Jovens desertores fazem webcasts, procurando dissipar o preconceito dos sul-coreanos.

Um corte de cabelo da moda, piercings na sobrancelha e uma tatuagem no braço – essa é a aparência atual da personalidade on-line Lee Pyung, que contradiz o fato de que ele nasceu sob um regime totalitário. Mas ele revela de onde é, em sua série de webcasts ao vivo. Ele viveu na cidade de Chongjin, ao norte da Província Hamgyong, na Coreia do Norte.

Lee chegou à Coreia do Sul em 2004, depois de ter subornado os guardas da fronteira da Coreia do Norte, atravessando para a China, e acabou sendo preso lá, escondendo-se nas planícies da Mongólia e sendo capturado pelo Serviço Nacional de Inteligência da embaixada sul coreana em Ulaanbaatar, Mongólia – sozinho, com com 11 anos. Em Seul, Lee se reuniu com seus pais que haviam desertado quando ele tinha 3 anos.

Lee é um de vários desertores norte-coreanos que começaram recentemente a contar suas histórias via Afreeca, uma plataforma de streaming on-line onde os emissores – chamados de broadcast jockeys, ou BJs – ganham dinheiro de acordo com o número de espectadores do canal na sessão de streaming. Alguns programas de TV que falam sobre os desertores, já existiam, tais como “Now on My Way to Find You”, que começou a ser exibido em 2011, porém estes eram feitos com scripts feitos a partir de histórias de norte-coreanos. As transmissões ao vivo de Lee contam histórias mais reais da vida acima do paralelo 38 da península e tem como objetivo “falar aos jovens”.

A imagem mostra b-jockey Lee Pyung, que desertou da Coreia do Norte em 2004, respondendo a perguntas dos telespectadores sobre a vida no norte em um vídeo no You Tube.
A imagem mostra b-jockey Lee Pyung, que desertou da Coreia do Norte em 2004, respondendo a perguntas dos telespectadores sobre a vida no norte em um vídeo no YouTube.

A percepção da Coreia do Norte pelos sul-coreanos são muito diferentes do que eu sei sobre o país“, disse Lee em um webcast no mês passado, também transmitido pelo YouTube. Ele recebeu todos os tipos de perguntas de telespectadores, incluindo “Os norte-coreanos realmente comem carne humana?” ou “Todos são treinado para ser um espião?”, o que ele achou um absurdo!

Lee começou a ideia da transmissão on-line sobre o assunto porque ele “queria mudar os estereótipos de desertores norte-coreanos, especialmente entre a geração mais jovem dos sul-coreanos que estão menos familiarizados com a Coreia do Norte“.

Ele odiava o fato de que muitos sul-coreanos pareciam ter algum preconceito contra os desertores, vendo-os como “pobres” ou “comunistas fanáticos”.

As histórias do jovem fugitivo parecem ter encontrado uma audiência. Desde a sua estreia online em maio, Lee fez, em média, 5.000.000 ₩ (quase R$15 mil) por mês, sendo que mês passado este teto foi ainda mais alto. Seu vídeo no YouTube detalhando como ele escapou, atraiu mais de 1 milhão de visualizações. Ele faz suas transmissões de um estúdio de streaming, equipado com um computador, câmera e microfone.

Em seus vídeos, Lee responde a perguntas dos telespectadores sobre a Coreia do Norte. Alguns clipes apresentam histórias alegres sobre captura de libélulas em campos não desenvolvidos com a urbanização, além de outro sobre como é a vida de uma criança que cresce em Chongjin, a terceira maior cidade do país (“tem edifícios e tudoafirma), e ditos populares da Coreia do Norte. Outros detalhes como a proibição de se usar lentes de contato ou minissaias, e como propaganda educacional do Norte representa o Sul como “um  lugar mau cheio de refugiados e gangsters“.

Algumas histórias que ele menciona tentam transmitir a triste realidade do estado mais isolado do mundo. Mesmo quando criança, Lee frequentemente testemunhou as execuções públicas que ocorreram dentro de sua escola – “Eu vi inúmeros corpos. Vi pessoas morrendo, vi cadáveres de executados por ordem pública… isso era uma coisa quase diária“, disse ele.

Desde sua mudança para o Sul, Lee foi disse ter se enturmado e se adaptado a nova realidade. Com um grande interesse em moda, ele aprendeu o penteado atual na faculdade, antes de se tornar um “BJ” em tempo integral.

Son Bom-Hyang, 29, é outra desertora que está ativa como BJ há dois anos. Sua história turbulenta de como ela escapou com a idade de 10 anos – que envolve uma breve passagem numa prisão na China e como se tornou uma ladra de comida nos campos de concentração para não morrer de fome – tem mais de 2 milhões de visualizações no YouTube. Son, também responde à muitas curiosidades dos telespectadores, que vão desde “Vocês realmentes tem retratos de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il em cada casa?” que ela sempre responde como “sim”, e também afirma assistir programas Norte Coreanos em sua casa.

A imagem mostra a b-jockey Son Bom Hyang, que desertou da Coreia do Norte há 10 anos, respondendo a perguntas dos espectadores em um vídeo no Youtube.
A imagem mostra a b-jockey Son Bom Hyang, que desertou da Coreia do Norte há 10 anos, respondendo a perguntas dos espectadores em um vídeo no Youtube.

Mas Son adicionalmente também fala de como está adaptada na Coreia do Sul e muitas vezes faz “meokbang” – transmissões de vídeo enquanto come.

Em transmissões ao vivo, podemos pedir que os desertores falem de coisas que estamos curiosos e  também obter respostas honestas e imediatas“, disse Park So-Hee, uma estudante universitária de 25 anos de idade, que tem visto muitas das transmissões de Lee Pyung. “Nós estamos nos comunicando diretamente e falando casualmente, por isso a experiência se torna mais real

Os webcasts que So-Hee assistiu, ajudaram-na a rever alguns de seus antigos preconceitos, ela disse. “Eu costumava pensar que desertores eram pessoas que tinham suas mentes lavadas e que não tinham nada em comum com o que diziam nas transmissões. … Eu tinha até medo de eles serem violentos ou algo assim. Mas agora eu entendo que eles vieram para cá porque queriam ter uma vida melhor. Eles gostam das mesmas coisas que eu“.

Centenas de comentários que foram escritos pelos telespectadores on-line revelam pensamentos bem semelhantes. Um deles disse: “Agora eu me esforço para ajudar os meus colegas norte-coreanos na escola.” Outro falou sobre como era interessante saber sobre a vida cotidiana do Norte.

Com cerca de 30.000 desertores norte-coreanos no país, conforme dados de junho, de acordo com o Ministério da Unificação, e por haver gerações que simplesmente não se lembram da Guerra da Coreia e suas consequências irreparáveis, as plataformas on-line estão, de uma forma atraente, informando os jovens sobre a realidade da Coreia do Norte.

Jang Yong-Seok, pesquisador sênior da Universidade Nacional de Seul para Estudos de Paz e Unificação afirmou que “ao longo prazo, penso que estas atividades irão contribuir para atenuar a tensão entre os povos dos dois países, pelo menos“.

A curto prazo, no entanto, como mais e mais desertores tem surgido nas telas, tanto na TV como online, “alguns testemunhos não são assim tão confiáveis“, segundo Jang tem observado.

Não há nenhuma maneira de verificar os fatos“, disse Jang, que já trabalhou em um comitê pró unificação. “Alguns programas de TV com script, tendem ao sensacionalismo para prender os telespectadores. Quanto mais desertores ganham exposição na mídia, mais devemos nos certificar de que estamos compartilhando fatos reais“.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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