­“Você comeu arroz?”

Esta é uma das formas de cumprimento mais usadas na Coreia, onde o grão há muito tempo é considerado um sinônimo de refeição. Mesmo com o crescimento da comida ocidental, lanches e fast-food, o arroz continua sendo a principal fonte de alimento e um símbolo da tradição alimentar do país.

Mas, recentes tendências nutricionais estão considerando cada vez mais o arroz – e carboidratos em geral – o maior culpado pela obesidade e todo tipo de doenças da vida moderna.

De acordo com o relatório de 2018 da Conferência Europeia de Nutrição, o consumo médio de carboidratos pelos sul-coreanos ficou em 66% no ano passado, um pouco acima dos 55 a 65% recomentados pela Sociedade Nutricional da Coreia e o Ministério da Saúde e Bem Estar.  Isso é mais que os 55% da média americana, mostrando a predominância do arroz na cultura alimentar coreana.

Porém, a quantidade média anual de arroz consumida pelos coreanos tem caído continuamente, de 126,2kg em 1987 para 61,8kg em 2017, de acordo com a Agência de Estatísticas da Coreia. Essa tendência é o resultado de repetidos alertas sobre o consumo excessivo de carboidratos.

“A restrição do consumo de carboidratos é essencial para a prevenção da síndrome metabólica,” diz Kwon Yu-jin, médico de família no Hospital de Yongin. A síndrome metabólica é um conjunto de doenças associadas ao estilo de vida, como obesidade, hipertensão e diabetes.

Uma pesquisa de James Gangwisch, psiquiatra da Universidade de Columbia, alega que o consumo elevado de carboidratos – ou outros alimentos com alto índice glicêmico – aumenta significativamente o risco de depressão.

Este crescente senso de alerta sobre carboidratos, especialmente os refinados encontrados em comida processada, levou ao boom da dieta low carb high fat, ou LCHF (baixo número de carboidratos, alto número de gorduras).

A LCHF, que é parecida com a famosa e também controversa dieta Atkins, alega que restringir o consumo de carboidratos diminui os níveis de insulina e incentiva o organismo a gastar as reservas de gordura do corpo.

Na Coreia, um documentário de 2016 da MBC atraiu ainda mais a atenção do público para as dietas LCHF. O programa, chamado “Acusações Falsas Contra a Gordura” imediatamente despertou o interesse em alimentos voltados para a dieta com altas taxas de gordura, como o bulletproof coffee – uma bebida que supostamente queima gordura, feita de café, manteiga e óleo.

 “Parece que o conceito de low-carb ganhou mais popularidade na Coreia, onde as pessoas encontram dificuldade para escapar das refeições convencionais com alto índice de carboidrato, especialmente quando comem fora,” disse Kwon.

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Por outro lado, este novo sentimento anti-carboidrato ainda não foi suficiente para reestruturar os hábitos alimentares do país.

Park Ji-young, de 33 anos, que recentemente voltou de uma estadia de um ano no Canadá, afirma que a alimentação na Coreia ainda é muito dependente de carboidratos.

 “É muito mais fácil para um trabalhador de escritório acabar comendo arroz ou macarrão, junto com sopas e outros pratos cheios de sódio, já que existem muito poucos restaurantes focados em proteínas,” ela disse. “Mesmo que opções low-carb e com menos sódio estivessem disponíveis, elas eram bem mais caras que as alternativas com arroz.”

Um dos aspectos positivos da tendência LCHF é que lojas de conveniência começaram a expandir suas opções de alimentos com baixo teor de carboidrato, como ovos cozidos, bananas e peitos de frango embalados individualmente, ela concluiu.
De qualquer forma, observadores notam que vai demorar mais um pouco para que haja mudanças significativas na cultura alimentar coreana.

“Um padre francês que chegou aqui durante a dinastia Joseon, no fim do século XIX, relatou em suas memórias, ter se surpreendido com pessoas comuns comendo até cinco tigelas de arroz em uma refeição,” disse o colunista gastronômico Hwang Gyo-ik.

Esse consumo elevado de arroz, explica Hwang, era na verdade o resultado da falta de alimentos.

“O chamado gobongbap, a tigela de arroz cheia até o topo, era considerada uma dádiva, já que as pessoas comuns eram em sua maioria subnutridas, e os carboidratos do arroz eram basicamente sua fonte principal de nutrição no dia a dia,” ele disse.

Esta apreciação subconsciente pelo arroz resiste aos dias atuais, em um aparente contraste com a popularidade das dietas.

“Mesmo com as atuais divergências, eu acredito que os esforços para redefinir o papel dos carboidratos na perspectiva nutricional são importantes para a sociedade coreana,” disse Kim Young-sun, clínico geral no Hospital Universitário Nacional de Seul.

 “A cultura alimentar em torno do arroz é um legado do passado agricultor do país. Nos tempos urbanos atuais as pessoas precisam restabelecer um plano nutricional pensando em sua realidade e condições de saúde”.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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