Atrás de uma lavanderia e de uma loja de conveniência, dentro de um prédio deselegante de dois andares localizado em uma área simples e residencial de Gayang-dong, em Seul, está abrigada uma pequena loja especializada em macarons franceses.

Vendendo os pequenos doces coloridos por um preço que varia entre 1,800 e 2,300 won (aproximadamente R$ 5,76 e R$ 7,36) por peça, o proprietário e confeiteiro da loja, Hyun-seo Kim, também recebe encomendas de lembrancinhas para festas e, de vez em quando, dá aulas de como fazer macaron.

Com um bom amante de doces, eu fiz macarons em casa durante anos e, recentemente, decidi abrir a loja. A maioria das vendas são encomendas especiais para ocasiões como festas de aniversários, apesar de também termos alguns clientes físicos.

Pode ser incontestável que a França é a capital mundial da pâtisserie, mas a Coreia do Sul, um país sem tradição nessa área, está criando um verdadeiro gosto pela sua confeitaria, com lojas como as de Hyun-seo despontando em cantos inesperados de Seul e de outras cidades.

Madalenas. Foto: Rouxbe

Considerados elementos cobiçados da culinária gourmet francesa, doces deliciosos estão chegando à cena dos restaurantes de despretensiosas vizinhanças coreanas. E isso em uma cultura onde, tipicamente, a refeição não é acompanhada de sobremesa, apesar de alguns restaurantes servirem frutas frescas e chá após o prato principal.

Meu primeiro contato com as sobremesas francesas foi durante uma viagem à Paris, no início do ano 2000. Eu não sabia sequer o que eram macarons. Naquela época, a confeitaria francesa era um luxo que apenas aqueles que viviam no exterior ou viajavam constantemente haviam experimentado.” lembra Hyun-seo. “Agora, até crianças no jardim de infância comem macarons no lanche da tarde.”

Macarons são as estrelas principais do mais recente boom da confeitaria, mas amantes dos doces e profissionais da confeitaria local estão expandindo para outras iguarias sofisticadas, como financiers, madalenas, cannelés, dacquoises e mil-folhas.

Cannelés e Financiers. Foto: Respectivamente, Bakepedia e Wikipedia

Para Sung-mi Hong, uma estudante universitária de 27 anos de Seul, sobremesas extravagantes são seu pecado da gula preferido, ou como diria um ditado local, sua “pequena, mas garantida felicidade“.

Eu adoro conhecer as docerias mais famosas e provar suas criações,” afirma Sung-mi. Ela também ama o processo de pesquisar locais – através de aplicativos de avaliação de restaurantes ou das redes sociais – e a antecipada água na boca que cresce tanto quanto a indulgência em si.

Durante seu último passeio a uma doceria, ela e sua amiga compartilharam um copo de café e quatro tipos diferentes de guloseimas. Elas fizeram questão de tirar fotos antes de saboreá-los com vontade.

Questionada sobre o mil-folhas de 13,000 won (aproximadamente R$ 42,00), o mais caro dos quatro doces, batendo facilmente o preço de um jantar individual em um restaurante regular, Sung-mi apenas respondeu: “Isso não acontece todo dia.”

Nesse gosto por doces caros e saborosos, especialistas enxergam uma tendência de consumo importante entre a geração jovem.

Mil-folhas. Fonte: Baking Mad

Buscando fugir de uma vida cotidiana estressante e um futuro sombrio, as pessoas buscam a felicidade em pequenas coisas, gastando ostensivamente em fatias deliciosas de tortas, aromas para ambientes caros ou pequenos acessórios como luxuosos chaveiros de grife.

A crítica cultural Heon-sik Kim explica que “em uma sociedade onde sucesso parece algo distante e requer uma jornada dolorosa, a juventude acaba sendo atraída por experiências que lhe proporcionem um sentimento instantâneo de satisfação.”

Em uma pesquisa realizada pela empresa local Embrain, envolvendo 1.000 pessoas entre 19 e 59 anos, aproximadamente 90% concordaram que a população coreana está apreciando sobremesas de forma intensa, como nunca aconteceu antes. Do total, 47,8% disserem que o seu próprio interesse por sobremesas está maior. Além disso, 47,6% não consideram problemático pessoas gastando mais dinheiro em sobremesas do que em uma refeição.

Para as empresas, isso representa um mercado atrativo. Não há dados oficiais sobre o “mercado de doces” na Coreia, uma vez que ele se sobrepõe aos segmentos de padaria e café, mas especialistas da área veem esse setor chegar a 2 trilhões de won agora, um salto exponencial dos 300 bilhões de won em 2013.

Existe também a expectativa de que esse sucesso continue, visto que as sobremesas encontraram seu lugar na forma como a população coreana se reúne e come.

Na Coreia, quando as pessoas se reúnem durante uma refeição, elas comem em um restaurante sem trocar muitas palavras e depois vão para outro lugar – como um café ou um bar – para conversarem. Acredito que seja esse o motivo de existirem tantos Cafés aqui” explica a proprietária de uma das franquias do Café A Twosome Place, especializada em cafés especiais e sobremesas premium, a oeste de Seul. “Consumidores, em sua maioria mulheres, vem ao meu estabelecimento em busca de café, boas sobremesas e um lugar para conversar. Esse é o combo responsável pelas vendas“.

Vitrine de sobremesas em uma das franquias do A Twosome Place, em Seul. Fonte: Pinterest

O reino dos macarons como a sobremesa “sensação” do momento pode não durar por muito tempo.

Segundo especialistas do setor, a obsessão de pessoas jovens muda rapidamente por aqui, como pode ser visto nas tendências curtas dos últimos anos: Schneeballen alemão de 2012 à 2013, rolos japoneses recheados de creme conhecidos como “dojima rolls” de 2013 à 2014 e quindins taiwaneses em 2017.


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