A vida de se exercitar e usufruir de alguns hobbies depois do trabalho, ou até mesmo antes, é algo comum na vida de muitos brasileiros, mas para a sul coreana de 26 anos Lee HyeRi isso parece um sonho. HyeRi trabalha até as 23 horas, o que torna difícil para ela imaginar uma vida longe do trabalho.

Recém contratada por uma empresa estatal, contou que muitas vezes faz horas extras e as vezes até trabalha em casa nos fins de semana. Ela também contou que quando está no ônibus indo para o trabalho, aproveita para dormir. E nos fins de semana, tenta dormir o máximo possível para descansar bem e poder trabalhar na semana seguinte.

Fazer horas extras se tornou um hábito. Se eu focasse em terminar meu trabalho durante o horário normal, eu poderia fazer isso, mas apenas penso ‘vou ter que fazer hora extra mesmo’”, afirma. “Para nós, voltar cedo para casa é apenas em ocasiões especiais, e ficar no trabalho até tarde é parte da rotina”.

HyeRi é uma entre vários trabalhadores coreanos que têm longas jornadas de trabalho, em uma sociedade onde fazer horas extras se tornou um símbolo de dedicação.

Em 2004, o Ministério do Trabalho fez uma pesquisa com 1.300 trabalhadores sobre a cultura trabalhista coreana. A pesquisa apontou que apenas 26,5% dos empregados não fizeram horas extras nos cinco dias da semana. Entre os que fizeram horas extras, 35,1% citou a natureza do seu trabalho como razão para ficar mais tempo na empresa, enquanto 25,8% ressaltaram a cultura de seus empregadores de achar que fazer horas extras é natural do trabalhador. Na terceira posição, com 20,9% está a baixa produtividade em tempo normal, como motivo para as horas extras. 10% dos trabalhadores não podem deixar o trabalho no horário normal por se sentirem pressionados e 6,4% citaram que a carga de trabalho era pesada.

Foto: Yonhap

Em 2014, foram 2.124 horas de trabalho na Coreia do Sul, o que colocou o país em segundo lugar entre os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD). Isso significa 354 horas a mais que a média, de 1.770 por ano.

Com o intuito de acabar com essas práticas, Lee ChanYeol, político sul coreano, apresentou na abertura da 20ª Assembleia Nacional, que ocorreu em 30 de maio de 2016,  um pacote de revisões das leis existentes relacionadas ao trabalho.

O projeto – apelidado de “Plano Kal-Twegeun”, fazendo referência ao ato de sair no horário correto do trabalho – inclui a imposição de sanções financeiras às empresas que violarem a lei, e torna obrigatório que os trabalhadores sejam filmados entrando e saindo do local de trabalho.

Parabenizamos esse projeto. Esperamos que ele possa acabar com a atual cultura de trabalho que existe na Coreia, e que consiga criar mais empregos”, conta Lee JoonYoung, porta-voz da Federação dos Sindicatos do Comércio Coreano.. “Uma vez que a lei for aprovada, levará algum até que as pequenas e médias empresas consigam erradicar as horas extras de trabalho, mas o projeto certamente afetaria imediatamente as grandes empresas e seus funcionários”.

Especialistas contam que as longas jornadas de trabalho causam problemas de saúde nos trabalhadores, o que faz com que eles tenham uma baixa produtividade.

Vários estudos têm mostrado que quem trabalha mais de 50 horas por semana, está mais inclinado a causar acidentes no trabalho, e a ter problemas cardiovasculares devido ao estresse”, afirma Lee HyeEun, professor de Medicina Ocupacional e Ambiental, na Universidade Católica da Coreia.

Longas horas de trabalho criam uma estrutura social que pode desestabilizar o equilíbrio entre o trabalho e a família. Também faz com que os trabalhadores tenham dificuldade em se exercitar, em aliviar o seu estresse, e que sejam mais relapsos com a saúde. Aparentemente, isso está ligado à baixa produtividade dos funcionários no país.

De acordo com os dados da OECD, os trabalhadores sul coreanos tiveram uma relação de produtividade/PIB por hora trabalhada de R$106,08 em 2014, valor abaixo da média de R$156,06. A diferença fica mais clara ao compararmos com a Alemanha, onde os trabalhadores fazem 1.371 horas de trabalho por ano, com uma produtividade de R$200,26 por hora.

Por trás dessa cultura de horas extras, Kim JongJin, pesquisador do Instituto Coreano de Trabalho e Sociedade, ressalta que a estrutura social faz com que os trabalhadores tenham salários baixos. “As empresas podem economizar custos, como as taxas de treinamento e indenização, tornando seus funcionários qualificados para trabalharem por mais horas, e com isso, não precisarão gastar para treinar novos membros de sua equipe”, diz. “Os trabalhadores se veem forçados a fazerem horas extras para, assim, poderem levar mais dinheiro para casa”.

Park HyeYoung é a advogada trabalhista do grupo não governamental “Solidariedade para a Saúde dos Trabalhadores”, e coloca a rápida industrialização do país e o crescimento econômico como causas. “Como o país saiu da pobreza de forma rápida às custas de muito trabalho, a sociedade tem justificado as longas horas e as condições ruins de trabalho, como necessárias para a continuação do crescimento econômico à custa dos trabalhadores e os trabalhadores foram condicionados a aceitar isso”, afirma.

HyeYoung vê o projeto como um passo crucial para desencadear o debate público sobre o assunto, mas permanece com dúvidas quanto a real aplicabilidade do projeto. “Mesmo o salário mínimo, que é legalmente determinado, não é respeitado em todos os lugares na Coreia” diz. “Medidas administrativas do Ministério do Trabalho, tais como intenso monitoramento e repressão, devem ajudar o projeto de lei a mudar a prática que ocorre no país”.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



1 COMENTÁRIO

  1. Eu adoro a Coreia, viveria lá tranquilamente, mas não gosto de pensar em trabalhar tanto assim, fazendo hora extra todos os dias, como se fosse parte do expediente normal. Fico estressada só de pensar!

DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.