não podia usar roupas comuns. Se eu fizesse, eu não poderia andar em carros. Alguém poderia roubar um cigarro meu e tentar começar uma briga. Se eu voltasse, eu precisaria desse uniforme”. 

KANG, 28 ANOS

Kang, 28, que só quer ser identificada pelo seu sobrenome, posa para uma foto em Seul. Foto: Reuters

Ela não quis dar seu nome completo, apenas seu sobrenome. Ela diz que teve que pagar por tudo. Seus pais mandaram um casaco, pela China, depois que ela chegou ao sul, em 2010.

Eu não pedi para minha mãe me mandar esse casaco, mas ela sabe que eu sinto bastante frio. Ela também me mandou mel, mas ele sumiu no caminho”.

Eu não sei de qual tipo de pele ele é feito. Em 2010, ele custava cerca de 700 mil wons norte-coreanos. Era muito caro. Um amigo norte-coreano foi à China para pegá-lo.

Eu gostava desse casaco quando o recebi. Pensava que a minha mãe devia ter gastado muito dinheiro nele. Meu pai era um oficial do partido. Nossa família tinha um carro e vivia em um apartamento especial.

Foto do casaco enviado pelos pais de Kang. Foto: Reuters

Pessoas comuns não conseguem usar esse tipo de casaco, nem mesmo os soldados. Oficiais comissionados conseguem comprá-los. Guardas de fronteira os usavam. Não era fácil comprar esse tipo de casaco, mas com o tempo, casacos falsos começaram a aparecer.

O Estado reprime muito esse tipo de coisa. Tecnicamente, é um artigo militar, então o governo monitora quem altera o casaco. Eu sei, só de olhar, que esse é um casaco paralelo, não uma versão oficial.

Ele parece bem diferente do original. Militares preferem os falsos porque o design é melhor. As crianças de famílias ricas os usavam.

Eu pareço muito gorda com ele, então não uso aqui. Eu acho que eu usaria se eu o alterasse.

LEE OUIRYUK, 30 ANOS

Lee Ouiryuk. Foto: Reuters

Nascido em Onsong, na fronteira com a China, Lee desertou em 2010.

Eu trouxe minha identidade quando deixei a Coreia do Norte. Juche, 95.11.7 (a data está seguindo o calendário norte coreano e corresponde ao dia 07.11.2006) é a data que está marcada na minha identidade.

Aqui diz que meu tipo sanguíneo é A, mas, na verdade, é O. Por 23 anos, eu vivi na Coreia do Norte, acreditando que meu tipo sanguíneo era A. Eles escreveram meu tipo sanguíneo sem, nem mesmo, fazer um exame. Escreveram o que quiseram.

Eu fui pego tentando escapar, numa data próxima ao aniversário de Kim Jongil. Eles reforçam a segurança na fronteira pouco antes e depois dessa data.

‘O fundo da lâmpada é escuro’, diz o ditado, e eu achei que poderia cruzar bem de baixo do nariz deles.

Os soldados atiraram em mim enquanto eu tentava fugir do Rio Tumen. Eu consegui e me escondi, mas alguém me denunciou e eu fui pego. Foi aí que eu fui levado ao bowibu (Departamento de Segurança Estatal), para interrogatório, por três meses. O Estado decidiu que eu tentei desertar para a Coreia do Sul e eu fui enviado a um campo para prisioneiros políticos.

Eu fugi quando eles estavam me transferindo para o campo. Eu me escondi e consegui chegar à casa da minha irmã mais velha – foi quando eu peguei essas fotos. Eu não poderia chegar em casa com facilidade, então decidi me esconder nas montanhas, ou em algum lugar remoto.

As fotos e a identidade de Lee Ouiryuk. Foto: Reuters

Eu precisava da minha identidade para me mover sem ser pego, e eu peguei essas 12 fotos para quando quisesse me lembrar.

Eu escrevi atrás delas para não me esquecer.

SONG BYEOK

Song Byeok. Foto: Reuters

Song era um artista de propaganda para o governo. Seu pai se afogou durante a primeira tentativa de atravessar o rio, em 2000. Quando, finalmente, conseguiu deixar o país, em 2001, ele levou fotos de sua família.

Nós partimos em agosto, procurando comida. Éramos de uma cidade mais do interior e não sabíamos onde o rio estava alto e onde estava baixo. Naquele momento, eu não sabia que o rio estava cheio por causa da temporada de chuvas. Eu achei que deveríamos cruzá-lo de qualquer jeito. Tudo o que eu conseguia pensar era que precisávamos chegar à China para comprar comida.

Eu tirei minhas roupas e as amarrei, formando uma corda, para nos perder juntos. Disse ao meu pai para não se soltar. Quando nos aproximamos do meio do rio, a corda parecia mais leve. Eu olhei para trás e vi meu pai sendo arrastado.

Eu fiquei devastado. Ele estava se afogando e não conseguia sair. Eu me apressei para chegar à fronteira norte-coreana e pedir para que os guardar salvassem meu pai, mas eles só diziam ‘por que você saiu?’, ‘por que você não morreu também?’. Eles me algemaram e me prenderam. Era 28 de agosto.

Eu fui torturado no bowibu de Heoryong, e então fiquei preso por quatro meses no campo de Chongjin.

Mas, antes de ser solto, eu senti que precisava sobreviver e continuar com a minha vida. Logo após eu tentei fugir novamente. Voltei para casa, peguei minhas fotos da família. Mesmo que eu morresse tentando, eu pensei, pelo menos eu teria essas fotos comigo.

Eu nunca encontrei meu pai. Em 2004 eu voltei à China e fiz um funeral para ele, na beira do rio. Meu coração ainda dói.”

LEE MINBOK, 60 ANOS

Lee Minbok em seu quarto. Foto: Reuters

Lee era um pesquisador na Academia de Ciências Agrícolas. Tentou escapar, pela primeira vez, em 1990, mas conseguiu apenas no ano seguinte, chegando à Coreia do Sul apenas em 1995.

Eu tenho um lado acadêmico. De acordo com Kim Ilsung, as pessoas deveriam ter diários. Todos na Coreia do Norte devem seguir, estritamente, as regras de Kim Ilsung, então eu fiz o que deveria e escrevi um diário.

Mesmo que ele seja um vilão aqui, Kim Ilsung está acima de tudo na Coreia do Norte. Nós aprendemos que ele era estudioso e deu um propósito para nossas vidas. Eu vivia de acordo com esses ensinamentos. Eu escrevi esses diários por conta da minha lealdade ao Líder. Essa era nossa ideologia, e eu vivi minha vida seguindo isso.

Ninguém podia pensar diferente.

Eu consegui reaver esses diários 10 anos depois que cheguei à Coreia do Sul. Eu mandava dinheiro para a minha família no norte e eles me mandaram esses diários. Eu não escrevi nenhuma reclamação neles. Eu teria grandes problemas se o fizesse.

Os diários que Lee Minbok gostaria de transformar em livros. Foto: Reuters

Meus diários são minha história na Coreia do Norte. Eu penso em transformá-los em livros. Eu gostaria de publicar um livro sobre a mudança da mentalidade dos norte-coreanos quando a unificação acontecer.

Esses diários mostram como os norte-coreanos pensam e como suas mentes são construídas. As pessoas precisam transformá-los em um livro, porque eles precisam de provas.

Falar não é tão efetivo.

JI SUNGHO, 36 ANOS

Ji Sungho e suas muletas trazidas da Coreia do Norte. Foto: Reuters

Nascido em Hoeryong, na fronteira com a China, Ji deixou a Coreia do Norte, em 2006, com um par de muletas de madeira.

“Minha infância foi nas ruas. Eu estava roubando carvão de um trem quando cai e perdi minha perna e minha mão.

Eu tive que trazer minhas muletas comigo. Se não as tivesse, eu não teria chegado aqui. O Estado norte-coreano não te ajuda, e as pessoas que precisam de muletas fazem as próprias. As minhas não são perfeitas e quebram facilmente.

Eu tenho vários pares, mas todos quebraram. Esse é o último par. Eu usava essas muletas há uns 10 anos, até meus 25 anos, quando cheguei aqui na Coreia do Sul.

Eu roubava carvão que caiam dos vagões de trem e caía, destruindo minhas muletas. OU eu apanhava da polícia e eles pegavam e quebravam elas. Quando eles faziam isso, eu tinha que fazer muletas novas. Quando eu tinha muletas novas, eu podia sair novamente.

Quando eu cheguei na Coreia do Sul, eu pensei em as jogar fora.

As muletas foram feitas com ajuda de amigos e família. Foto: Reuters

A Agência de Inteligência sul-coreana me deu uma prótese. Meus amigos dizem que eu devo jogar as muletas e não pensar mais sobre a Coreia do Norte. Eles dizem que eu devo mostrar ao Kim Jong-il que eu tenho uma nova vida aqui, na Coreia do Sul. Alguns perguntam se eu fico chateado ao ver minhas muletas.

Mas eu não podia jogar elas fora. Para fazer minhas muletas, meus amigos me davam alguns pedaços de madeira que compravam, e eu conhecia alguém que sabia carpintaria e as fazia. Foi meu pai quem adicionou os últimos detalhes. 

Tem muito amor dos meus amigos e família norte-coreana nessas muletas. Então, eu não as jogo fora. O governo sul-coreano me deu novas muletas porque as minhas são duras e machucam, mas eu ainda deixo elas guardadas para não perder essas memórias.”

KIM RYENHUI, 48 ANOS

Reflexo de Kim RyenRyu. Foto: Reuters

Nascida em Pyongyang, Kim diz que nunca quis desertar. Em 2011 ela usou o serviço de um atravessador para chegar à China e procurar tratamento para seu rim, mas diz que o atravessador a enganou e ela acabou na Coreia do Sul. Até hoje, ela luta para conseguir voltar à Coreia do Norte, mas a Coreia do Sul diz que seu retorno seria contra a lei.

“Eu sinto falta dos meus pais mais do que da minha própria filha. Eles são tudo para mim. Nos primeiros anos, eu não conseguia respirar direito quando pensava neles. Meu irmão mais novo está com eles em Pyongyang agora. A coisa que eu mais temo é descobrir que eles morreram antes que eu consiga voltar. 

Minha filha e eu temos trocado cartas e fotos. Minha prima vive na China, então ela faz os envios. Minha filha se chama Ri Ryongum e nasceu em 15 de fevereiro de 1993. Eu não quero que ela viva aqui comigo.

Foto de Ri RyonGum, filha de Kim RyenHui. Foto: Reuters

Quando ela era mais nova fazia taekwondo e queria se envolver em espionagem contra a Coreia do Sul. Era tão destemida. Era por isso que ela fazia taekwondo, porque queria se envolver com espionagem anti-sul, e foi por isso que eu fiquei muito surpresa quando ela se tornou chefe de cozinha.

Em um vídeo que eu recebi, ela se explicou dizendo que, depois que eu parti, ela se mudou para morar com o pai, em Pyongyang, e começou a cozinhar para ele. Ela disse que decidiu virar uma chefe para preencher meu papel na casa. Eu fiquei muito triste quando ouvi isso.” 

BAEK HWASUNG, 33 ANOS

Foto: Reuters
Deixou Sinuiju, na fronteira com a China, em 2003, e manteve um diário para contar sua vida como desertor.
“Em 2004, eu comecei a escrever meus pensamentos em um diário. Eu não sabia se seria pego, então queria deixar escrito de onde eu vim e para onde eu queria ir. 
Depois que eu deixei a Coreia do Norte, eu fiquei muito depressivo, me escondendo nas montanhas, sozinho, por um tempo. As pessoas que estavam cuidando de mim me disseram para não descer para a vila e me deixaram num abrigo na montanha. 
Sozinho, sem ninguém para conversar ou interagir, eu sentia que ia enlouquecer. Então, eu queria deixar algo para trás caso eu morresse ou fosse pego – e foi por isso que eu comecei a escrever. 
Foto dos diários de Baek Hwasung. Foto: Reuters
Eu procurava, desesperadamente, alguém com quem conversar. E esse alguém foram meus diários. Eles são a prova da minha jornada de vida. Eu os leio quando quero lembrar de casa, pra onde eu não posso retornar.
Eu já não tenho memórias da minha cidade natal. Mas, quando eu releio meus diários, algumas notas reavivam memórias vívidas daquele tempo. Algumas vezes eu posso esquecer quando é o aniversário do meu pai, mas tanto o dele, quanto o aniversário da minha mãe, estão nos meus diários. Eles são a prova de que eu estou vivo.”

Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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