O local exalava aconchego. No chão de madeira, aquecido, algumas mulheres sentavam-se sobre um grande cobertor de crochê colorido, grande o suficiente para cobrir todo o espaço, colocando os toques finais no artesanato. Outras mulheres estavam concentradas em tricotar no canto da sala, ocasionalmente conversando entre si sobre fios e modelos de coletes, lenços ou almofadas.

Yoo Hee-sun, que estava tranquilamente tricotando uma almofada sozinha, disse que tinha terminado ela há poucos dias para um poeta que escreveu um longo poema dedicado a seu filho, Kim Ho-yeon, em seu aniversário de 18 anos.

Quando leio o poema, sinto como se a vida de meu filho brilhasse diante dos meus olhos“, ela disse com um leve sorriso, sem tirar os olhos da almofada por um segundo.

Seu filho morreu em 16 de abril de 2014, juntamente com 303 outros passageiros, quando a balsa de Sewol desceu da costa sudoeste da Península Coreana em uma das piores tragédias do país.

Alto e alegre, Ho-yeon era presidente de classe e sonhava em se tornar um jogador de beisebol. Quando o navio começou a inclinar-se, ele saiu para o convés com alguns colegas de classe, retornando após uma decisão fatal de seu professor que os chamou de volta, pois, depois disso não conseguiram mais sair.

O trabalho de Yoo, junto com o de outras mães de vítimas,  está atualmente em exibição na Galeria dos Cidadãos localizada no porão da Prefeitura de Seul.

Para a exibição que ocorreu durante os dias de 11 a 19 de fevereiro ela também escreveu um recado para o poeta: “Quando leio o poema posso ouvir sua voz, tocar seu rosto e ver seu sorriso… Eu chorava todos os dias por sentir tanta falta dele. Mas a voz que você encaminhou para mim através do seu poema me ajudou a parar de chorar e me recompor. Percebi que ele está em todos os lugares. Não vou mais chorar pois quero estar com ele da melhor forma possível

 

Trabalhos de crochê quase finalizados pelas mães das vítimas.
Trabalhos de crochê quase finalizados pelas mães das vítimas.

Ansan, cerca de 42 quilômetros a sudoeste de Seul, é onde a maioria das vítimas do ensino médio viviam. Poucos meses depois que a pequena cidade com uma população de 74 mil habitantes foi abalada com tal notícia, ativistas locais abriram um centro de apoio para ajudar as famílias das vítimas.

A psiquiatra Jeong Hye-sin tem oferecido aconselhamentos para pais e irmãos das vítimas. Seus pacientes também incluem os mergulhadores que pularam na água turva para recuperar os corpos por quase três meses. Muitos deles ainda sofrem de trauma mental e físico devido a múltiplos mergulhos, feitos até quatro vezes por dia, mais do que é considerado seguro, para trazer de volta os corpos para os pais que estavam na ansiosa espera.

Voluntários vem ao centro para cozinhar refeições e fazer a limpeza. Comidas e outros itens considerados necessários para as famílias chegam de todo o país.

Faz mais de dois anos e meio desde que as mães começaram a tricotar. Isso não é sobre aprender um novo ofício ou sobre produzir um trabalho bom e bonito. Nós consideramos a atividade como um anestésico para a dor que ajuda as mães a suportar esse período extremamente doloroso”, disse Lee Young-ha, que dirige o centro.

Ela acrescentou que a ideia da exposição é compartilhar cerca de 3.500 obras no total, que incorporam a saudade que os pais sentem de seus filhos e também para agradecer as pessoas que que afligiram-se com suas perdas e as apoiaram.

Basicamente, não temos muito o que fazer para amenizar suas dores, a não ser que trouxéssemos seus filhos de volta a vida. Não é algo que podemos curar. Mas podemos ao menos os ajudar a sobreviver estando aqui para eles.

Imagens da exibição feita.
Imagens da exibição feita.
Uma voluntária ensinando à uma das mães como fazer crochê.
Uma voluntária ensinando à uma das mães como fazer crochê.

Entre o apoio que as famílias receberam, ocorreu uma sessão de conversa com seis mães e a Dra. Jeong na sala de exposições. Centenas de pessoas se reuniram para ouvir suas histórias.

Cho Sun-ae, a mãe de Kang Hyeok, disse que tricotou 450 cachecóis e 20 bolsas. A maioria deles foi entregue a idosos pobres, famílias de outras vítimas e voluntários.

Fiquei feliz de saber que esses cachecóis vão aquecer as pessoas. Eu me sinto ansiosa e nervosa quando não faço nada, mas me sinto segura quando estou tricotando“, disse ela com uma voz trêmula.

Às vezes ela tricota sem estar totalmente focada e só então percebe que pulou um ponto. Então “uma crise de choro começa porque eu sinto que ainda não consegui me recuperar totalmente“, diz ela.

Sinto uma saudade terrível do meu filho todos os dias. Meu sonho era que eu pudesse tomar uma droga que secasse todas as minhas lágrimas” disse Cho segurando as lágrimas. Ela quase mudou seu nome para Hyeok, mas mudou de ideia no ultimo minuto. (Hyeok é tradicionalmente um nome coreano masculino)

Meu marido disse ‘eu não estava falando sério quando eu concordei com a ideia. Quem na terra põe essa piada em ação!?’ “, contou Cho. E os espectadores que estavam chorando junto com ela de repente se viram rindo.

Voluntários preparando as refeições para a comemoração do aniversário de uma das vítimas.
Voluntários preparando as refeições para a comemoração do aniversário de uma das vítimas.
Imagem de uma das mesas preparadas em memória das vítimas.
Imagem de uma das mesas preparadas em memória das vítimas.

Além de aulas de crochê e tricô o centro também promove festas de aniversário para as crianças e jovens. Até então o centro sediou 56 festas, com tudo, exceto a pessoa que está comemorando o aniversário.

Quase um mês antes de um aniversário, os voluntários começam a entrevistar todos que se lembram da vítima, incluindo pais, amigos e professores. Escrevem um memorando, criam uma pintura e dedicam um poema na lembrança da vida perdida.

Assim como qualquer outro aniversário, as paredes são decoradas com fotos, mensagens de felicitações, e claro, balões. Um bolo de aniversário com velas, pertences da criança, como grampos, cadernos e carteiras, e uma cesta de flores são colocados sobre uma mesa.

Entre todos os programas que organizamos os pais dizem que este é um dos mais satisfatórios. Eles tem medo de que seus filhos caiam no esquecimento então esse tipo de reunião lhes deixa felizes. Eles aprendem que seus filhos vão sempre viver nos corações de quem se lembra dele ou dela“, disse Lee que trabalha no centro.

Na sessão do Dra. Jeong, foi dito que as mães ficam entre emoções extremas, como o balanço de um pêndulo, num momento sentindo como se sua vida não tivesse sentido e no próximo, tendo um senso súbito de propósito.

O sofrimento pela morte de um filho nunca fica mais fácil. Mas ajuda quando a família e as pessoas ao seu redor reconhecem o fato, então podemos dar um pequeno passo para ajudá-los a lidar com seu sofrimento“, disse ela.


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