Fundando em 6 de agosto de 2015, o site independente MEGALIA, incorpora um novo tipo de feminismo – um que faz uso de umas das melhores infraestruturas de comunicação e informação do mundo para promover a igualdade de gênero e “brigar’ de forma irônica com a misoginia online na Coreia do Sul.

O nome, atualmente registrado como marca própria de um dos usuários, é um neologismo combinando “galeria MERS”, um fórum na internet onde o movimento nasceu, com “Egalia”, da novela satírica “Egalia’s Daughters” de Gerd Brantenberg.

O Megalia.com opera com base no anonimato absoluto, com integrantes postando sob o mesmo apelido, com exceção de notas de manutenção feitas pelos administradores do site, que também permanecem anônimos (até dezembro de 2015, algumas entrevistas feitas com os integrantes ou administradores não informavam nada pessoal).

O movimento coletivo começou em junho de 2015, quando uma mulher começou a reproduzir os comentários misóginos de membros dos DCInside.com, um fórum popular. O que foi entendido como uma pequena página para dividir informações sobre o MERS-CoV, Síndrome Respiratória por Coronavírus do Oriente Médio, se transformou em um campo de batalha entre gêneros. Usuários homens começaram a lançar comentários de ódio para as duas mulheres sul coreanas afetadas pela MERS, que, devido à falhas de comunicação, não seguiram a chamada do governo sul coreano para quarentena. As mulheres revidaram, imitando os comentários dos homens de modo simples, ao substituir as palavras ‘mulheres’ por ‘homens’, uma tática que promove, de modo ativo, a ‘reflexão’.

Os integrantes do Megalia, que se denominam ‘Megalians’, tem desde então causado alvoroço na mídia. Oponentes o chamam de odiadores de homens e o acusam de lutar contra o ódio, com ódio – e que “essas mulheres” foram longe demais. E o ponto é exatamente esse, de acordo com os Megalians. De expor a misoginia que atualmente é considera um comportamento social aceitável e incitar mulheres da Coreia do Sul, todos os dias, a virarem o jogo, para que homens e mulheres, juntos, possam enfrentar a discriminação em sua forma honesta e crua.

No momento de sua concepção em agosto, o site tinha 170.000 visitantes (informações do bysimilarweb.com). O número continua a crescer, sendo que 100 mil visitantes são adicionados todo mês. Em novembro as estatísticas ficaram em torno de 370.000. Cerca de 83% dos visitantes entram por meio da rede tecnológica do país, enquanto 10% são dos EUA, e em números menores do Canadá, Japão e Nova Zelândia (há uma porção de usuários também estão em territórios europeus).

Cerca de um quarto do fluxo provém de referências – mais notadamente do Ilbe.com, um site cujos integrantes foram alvos de críticas, e vice-versa, do Megalia. Desde que o movimento começou no DCInside.com. Ilbe, um site dedicado ao humor e cujo viés político tende ao extremismo de direita, tem enfrentando acusações continuas da população geral da Coreia do Sul pelo seu conteúdo amplamente não moderado – de modo similar ao 4chan no restante do mundo. Sua notoriedade decorre de ataques dirigidos a grupos específicos, como mulheres e sul coreanos originários da província de Jeolla (considerados caipiras). Usuários foram acusados de usar termos como “bolo de peixe” e ”carne de churrascopara zombar das centenas de pessoas que morreram no desastre da balsa Sewol em 2014 e do incêndio no metrô de Daegu em 2003.Logo do Megalia

Logo do Megalia

O logo do Megalian reflete sua natureza satírica, muito influenciado pela obra feminista “Egalia’s Daughters: A Satire of the Sexes pelo autor Norueguês Gerd Brantenberg. Na obra, Brantenberg narra um mundo onde os papéis de gênero são completamente invertidos – linguisticamente (as mulheres são chamadas de ‘wim’ e os homens de ‘meowim’, tornando-os um sufixo), socialmente (as mulheres são privilegiadas em casa e na sociedade devido ao seu poder de dar à luz), e sexualmente (homens estão em risco constante e sobre abuso sexual; e a culpa cai toda sobre eles e não sobre a agressora). O logo faz alusão a atitude muito crítica da sociedade sul coreana – em especial de homens – sobre a aparência física das mulheres e espelha a obsessão masculina com a sexualidade feminina e atributos físicos, zombando do tamanho dos pênis de homens sul coreanos – “eles apenas não são bons o suficiente”.

A sátira e humor culminaram na criação do Dicionário Megalia, assim como uma paródia da popular história sul coreana que visa ensinar às crianças os caracteres chineses básicos. (Todos os caracteres são reinterpretados da letra 男, que significa homem).

O popular vocabulário e expressões do Megalia incluem referências aos problemas sociais causados por homens da Coreia do Sul, assim como inversões de termos degradantes usados por eles no site Ilbe, por exemplo:

Batom Chanel: brinca com o conceito de garota kimchi, um termo depreciativo utilizado por homens para se referir às mulheres que compram bens de marca.

Papa: refere-se aos homens do país que tiveram casos extraconjugais em países do Sul ou Sudeste Asiático e abandonaram seus cônjuges quando uma criança nasceu.

Ilbe Azul e Verde: faz referência ao Facebook e ao Naver, os quais demonstraram atitudes intolerantes em relação aos comentários feministas, apoiando grupos misóginos.

Homem Sul Coreano de Shoroedinger: refere-se a um estudo que relatou que cerca de 58% dos homens sul coreanos compram serviços sexuais.

Irmã Mais Velha Morta: refere-se ao aborto seletivo de fetos femininos, uma prática comum na Coreia do Sul até a década de 1990 (na crença de que um filho é mais valioso que uma filha).

Apesar do alvo principal dos retruques e imitações do Megalia serem os homens, mulheres também recebem criticas. Essas mulheres – chamadas de ‘corselete’ (se referindo à peça de vestuário restritiva) ou “Pênis Emeritus” são, no entanto, vistas como um produto da sociedade dominada por homens, que devem se libertar das injustiças patriarcais de desejos indivíduais (e se unir ao Megalia, é claro).

Deve ser dito que quase todas as mulheres coreanas são entendidas como tendo sido submetidas a uma fase ‘corselete’ em algum momento da vida, uma vez que é uma norma social implementada até mesmo nas crianças.

O movimento não se define apenas como uma simples zombaria da misoginia. Tem financiado várias campanhas feministas – incluindo crowdfunding de anúncios no sistema público de transporte que denunciam a pornografia de vídeos de “câmeras escondidas“, endossando apoio e encorajando doações individuais ao novo político da Nova Aliança Política Democrática, Jin Sunmee, que lidera a campanha para encerrar as atividades do Soranet, um site de pornografia sul coreano associado à disseminação de prostituição de menores e propagação ilegal de vídeos. (O escritório de Jin recebeu um total de 10 milhões de wons, US$ 10.000, nas 24 horas após o post de chamada do Megalia).

Anúncios anti-misoginia, nos metrôs de Seul, patrocinados pelo Megalia. Foto: Real Korea
Anúncios anti-misoginia, nos metrôs de Seul, patrocinados pelo Megalia. Foto: Real Korea

O site tem trabalhado exaustivamente para expor o Soranet, o maior portal de pornografia sul coreano (mais de um milhão de usuários registrados) e que cuja fama se deve a sua habilidade de manter-se longe de consequências legais por meio de mudanças de domínios e servers, se mantendo fora da jurisdição legal da Coreia do Sul.

O Megalia também teve papel crucial no escândalo de 2015 envolvendo a revista Maxim Korea. Em sua edição de setembro de 2015, a capa da MAXIM Korea expôs a imagem de pés nus de uma mulher saindo de um porta-malas de carro, com o slogan “O verdadeiro homem mal”. A foto da edição segue em mostrar imagens, da suposta vítima no porta-malas, olhando para o agressor, e então sendo carregada dentro de um saco plástico. A revista manteve uma resposta defensiva diante das acusações, e apenas proferiu um pedido de desculpas depois que a mídia internacional e o porta-voz da MAXIM US condenaram as imagens.

Imagens na Revista Maxim Korea, que geraram polêmica mundial. Foto: All Kpop
Imagens na Revista Maxim Korea, que geraram polêmica mundial. Foto: All Kpop

Outras atividades pelas quais o Megalia foi responsável foram:

Cessou com sucesso a venda de dispositivos do tipo “câmera escondida” do Ticketmonster (Tmon), uma plataforma de e-commerce da Coreia do Sul (não relacionada ao site de venda de ingressos ticketmonster.com). Após dezenas de ligações de reclamações de Megalians, o Tmon interrompeu as vendas e ofereceu um pedido de desculpas oficial. O Wemakeprice.com, que vende produtos similares também parou as vendas, mas não ofereceu desculpas.

Contatou o conselho estudantil da Hanshin University sobre a série de banners no campus contendo slogans misóginos. O conselho em seguida proferiu um pedido de desculpas e recolheu os banners.

Doou mais de 6 milhões de KRW (US$ 5.100) para a Aeranwon, uma ONG que auxilia mães solteiras.

Interrompeu as vendas de ácido clorídrico de alta concentração no 11st.co.kr, prestando queixa ao Ministério do Meio Ambiente. O ácido clorídrico e o ácido sulfúrico têm sido utilizados como armas em casos de crimes de ódio contra mulheres cometidos por homens.

Até o dia 25 de dezembro, o site mantinha alguns apoios financeiros e campanhas na mídia. Um canal do Youtube dedicado a prover informações sobre crimes de ódio na Coreia do Sul faz upload de vídeos com legendas em Inglês, Francês, Japonês, Mandarin e Espanhol.

No entanto, o site não está livre de problemas. No início de dezembro, um debate começou sobre se o site apoiaria os direitos de homens gays (o site é apoiador da comunidade lésbica). Alguns participantes argumentaram que homens gays não devem ser poupados das críticas, já que também são parte da comunidade masculina do país que é o alvo do site. Os administradores determinaram que seus membros não deveriam usar termos pejorativos satíricos para se referirem aos homens gays, e a decisão causou um enorme êxodo em massa. Foi proposta a criação de um novo site, Womad, alternativo ao Megalia.co, mas até 25 de dezembro, o site não havia sido lançado e o fórum se manteve privado.

Desde o êxodo de dezembro, alguns sites fingindo ser uma alternativa ao Megalia.com surgiram, tirando vantagem da confusão e atraindo Megalians  visita-los ou se juntarem a eles. No entanto, poucos Megalians realmente migraram para esses sites, já que foram avisados de antemão em fóruns.

Homens, em sua maioria do site rival Ilbe, também tem vandalizado e entrado no Megalia, um site dominado por usuários femininos (incluindo transgêneros e mulheres transexuais). Já que o Megalia opera com base no anonimato total e insiste em uma política de fácil acesso, não há como bloquear os usuários baseado em qualquer informação. Os portais sul coreanos como Naver e Daum pedem que o usuários informem número da carteira de identidade (substituída depois por uma Web ID em 2014), o que permite que os administradores e moderadores de fóruns restrinjam o acesso baseado em idade e/ou gênero – mas limita qualquer chance de anonimato.

Esse anonimato é tanto o ponto forte quanto fraco do Megalia, já que garante liberdade de expressão total aos membros, enquanto diminui a facilidade de bloquear usuários. Poucos membros foram bloqueados pelo rastreamento do endereço de IP; mas, em geral, os administradores não moderam os posts e apenas liberam avisos se algumas reclamações foram feitas.

Desde dezembro de 2015, os administradores e financiadores do site continuam a receber criticas sobre sua falta de transparência, mas nenhuma resposta oficial foi liberada.

Update: Até Maio de 2016, muitos usuários migraram tanto para o radical WOMADIC (Darum Café) ou para o LADISM (Daum Café) menos radical.

Site do Megalia (apenas em coreano): http://megalian.com/


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