Antes do início da pandemia de Covid, eu me reunia regularmente com um grupo de mulheres jornalistas coreanas em Seul.  Durante um jantar, o assunto mudou para a mídia social e uma das participantes perguntou a outra: “Você é uma celebridade e tanto no Twitter, certo?

Não sei se sou uma celebridade, mas sim, sou bastante ativa no twitter”, disse a última.

Mas você não está fazendo isso em seu nome verdadeiro, está?

Claro que não”, respondeu ela. “Ninguém twitta usando seu nome verdadeiro.”

Talvez não seja ‘ninguém’, mas é fácil de se ver que muitos usuários coreanos no Twitter são anônimos. Dê um Google em “Twitter anônimo” em coreano e você verá várias postagens de blog oferecendo instruções detalhadas sobre como criar uma conta anonimamente (primeiro crie uma conta no Google sem fornecer nenhum dado pessoal e, em seguida, use-a para abrir um conta no Twitter optando pelo Google Verificação de identidade).

Essas contas anônimas  são chamadas de “contas secundárias” ou bugyejeong  부 계정 em coreano. A celebridade do Twitter entre nós twittava regularmente sobre feminismo – um tema polêmico na Coreia – e não queria que sua identidade fosse revelada para não correr o risco de ser trolada ou sua carreira correr risco (sim, ser descoberta como uma feminista pode ter esse efeito neste país). Seu bugyejeong feminista era completamente separado de sua personalidade pública.

Este fenômeno de criação de um alter ego – chamado bukae 부캐 (literalmente um “personagem secundário”) – é comum na Coreia além do Twitter, e nem todos os alter egos são secretos. As personalidades  da TV os adotam abertamente como uma forma de expandir suas marcas pessoais (pense no comediante Sasha Baron Cohen  a.k.a. Borat e seus múltiplos personagens como um exemplo semelhante nos Estados Unidos). Pessoas comuns usam pseudônimos geralmente nas redes sociais, para acompanhar interesses que nada tem a ver com seus empregos regulares de tempo integral.

A mídia coreana, rápida em informar sobre as tendências, acompanhou a moda de múltiplas personalidades já no ano passado e chamou isso de “multi-persona”.

Refere-se a uma pessoa contemporânea que possui múltiplas identidades, cada uma para uma situação diferente, como uma troca de máscaras.”

Se isso soa cômico e até surreal, múltiplas identidades foram usadas como conteúdo cômico já em 2004, quando o comediante Park Seong-ho popularizou um personagem infantil  chamado Dajung-i (literalmente “Múltiplo”), que fez a transição entre duas personalidades – uma de um menino angelical e a outra de um homem assustador com um desejo homicida – numa rápida sucessão de risadas.

No entanto, foi o comediante Yoo Jae-suk que recentemente tornou a idéia de múltiplas personalidades popular. Yoo, mais conhecido por apresentar os programas de comédia de variedades Infinite Challenge e Hanging Out with Yoo na emissora MBC, apresentou pela primeira vez um alter ego de sua autoria chamado Yoo-gosta (um riff do ex-membro dos Beatles, Ringo Star) no final de 2019 e continuou assumindo mais algumas dezenas deles com uma recepção positiva.

Ao longo do caminho, ele ajudou outras celebridades coreanas a criar novas persona públicas, como os cantores Rain e Lee Hyo-ri (renomeados Biryong e Linda G respectivamente), com quem se apresentou em um grupo unissex de K-pop batizado SSAK3 no verão de 2020.

Isso pode parecer uma moda um tanto prosaica, mas muitos comentaristas coreanos estabeleceram uma conexão entre o retrato freqüente de personagens secundários na cultura popular e a realidade crescente de coreanos comuns que vivem vidas insatisfatórias e trabalham em mais de um emprego – alguns para satisfação pessoal, mas outros por necessidade.

O jornal britânico Guardian relatou que a quantidade de “trabalhadores de colarinho branco (que trabalham com terno e gravata) com dois empregos” está crescendo no Reino Unido, sendo que na Coreia metade dos trabalhadores de colarinho branco já estão trabalhando em vários empregos.

Alguns podem perguntar se empregos extras constituem personalidade extras, mas em muitos desses casos os “empregos” envolvem não apenas trabalho, mas também interesses que exigem que o indivíduo se mostre uma pessoa totalmente diferente.

Uma  amiga coreana largou um exigente trabalho de RP no centro de Seul há vários meses, após um ano e meio literalmente trabalhando 24 horas por dia. Eu descobri que ela começou a dançar pole dance, o que está muito distante de seu emprego anterior. Ela também desenha regularmente e trabalha meio período como consultora para gerar renda.

Alguém pode chamar isso de burnout, mas outro poderia argumentar que ela está criando personas inteiramente novas para si mesma como uma forma de lidar com a dura realidade do mercado de trabalho coreano. Ela é uma pessoa quando dá consultoria, mas outra totalmente diferente quando está dançando ou desenhando. Ela pode estar dissociando esses diferentes eus como um mecanismo de enfrentamento da realidade.

A ascensão do bukae também está ligada à incrível popularidade das mídias sociais na Coreia. De acordo com um estudo publicado em junho deste ano, 53,6% da população global são usuários de mídia social, mas na Coreia esse número salta para 89,3%, dando ao país a segunda posição no mundo (os Emirados Árabes Unidos ocupam o primeiro lugar).

E entre os jovens coreanos com menos de 40 anos, o Instagram é de longe a plataforma mais popular, com quase 12 milhões de usuários somente neste grupo demográfico (em um país de 51 milhões de pessoas).

A maioria dos coreanos associaria o Instagram a outro fenômeno chamado peulekseu 플렉스 – que significa “flexionar” ou se exibir. Embora um grande número de usuários coreanos não chegue a ponto de realmente usar a hashtag (porque isso seria grosseiro e anularia o propósito de se exibir, pois deveria ser feito de forma discreta para ser eficaz), a suposição subjacente é que as pessoas não vão às redes sociais se não for para dar uma dica de como suas vidas são fabulosas, ‘reais’ ou cuidadosamente construídas.

Este é um mundo em que os jovens coreanos podem simplesmente  fingir que não são quem eles realmente são.

Um novo drama coreano intitulado Shadow Beauty (baseado em um webtoon de mesmo nome) está sendo lançado na plataforma de streaming KakaoTV, sobre uma estudante do ensino médio que é implacavelmente intimidada por seus colegas de classe, mas tem uma vida secreta como influenciadora no Instagram (a produtora habilmente abriu uma conta no Instagram para esse personagem fictício, confundindo a linha entre a realidade e o show).

Como criar um Alter Ego (no estilo coreano)
Ae-Jin (Shim Dal-Gi) é uma estudante do ensino médio. Os alunos a chamam de feia e ela é intimidada por eles. Foto: Asianwiki

Afinal, o que é uma pessoa real hoje em dia? Minha conta do Facebook nem sempre corresponde a mim mesmo (pelo que eu vejo), e quanto dinheiro posso colocar nos perfis das redes sociais das pessoas de quem sou ‘amigo’ e sigo nas redes sociais? Esses são seus personagens primários ou secundários? Existe uma essência de seu “eu real” nos posts que publicam? Ou é inútil fazer tais perguntas, uma vez que a própria vida é uma espécie de performance em si mesma, e o digital é o novo corpóreo? Talvez os coreanos com seus personagens secundários e terciários estejam simplesmente levando o jogo existencial de RPG para o próximo nível, possibilitado por seu alto nível de alfabetização digital e rápida conexão à Internet.

Minha amiga celebridade do Twitter, jornalista/feminista coreana, está vivendo uma vida dupla, mas ela é, no fundo, uma feminista, mesmo em seu eu não digital. Ela usa o Twitter para expressar opiniões que ela não pode com o seu nome real, mas isso não torna essas opiniões menos reais ou ‘secundárias’.

Mesmo assim, essa abordagem de vida apresenta problemas. Recentemente entrevistei Sungkyu Lee, um especialista em mídia e CEO da Mediasphere (uma plataforma de boletim informativo que agora publica a EXPOSÉ), sobre o surgimento da chamada “economia do humor” na Coreia. Ele me disse que “cresceu uma indústria em torno da idéia de ajudar as pessoas a lidar com o estresse e a insônia“. Citando Ronald Purser, autor de McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality, Lee vê a dependência de soluções virtuais para a infelicidade como uma forma de “anestesia digital”.

“É preocupante que pessoas que estejam sofrendo com problemas essencialmente estruturais devam recorrer a métodos privados para resolvê-los.” Isso, em sua opinião, inclui a moda atual para múltiplas personas.

Porque, qual seria a razão para as pessoas criarem personagens secundários ou terciários se estivessem satisfeitas com seus eus primários? Quem gostaria de ter um trabalho ou personalidade extra se não precisasse de dinheiro ou validação?

Algo na condição contemporânea da Coreia despertou o desejo de uma vida que não se pode viver em seu papel principal. Em vez de atacar diretamente as fontes desse descontentamento – longas horas de trabalho, salários inadequados e ambientes de trabalho opressores, para citar alguns – por meio do ativismo ou da política, as pessoas encontram realização criando uma segunda vida para si mesmas. Isso pode se estender a twittar anonimamente sobre as causas pelas quais eles se importam.

A Coreia já está indo além do bukae e se entusiasmando com uma nova mania em formação, a saber, o metaverso – uma espécie de universo paralelo por vir, no qual os humanos assumem formas digitais (como avatares) e interagem puramente em realidade virtual sem encontrar um outro ‘em pessoa’. (Dr. Kang Jeongsu, um especialista em mídia a quem respeito profundamente, escreveu um longo ensaio sobre este tópico, mas infelizmente é apenas em coreano.)

Eu digo que pode ser uma moda passageira porque é difícil prever até onde irá o fervor em torno do metaverso, mas pelo que sei, este é o futuro para o qual estamos caminhando, e os coreanos e suas múltiplas personas são apenas um prenúncio do que está por vir em um mundo mais amplo .

O governo da cidade de Seul anunciou há duas semanas que está construindo sua própria “plataforma de metaverso” até o final do próximo ano para que possa oferecer uma ampla gama de serviços administrativos virtualmente, contornando toda a interação humana incômoda que uma visita comum a um escritório do governo necessita.

É uma idéia adorável, mas, por favor, me desculpem. Agora eu preciso voltar ao meu personagem principal para que eu possa comer algo antes de ir para a cama.

Como criar um Alter Ego (no estilo coreano)

Se-Woong Koo obteve seu Ph.D. da Stanford University e lecionou estudos coreanos na Stanford, Yale e na Ewha Women’s University. Ele é editor chefe da Revista Korea Exposé, de onde este artigo foi traduzido e escreve para o The New York Times, Foreign Policy e Al Jazeera.

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As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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