Aprender a amar e respeitar adequadamente outra pessoa deve vir antes de aprender a evitar a gravidez, segundo a Lala School, um novo instituto de educação sexual que está tentando promover informação de modo mais abrangente na Coreia, permitindo que adolescentes e adultos tomem decisões possuindo as devidas informações.

Em uma transmissão televisiva, a professora de educação sexual da Escola Lala, Shin Yeon-jeong, descreveu o namoro na Coreia como uma espécie de baile de máscaras, onde as pessoas vestem os papeis de feminino e masculino conforme a sociedade.

Ela alertou, que ao repetir esse padrão, as pessoas estão apenas imitando o que é alimentado a elas pela mídia, o que gera um desconforto em desempenhar papéis nos quais não se encaixam.

A Lala School foi fundada em 2017 por Shin e seus colegas Lee Su-ji e Roh Ha-yeon, todos com fortes crenças em igualdade de gênero e autonomia sexual.

Shin, considerado o professor mais franco da Lala School, não conseguiu participar da entrevista, mas Lee e Roh, estiveram em um café de Geumcheon-gu, em Seul, para compartilhar o currículo do instituto privado e mostrar como são as sessões com as crianças.

Na Coréia do Sul, a educação sexual é tratada apenas como relação sexual:um processo biológico de como um bebê é concebido e como os adolescentes devem suprimir seus desejos ‘pecaminosos’. Para os meninos, se masturbar com segurança é ensinado, mas para as meninas não”, disse Lee.

Foto: Korea Herald
Foto: Korea Herald

Como o sexo antes do casamento é desaprovado pela sociedade, as informações sobre métodos contraceptivos são considerados desnecessários na educação sexual para menores. Os jovens são orientados a evitar a gravidez, mas não recebem orientação sobre quais métodos devem utilizar. Ironicamente, quando esses jovens chegam à idade adulta, eles encontram dificuldades em encontrar materiais de educação sexual ou cursos adequados para adultos.

Em vista deste background, a Lala School oferece um programa para toda a vida, que começa aos 5 anos, idade em que a UNESCO recomenda em as crianças iniciem a educação sexual e continua depois com adultos chegando até a terceira idade.

Uma educação sexual adequada abrange a higiene pessoal, a privacidade, como pensar por si mesmo e como comunicar seus sentimentos com os outros“, disse Roh. “A educação sexual é muito mais do que o corpo, é muito importante como nos percebemos e como formamos um relacionamento com os outros de forma igualitária, segura e autônoma.”

A Lala School segue as diretrizes da UNESCO, para formar seus cursos, baseando-se no currículo de ensino e aprendizagem sobre os aspectos cognitivos, emocionais, físicos e sociais da sexualidade.

Em nossas sessões com crianças de 5 anos, começamos a partir de como lavar as mãos até o como utilizar um banheiro público. Então, à medida que avançamos na idade dos grupos, discutimos questões sociais relativas à sexualidade”, disse Lee.

A Lala School fornece tópicos de discussão, como as consequências legais de filmar secretamente outras pessoas, pornografia de vingança e violência no namoro.

Em uma sessão de brainstorming, os participantes são encorajados a encontrar maneiras de pedir permissão para ter contato físico com alguém.

Perguntamos às crianças como elas fariam para demonstrar “skinship” (carinho íntimo) a uma pessoa da qual gostassem“, disse Roh, “e a resposta mais comum é “imprensando na parede”.

A famosa "imprensada" dos doramas. Fonte: Tumblr
A famosa “imprensada” dos doramas. Fonte: Tumblr

Na Coreia, “skinship” é um termo que se refere a atos íntimos, como segurar as mãos e abraçar. O “imprensar na parede”, originalmente vem da expressão japonesa “Kabe-don”, uma cena comum em dramas de TV, em que um homem bate a mão contra a parede de uma maneira que empurra a mulher. Isso, então, muitas vezes leva à troca de olhares intensos, confissão e possivelmente um beijo.

Isso é tudo que as crianças têm como referência, pois elas nunca foram apresentadas a outras maneiras. Elas imitam ao que foram expostos na mídia, onde são indiretamente ensinadas que é “quebrar o clima” pedir permissão verbalmente“, disse Lee.

Roh disse que a segunda ideia mais comum para nós estudantes é convidar um potencial parceiro romântico para comer um ramen em sua casa, um gesto romântico equivalente a convidar alguém para ver um filme em sua casa.

“O problema com esta abordagem é que a única coisa explicita na proposta é o ramen”, disse Roh. “Se a pessoa tiver em mente outras intenções além do macarrão, mas a outra parte aceitou a oferta sem considerar isto, pode ocorrer um mal-entendido e levar a um ato de violência sexual

Para evitar uma situação deste tipo, a Lala School enfatiza a necessidade de expressão o que se deseja, e em seguida, buscar sempre a permissão direta da pessoa envolvida, o que está diretamente relacionado com à construção da confiança e vinculo entre os envolvidos.

Lee e Roh mostraram os materiais de estudo que usam em suas sessões, um quadro de feltro com bonecas de corpos femininos e masculinos nus, tanto antes quanto depois da puberdade, presos em velcro. O painel também exibe bonecos de feltro dos órgãos sexuais externo e interno de ambos os sexos.

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Foto: Korea Herald

 

Nas sessões em que ensinam os adolescentes sobre os órgãos sexuais de cada gênero, os professores da Lala School permitem que os alunos toquem as reproduções detalhadas da genitália, mas somente depois que os alunos pedem permissão.

O que as crianças precisam aprender é como expressar amor e carinho”, disse Lee.

Na educação sexual convencional, as crianças aprendem a prevenir a gravidez. Mas a coisa é que eles nem sabem o que é sexo em primeiro lugar. Eu não estou falando sobre o contato físico dos órgãos sexuais, mas como dar as mãos, como encontrar o olhar de outra pessoa, como mostrar a uma pessoa que você quer cuidar dela, e outras formas de expressar amor, além das três palavras. “Eu te amo“, disse Lee.

Lee disse que, devido à falta de educação sexual adequada, as crianças coreanas crescem com falta de habilidades para compartilhar suas emoções, o que pode levar a crimes e outros problemas sociais.

À medida que os estudantes coreanos avançam nos anos escolares, menos tempo é dado à educação sexual. “As escolas dão mais valor as notas dos alunos para matricula-los em faculdades de elite do que seus conhecimentos em educação sexual e inteligência emocional“, disse Roh.

Para os adultos, a Lala School oferece sessões para quebrar os estereótipos de gênero.

Os pais têm dificuldade em oferecer educação sexual aos filhos porque eles não aprenderam sozinhos“, disse Lee. “Sem educação, as ideias que existem há gerações são transmitidas e a mudança não conseguem ocorrer”.

Os professores da Lala School são feministas e ativistas dos direitos LGBT, mas isso não é algo que eles admitem no início de suas aulas. Eles esperam até que as lições sejam feitas para dizer ao público que são feministas.

Eles quase sempre ficam surpresos ao descobrir que o que eles aprenderam é feminismo. Eles estão mais abertos a abraçar o feminismo após as sessões de igualdade de gênero, depois que percebem que o feminismo não é sobre a superioridade feminina sobre os homens, mas mais de entender um outro sexo e se comunicar”, disse Roh.

O primeiro escritório da Lala School foi em um local simbólico: um antigo bordel renovado em Geumcheon-gu, Seul. Mas depois que a umidade intensa do verão fez com que os fungos o deteriorassem eles se mudaram para um local diferente.

Seu objetivo é alternar periodicamente entre distritos que possuem uma educação sexual limitada. A localização do próximo ano, deve ser em Yongsan-gu, segundo  os professores, onde há uma escassez de institutos de educação sexual.


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