Um recém-formado da universidade, em busca de seu primeiro emprego integral, geralmente tem um longo caminho pela frente. Buscar vagas nos classificados dos jornais, cuidadosamente editar e reeditar seu currículo, e claro, ir a um estúdio para uma foto profissional de perfil para anexar aos cadastros das empresas. Mas na Coreia, não acontece exatamente assim.

Incluir uma boa foto é apenas o começo. É comum que em formulários de candidatura à vagas sejam feitas perguntas aos candidatos  sobre sua idade de forma direta – ou indireta, ao perguntar-se o ano de graduação. Características físicas como peso e altura também aparecem assim como o histórico médico e status civil do candidato.

Algumas destas questões fazem sentido se o objetivo é contratar uma modelo ou um jogador de vôlei, mas não é o caso. São para pessoas “comuns” que participam de processos seletivos “comuns”. O peso de um candidato não irá influenciar em sua capacidade de lidar com dívidas ativas, por exemplo.

Para mostrar o quanto são disseminadas essas práticas, um relatório do ano passado expôs que quase metade das maiores empresas da Coreia perguntava sobre a ocupação profissional dos pais ou informação similar sobre parentes. O relatório revisou formulários de inscrição de 28 das 30 maiores companhias.

Outro relatório, que veio a público no mês passado, realizado pela comissão de direitos humanos do país foi muito mais a fundo e observou cerca de 3.500 formulários. Foi descoberto que a idade e aparência eram requisitados por pelo menos 90% dos casos. Muitos também perguntavam o local de nascimento, status matrimonial e religião. Quase metade dos formulários eram de companhias públicas ou ramificações de empresas governamentais, e de modo geral, 80% incluíam pelo menos 4 tipos de questões discriminatórias. As 10 mais frequentes são listadas abaixo:

Categorias De Perguntas Discriminatórias E O Quão Frequentes São. Em Ordem: Idade, “Schooling”, Aparência, Gênero, Região De Nascimento, Status Matrimoniais, Religião, Serviço Militar, Status Sociais, Gravidez Ou Filhos. “Schooling” Se Refere A Ligação Educacional, E Em Qual Universidade O Indivíduo Se Formou. “Appearance” Inclui Fotos E Aparência Física Como Peso E Altura. Fonte: Comissão Nacional De Direitos Humanos Da Coreia (Nhrck).
Categorias de perguntas discriminatórias e o quão frequentes são realizadas. Em ordem: idade, grau de instrução (ou schooling), aparência, gênero, região de nascimento, status matrimonial, religião, situação do serviço militar, status social, gravidez ou filhos. “schooling” refere-se a ligação educacional, e em qual universidade o indivíduo se formou. “appearance” inclui fotos e aparência física como peso e altura. Fonte: comissão nacional de direitos humanos da coreia (nhrck).

Não apenas uma fonte de constrangimento

Em alguns contextos culturais, essas perguntas podem ser inconsequentes – embaraçosas, mas sem impacto nas decisões de contratações – porém, esse não é o caso.

Estudantes universitários encontram maneiras de prolongar suas graduações, sabendo que muitas empresas contratam apenas recém-formados para vagas iniciais. Jovens casadas muitas vezes mentem sobre seus status matrimonial, conscientes de que as companhias assumem que mulheres casadas sem filhos irão pedir demissão se engravidarem. Homens que não cumpriram o serviço militar obrigatório (até aqueles com exceções válidas) sabem que serão diminuídos por entrevistadores homens.

Além das fotos profissionais de perfil com photoshop, existe a moda de passar por cirurgia plástica para aumentar as chances de contratação. As clínicas de cirurgia cosméticas – conscientes disso – informam aos candidatos que a aparência é um modo de ganhar vantagem sobre a competição, aumentando a importância da aparência que já intensa na Coreia do Sul. Algumas empresas também são conhecidas por contratar fisionomistas (leitores de rosto) para lerem a personalidade e aptidão do candidato através de sua aparência, adicionando pressão para a mudança cirúrgica de fisionomias faciais.

É ruim se o indivíduo cresceu fora de Seul, em regiões coletivamente referidas como jibang (caipira), mas é ainda pior se a pessoa se formou em uma universidade jibang.

A discriminação é frequente na Coreia do Sul, e por meio dessas perguntas a procura de emprego se torna uma experiência na qual os candidatos são sujeitos a um aglomerado de injustiça, de uma vez só. Um nível de estresse é bem diferente de outros países.

Essas perguntas injustas são reconhecidas dentro do país como um grande problema num típico processo de contratação. Ano após ano, ONGs liberam relatórios, jornalistas lançam histórias, a NHRCK (Comissão Nacional de Direitos Humanos da Coreia do Sul) lança ofícios repudiando a prática, e os próprios candidatos reclamam de serem sujeitos à perguntas constrangedoras em uma situação já estressante.

Ainda assim, no mundo empresarial altamente hierárquico da Coreia do Sul, empregadores ainda agem com impunidade e candidatos sentem-se obrigados a aguentar. Não responder as perguntas é considerar-se fora da vaga.

Existe solução?

Como corrigir uma questão como essa a nível social? O meio mais comum para males sociais são as leis. Mais leis, mais rígidas, regulamentações mais duras, e maior monitoramento do governo.

Uma proposta de lei recente é um exemplo exato deste método. Esta lei procura tornar perguntas discriminatórias em formulários de emprego – incluindo o requerimento de fotos – ilegal e uma ofensa passível de multa. Nesse sentido, outros sugeriram oferecer às companhias formulários aprovados pelo governo ou o uso de formulários de inscrição padrões providenciados pelo estado.

Existem dúvidas se serão eficazes. Não há nada que impeça empresas de fazerem essas perguntas discriminatórias durante uma entrevista. O governo deseja promover uma mudança cultural em como as companhias recrutam – e isso é importante – mas na realidade uma lei proposta, apenas encoraja as empresas a abordar esses pontos em uma etapa mais a frente do processo de recrutamento. Essas políticas também são limitadas pelo quanto o governo escolher ser agressivo em relação à fiscalização à nova lei.

Para observadores, parece haver uma simples solução – apenas não responder as perguntas. Informar de modo respeitoso, mas firme, ao entrevistador que não há relevância para o cargo e pedir para seguir para as demais questões. Uma campanha de conscientização poderia elucidar os candidatos sobre quais perguntas não deveriam ser respondidas e deixar os entrevistadores a par do assunto, para não serem pegos de surpresa durante a entrevista. É uma abordagem de baixo para cima e direta, que daria aos candidatos o poder de recusar. Afinal, representantes do governo não podem monitorar diretamente todos os aspectos do processos de recrutamento.

Essa tática é basicamente uma abordagem de direitos humanos. Fortalecer as pessoas ao informa-las de seus direitos – respaldadas pela lei – e encoraja-las a exercer esse direito e demandar tratamento igualitário.

É tentador pensar que poderia dar certo. Mas, na verdade, essa estratégia ignora muitas das realidades da Coreia do Sul atual.

A alta taxa de desemprego entre jovens e a intensa competição entre candidatos com boa qualificação certamente contribui para o desejo dos participantes de não dizer nada que possa prejudicar suas chances de conseguir um emprego.

Os candidatos sabem que fornecer informações pessoais é discriminatório, como expõem os inúmeros relatórios e jornais. Um relatório entrevistou mais de 500 pessoas e descobriu que 70% se sentem discriminados na procura de emprego. O problema é que se sentem sem poder para colocar a estratégia em prática, e entrevistadores muitas vezes não veem a diferença entre perguntas relacionadas ao emprego e violação de privacidade.

Um gerente disse, em anonimato, que do ponto de vista social e cultural, recusar-se a responder as perguntas do entrevistador é muito rude.

Texto 1

Além das expectativas culturais de educação e gentileza em relação a pessoas mais velhas ou de ranking mais alto, a cultura do ambiente de trabalho sul coreano muitas vezes envolve hierarquias austeras. É esperado que o trabalhador seja leal, siga ordens, e não responda os superiores de modo rude. Não responder ao entrevistador também pode envergonha-lo em frente aos colegas de trabalho – um descuido que não seria esquecido facilmente.

Talvez, ao invés de se recusar-se a responder, os candidatos podem estar, na verdade, recusando a ideia que eles precisam esperar as empresas se adequarem às expectativas das gerações mais novas. Um número enorme de jovens coreanos tenta encontrar emprego em outros países. Ou pior, desistem por completo de trabalhar, se reunindo a grupos como NEETs (Sem educação, emprego ou treinamento) que somam quase 15%  da população jovem, ou quase o dobro da média da OECD.

Encher as empresas de multa é uma atitude superficial que não trará tanta mudança. As gerações mais novas desejam uma mudança no paradigma social, mas isso não ocorre da noite para o dia e, certamente, não sem alguém apoiar a causa.

Isso leva à discussão frequente de uma lei antidiscriminação – que a Coreia do Sul ainda não tem. É verdade que, de acordo com a lei sul-coreana, as convenções da ONU detêm o status de leis domésticas. Este fato, porém, não é reconhecido em casos judiciais locais. A aprovação de um projeto de lei nacional contra a discriminação seria o primeiro passo de um longo caminho para iniciar essa mudança cultural que os tratados internacionais não conseguiram alcançar.

Poderia criar uma atmosfera onde a abordagem “apenas não responda”, descrita anteriormente, funcionaria. Para os candidatos à emprego de hoje, porém, isso viria muito tarde. Eles terão que renunciar ao processo de procura usual de emprego por completo, ou começar a preparar-se para uma viagem ao estúdio de fotografia.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

1 COMENTÁRIO

  1. Fiquei curiosa para saber sobre p trabalho de staff, o que é preciso como se faz para conseguir se é possível um estrangeiro conseguir tal emprego? Essas coisas.

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