Quando Jeong Ji-eun estava no ensino médio, no início dos anos 2000, uma de suas amigas mais próximas colocou um piercing na língua. A amiga, que odiava ter que usar o uniforme da escola o tempo todo – achava especialmente insuportável o tecido rígido da blusa – usava uma joia vermelha na língua, que quase parecia um doce na boca. “Isso foi o que eu também pensei – que ela estava comendo um doce”, disse Jeong, agora uma profissional de 32 anos de idade, em Seul. “Até que foi descoberta por nosso professor durante uma aula.”

Imediatamente depois de perceber o que parecia ser um doce na boca de sua amiga, o professor foi até ela, e lhe deu um tapa no rosto. “Cuspa!”, disse o professor. “Eu não posso” a amiga de Jeong respondeu. O professor lhe deu mais um tapa. “Ninguém deve ter qualquer comida enquanto está em sala de aula. Que tipo de estudante você é? Cuspa!“, disse ele.

A amiga de Jeong parou por um segundo. Ela lembra de ter visto um brilho quase travesso nos olhos da amiga. “Sr. Kim, eu literalmente não posso” a amiga de Jeong disse, e então, orgulhosamente mostrou a língua perfurada.

Um anúncio de uniformes escolares para meninas do ensino fundamental e médio em Seul, com saias curtas e camisas justas, usando modelos magras. (Claire Lee / The Korea Herald)
Um anúncio de uniformes escolares para meninas do ensino fundamental e médio em Seul, com saias curtas e camisas justas, usando modelos magras. (Claire Lee / The Korea Herald)

Meu professor parecia aterrorizado – Eu acho que ele nunca tinha visto um piercing na língua antes”, disse Jeong. “Ele então saiu da classe e não voltou por um tempo. Me lembro do meu amigo rindo. Acho que essa foi a maneira dela de se rebelar. Nós éramos estapeadas por não usar o nosso uniforme corretamente – por ter esquecido de usar o colete, mesmo que não estivesse muito frio, estapeadas por usar brincos, por comer doces na sala de aula. Mas os professores certamente não foram preparados para lidar com línguas furadas”.

Na época, levar um tapa por razões relacionadas à aparência ou uniforme era, na verdade, normal. Ninguém realmente questionava, por que quando éramos crianças não sabíamos sobre outros mundos”, ela continuou. “Mas eu espero que as coisas sejam diferentes para a geração mais jovem. E, até onde eu sei, eles já estão fazendo mudanças”.

‘Bolso para batom’ e feministas adolescentes

Cerca de 15 anos se passaram desde os anos do ensino médio de Jeong, e a Coreia do Sul enfrenta agora um debate público sobre uniformes escolares, especialmente para meninas. Em julho, o presidente Moon Jae-in ordenou à  sua equipe que mudasse o design do uniforme atual – semelhante aos uniformes navais de estilo europeu, consistindo tipicamente de uma camisa branca, saias xadrez e blazers apertados – para algo mais prático e confortável, com itens tais como camisetas, moletons e shorts para meninos e meninas.

Por trás da mudança está uma nova onda de feminismo adolescente na Coreia do Sul, que também tem sido uma força motriz do movimento “MeToo” nas escolas contra professores e colegas. As feministas adolescentes, muitas das quais nasceram quando Jeong era uma adolescente no início dos anos 2000, têm participado ativamente na campanha chamada “free-corset” (“livre de espartilho”, em tradução livre), rejeitando usar maquiagem e protestando contra “lookism” na escola (discriminação baseada na aparência física de uma pessoa), apresentando queixas ao governo exigindo uniformes novos e diferentes.

Para elas, muitos anúncios comerciais que promovem uniformes escolares são problemáticos, tanto quanto o sistema escolar opressivo que atualmente as pune por “comportamentos abusivos”, relacionados a uniformes tais como vestir moletom, mesmo após a aula de ginástica ter acabado, ou meninas vestindo uma gravata vermelha em vez de uma azul, porque o azul “não é uma cor adequada para as meninas”.

Muitas vezes tendo como modelos estrelas de K-pop magras e esbeltas, os anúncios mostram imagens de jovens mulheres vestindo uniformes compostos por saias curtas e apertadas e blazers que marcam o corpo, elas dizem.

Na escola, constantemente nos dizem que devemos nos vestir “como estudantes”, não usando maquiagem e brincos, nem mesmo apenas um batom, e usar nossos uniformes adequadamente”, disse Yoo Jin-ah, uma estudante do ensino médio de 16 anos em Seul, região da capital, que recentemente apresentou suas preocupações sobre uniformes para o governo.

Mas quando vemos os anúncios de nossos uniformes, existem aqueles que promovem blazers especiais com ‘bolsos para batom’. É um bolso interno feito apenas nos blazers femininos, para que elas possam convenientemente levar seu brilho labial ou batom. Eu me pergunto por que esse bolso no uniforme feminino tinha que ser para batons em particular, e não para celulares ou canetas. E eu acho que os anúncios dos uniformes masculinos são principalmente sobre como eles são confortáveis, ou como eles conseguem facilmente andar e se mover usando tais uniformes“.

E isso é especialmente perturbador, a adolescente diz, ver tais “bolso para batons” em anúncios de uniformes escolares nas ruas quando ela e suas amigas são muitas vezes punidas por apenas levar produtos cosméticos para a escola. Uma vez, Yoo – que diz que ela ainda gosta de usar maquiagem, as vezes – foi pega enquanto carregava seu batom. No início dos anos 2000, Jeong teria levado um tapa na cara. Em 2018, a punição para Yoo foi escrever uma “carta de desculpas.”

Disseram para eu escrever de acordo com os cinco Ws e um H – (who, when, where, why e how) –, quem, quando, onde, porquê, e como”, disse Yoo ao The Korea Herald. Desta maneira, a minha carta foi assim: ‘Hoje, eu estava usando meu batom cor de laranja em frente ao refeitório da escola. Eu sinto muito.'”

Ironicamente, Yoo disse que, fazendo parte do movimento “livre de espartilho” – e, assim, não usando maquiagem – estava fazendo o que seus professores queriam – “parecendo uma estudante.”

O que me incomodou muito foi que nenhum dos meus professores dizia: ‘você não tem que usar maquiagem se não quiser, porque nenhuma mulher deve ser pressionada a ter um determinado visual”, disse Yoo ao The Korea Herald.

Meus professores, incluindo as mulheres, sempre diziam: ‘você vai ter que usar maquiagem todos os dias quando envelhecer. Usar maquiagem é um hábito básico para mulheres adultas. Você apenas tem que se parecer com uma estudante agora.’ E esta certamente é a razão pela qual eu escolhi voltar a pensar em maquiagem e como eu julgo a minha aparência e a dos outros em geral“.

Um anúncio on-line de um uniforme escolar que contém um "bolso para batom". (Capturado a partir de uma empresa de fabricação de uniformes)
Um anúncio on-line de um uniforme escolar que contém um “bolso para batom”. (Capturado a partir de uma empresa de fabricação de uniformes)

Kang Min-jin, uma ativista de direitos da juventude, disse que adolescentes coreanas são muitas vezes oprimidas de duas maneiras diferentes. “Há uma imagem que autoridades escolares e seus pais esperam delas: diligentes, sexualmente ‘inocentes’ e esforçadas”, disse ela ao The Korea Herald.

E então há uma expectativa muito diferente do mundo corporativo e de entretenimento, que muitas vezes exploram adolescentes de uma forma sexual. E a partir daí, é esperado que as jovens sejam atraentes, sexuais e agradáveis. O que é importante é dar às jovens a opção de escolher o que querem, livre de todas essas expectativas e pressões.”

Sexualização de uniformes

No início deste mês, Yoo Eun-jeong, uma comissária de bordo da companhia aérea Korean Air, depôs numa auditoria parlamentar do Ministério do Trabalho vestindo um uniforme que consiste em uma saia marfim apertada, uma blusa branca e um blazer azul-celeste.

Eu estou aqui para dizer que nosso uniforme – muito apertado e de cor muito clara – não é adequado para o trabalho que fazemos, que envolve lidar com alimentos e bebidas nos voos, e ajudar nossos passageiros com suas bagagens”, disse Yoo, de 43 anos, aos legisladores.

Yoo Eun-jeong, uma comissária de bordo da Korean Air, participa de uma auditoria parlamentar do Ministério do Trabalho na Assembléia Nacional em 11 de outubro. (Yonhap)
Yoo Eun-jeong, uma comissária de bordo da Korean Air, participa de uma auditoria parlamentar do Ministério do Trabalho na Assembléia Nacional em 11 de outubro. (Yonhap)

Quando colocamos a bagagem dos passageiros no compartimento designado, a nossa blusa apertada muitas vezes sai de dentro de nossas saias e deixa nossa pele a mostra, ou os botões de nossa blusa muitas vezes desabotoam enquanto nos movemos. E a cor das nossas calças e saias – marfim – são muito claras, além de também serem muito apertadas no corpo. Estas saias e calças mostram a linha de nossas calcinhas sobre a roupa. Sempre que uma comissária está menstruada, até se pode ver facilmente que ela está usando um absorvente por conta da cor do uniforme.”

Yoo disse que o uniforme sexualiza as funcionárias da Korean Air e as torna vulneráveis ao assédio sexual e até mesmo crimes que envolvem câmeras escondidas. De acordo com Lee Sang-don, do partido político Bareunmirae, há muitas fotos sexualmente explícitas de comissários de bordo em seus uniformes que circulam on-line, muitos dos quais foram tiradas secretamente pelos passageiros.

Nós também estamos enfrentando uma série de problemas de saúde por conta dos uniformes apertados”, disse Yoo. “Algumas de nós tivemos problemas digestivos enquanto outras tiveram problemas ginecológicos.”

Especialistas e estudantes dizem que o relato de Yoo compartilha similaridades com as experiências das estudantes do ensino médio. Kang Eun-ji, uma estudante do ensino médio, disse que muitas de suas amigas tinham passado por problemas digestivos por causa dos uniformes apertados.

Eu acho que, em geral, uniformes escolares para as meninas são muitas vezes demasiado pequeno. A maioria das vezes nos dizem que é o tamanho e que usar roupas largas não é ideal para estudantes

Em julho, o ex-Ministro da Igualdade, Chung Hyun-baek se reuniu com um número de meninas do ensino médio e professores para discutir a questão do uniforme escolar. Uma estudante na reunião contou como ela tentou obter uma blusa em um tamanho maior.

Eu disse ao vendedor que a blusa do ‘tamanho certo’ era muito apertada em mim e eu estava muito desconfortável nela”, disse a estudante.

Mas ela disse que se eu usar um tamanho maior, então eu não ficaria bonita e não ficaria bem em mim. Na minha escola, se uma menina quer usar calças, ao invés de uma saia, tem que ter ‘razões especiais’, como ter uma cicatriz visível em sua perna.”

Choi Yun-jeong, pesquisador sênior do Instituto de Desenvolvimento da Mulher Coreana, disse que os uniformes na Coreia são usados para explorar as mulheres, forçando as normas de gênero e limitando a sua mobilidade.

Nós realmente temos que pensar criticamente se é ideal forçar meninas a usar saias o tempo todo”, disse Choi ao The Korea Herald, acrescentando que o que está acontecendo com as comissárias de bordo, é apenas uma “versão adulta” do que está acontecendo com meninas do ensino médio.

É difícil para elas correrem. Faz com que elas tenham que sentar e se comportar de uma maneira específica. Mas o propósito de um uniforme é bastante simples: mostrar quem elas são – que são estudantes, comissárias de bordo – e ajudá-las a fazer o que elas têm que fazer, confortavelmente. Os uniformes atuais não estão ajudando no conforto, mas sim controlando seu corpo e movimentos de uma forma que não é benéfico para elas de maneira alguma.

Um anúncio de uniformes com uma saia curta, exibida na frente de uma loja em Seul. (Claire Lee / The Korea Herald)
Um anúncio de uniformes com uma saia curta, exibida na frente de uma loja em Seul. (Claire Lee / The Korea Herald)

E uniformes são muitas vezes os responsáveis pelas adolescentes sentirem vergonha do próprio corpo e até mesmo pelo bullying nas salas de aula.

Um professor do ensino médio, que também estava presente no evento com o ex-ministro Chung, disse que testemunhou muitos meninos na escola fazendo piadas sexualmente explícitas sobre a aparência das colegas e sua atratividade física – ou pouca atratividade -, especialmente a forma como elas ficam em seus uniformes escolares.

Alguns meninos chegam a “avaliar” e “rotular” suas colegas de acordo com sua aparência, dando um A+ para a garota mais bonita da classe, e dando um F a “colega menos atraente”, o professor acrescentou.

Uma vez na minha aula, uma aluna disse que as meninas deveriam ser autorizadas a usar calças como uniforme, em vez de saias – se elas preferissem”, disse o professor. “E então, um estudante respondeu dizendo: ‘(Se nenhuma menina da escola vai usar saias), então o que vai restar para nos entreter?’

Para o futuro

No ensino fundamental, Yoo perspectivou a formação de um grupo de estudo feminista quando começasse o ensino médio. Como os professores foram contra a ideia, o sonho não se concretizou.

Eles me disseram que eu poderia formar esse grupo quando estivesse na universidade”, ela disse ao The Korea Herald. “Ao invés disso, eles me disseram para me concentrar em estudos e vestibulares.”

Yoo e Kang disseram que elas não foram “muito abertas” sobre serem feministas na escola, muitos de seus colegas estão cientes de que o feminismo é, enquanto alguns são muito críticos a respeito. Alguns professores lhes disseram que o tipo de feminismo que as mulheres coreanas praticam envolve “ódio aos homens.”

Ainda assim, para Kim Yoon-seo, uma colega de Yoo e Kang, o feminismo a ajudou com sua auto-estima e seu senso de valorização. Ela também passou a apoiar o movimento “livre de espartilho”, e ao mesmo tempo, pedir que novos uniformes que não reforcem estereótipos de gênero sejam adotados.

Antes de descobrir o feminismo através de mídias sociais e seus amigos, Kim disse que ela era obcecada com maquiagem. “Eu nunca mostraria meu rosto sem maquiagem para alguém. Eu não sairia de casa sem maquiagem“, disse ela.

Agora eu já não sinto a necessidade de fazer isso. Eu realmente me sinto confortável estando sem maquiagem no meu rosto. O que o feminismo me ensinou é que eu não tenho que ser de uma determinada maneira, que é imposto pelos outros, que é OK ser eu mesma, do jeito que eu sou e do jeito que eu quero ser. E isso foi um alívio para mim.”


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