Após meses de deliberação, Shim Jung-hyun, uma youtuber sul coreana de 26 anos conhecida por suas dicas de beleza, anunciou aos seus inscritos que pararia de produzir tutoriais de maquiagem, cuidados com a pele e unboxing de produtos.

Não estou mais me sentindo feliz em mudar tanto a minha aparência apenas para atingir minhas expectativas” disse em seu vídeo, publicado em Junho. “Ultimamente eu considerei diminuir o tempo que gasto aplicando maquiagem. Venho passando esse tempo comigo mesma, mesmo que seja apenas 10 minutos, e estou cada vez mais feliz.

Shim, que até o momento desta publicação, possuía quase meio milhão de inscritos em seu canal no YouTube, não é a única pessoa a se posicionar contra as normas de beleza e maquiagem.

Jovens sul coreanas estão destruindo suas maquiagens, cortando seus cabelos compridos e jogando fora seus sutiãs. Desde o começo de 2018 vêm compartilhando fotos online de seus mais novos cortes e de seus batons destruídos seguido da hashtag “#RemoveTheCorset” – tal-koreuset em coreano.

A Nação Do K-Beauty Começa A Questionar Seus Padrões De Beleza
Foto por abc

O corset mencionado não é físico que transforma os corpos femininos em ampulhetas. Nesse contexto, o corset é figurativo e se refere a sociedade sul coreana e suas normas rígidas quanto a seus padrões de beleza, impostos principalmente às mulheres.

A Coreia do Sul é conhecida por sua obsessão com a aparência e pelo seu frenesi pela cultura da maquiagem, conhecido como “K-beauty”. “A Coreia do Sul está entre os top 10 mercados de produtos de beleza, estimado em mais de US$13 bilhões em 2017” declarou Mintel, uma agência de especulação do mercado. A Coreia do Sul é “a capital mundial da cirurgia plástica”, afirmou um artigo de Junho da Business Inside, citando o número de procedimentos realizados todos os anos. Mulheres produzidas dos pés as cabeças são comuns nas maiores cidades sul coreanas.

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Foto por abc

Algumas mulheres apontam que isso muitas vezes não é por vontade própria.
Como uma mulher vivendo na Coreia do Sul você já deve ter ouvido pelo menos uma vez: ‘Maquiagem é sobre respeito!’” disse Shim. “Quando saio sem maquiagem, eu realmente me sinto como se estivesse faltando com o respeito básico“.

As expectativas para as mulheres se arrumarem é tão generalizada que no ínicio do mês (Novembro,2018) a franquia da Yogerpresso, rede de cafés sul coreana, demitiu uma funcionária em seu primeiro dia de trabalho após ela comparecer de cabelo curto e sem maquiagem. A história se tornou viral nas mídias sociais e a companhia teve que se desculpar, entretanto o incidente permanece como um lembrete de como as mulheres devem se comportar de acordo com padrões de beleza a fim de serem vistas como ‘apresentáveis’.

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Propagandas no metro de seul. Foto por beauty & seoul

[No escritório] todos os tipos de ideais sobre feminilidade são impostos às mulheres – tais como maquiagem, roupas femininas e comportamentos como ser gentil e estar sempre sorrindo – que acredito que tive que aprender para poder me encaixar no mundo adulto” pronunciou Kim Ji-soo, uma sul coreana nos seus 20 que trabalha na área de finanças.

A demanda por um certo tipo de aparência é tão estrito que existe uma expressão para descrever todo o esforço que ocorre por trás: kkumim nodong, que significa “trabalho de embelezamento”. Isso inclui inclusive não usar óculos, como demonstrado no incidente envolvendo Lim Hyeon-ju, âncora na emissora MBC, que foi notícia em Abril (2018) por usar óculos durante uma transmissão ao vivo.

Existia uma regra silenciosa sobre mulheres usando óculos no trabalho” disse Lim em uma entrevista. “Mesmo depois que comprei meus óculos, não consegui usá-los pois ficava preocupada com o que os telespectadores poderiam pensar. Me preocupei que pensariam que eu não estava sendo profissional.

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Jornalista vira notícia após usar óculos ao vivo. Foto por koreaboo.

A pressão social para parecer bonita tem afetado não apenas mulheres adultas. Em 2015, um anúncio de uniformes escolares apresentou modelos magras no que foi descrito como “jaquetas espartilho” e “saia [sem] peso”. O anúncio atraiu uma nuvem de críticas por promover uma imagem física irreal para meninas adolescentes.

Além disso temos jovens meninas maquiadas.

Agora vejo garotas de 11 ou 12 anos em lojas de cosméticos usando maquiagem” disse Kang Do-yeon, estudante de 18 anos de Icheon, uma cidade do sul de Seul.

Kan, que começou a usar maquiagem no ensino médio, disse que praticamente todas as garotas de sua turma usam “BB cream” (base que cobre manchas) e lip tint (um tipo de batom), e aquelas que não acordam cedo o suficiente para se maquiarem antes das aulas cobrem os rostos com máscaras.

Diversos meios de comunicação sul-coreanos reportaram no último mês que o mercado de cosméticos para adolescente vêm crescendo uma média de 20% anualmente. De acordo com o Green Health Solidarity, grupo de defesa do consumidor, 73,8% das estudantes do ensino médio usam maquiagens pigmentadas como sombras e lip tints.

Cinco anos atrás, um estudo realizado pela Universidade Feminina de Sookmyung em Seul reportou que cada vez mais garotas começavam a usar maquiagem jovens: 43,2% das estudantes responderam que iniciaram o uso no ensino elementar, comparado com 7,1% dos estudantes da décima segunda série – lembrando que o sistema escolar sul coreano é dividido de forma diferente ao brasileiro.

A popularidade dos cosméticos entre menores de idade é refletida na quantidade de vídeos com tutoriais de maquiagem para crianças, normalmente as incluindo.

Algumas mulheres estão dizendo que basta.

O movimento remova-o-corset coincide com um aumento do feminismo e direitos das mulheres. O movimento #MeToo sul-coreano tem destacado a cultura duradoura de violências sexuais. As manifestações contra os chamados crimes de“spycam” – uso de câmeras escondidas para filmar mulheres sem consentimento – tornaram-se as maiores manifestações exclusivamente femininas na história do país.

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Foto por the dilomat

Questões como a disparidade salarial de gênero na Coreia do Sul – a terceira pior na OCDE – são examinadas pela mídia. E vários executivos de grandes bancos e empresas estatais foram acusados ​​ou condenados por desqualificar deliberadamente candidatas para contratar homens em seus lugares.

Essa mudança cultural está alimentando a consciência de que os altos padrões de beleza existentes na Coreia do Sul podem ser outra forma de opressão.

Shim, a vlogger de beleza, também começou a questionar esse culto à beleza. “Devo ter passado quase uma hora todos os dias me maquiando”, disse ela ao Korea Exposé. Mas ao aprender sobre diferentes questões feministas, ela se perguntou: “Isso é realmente para minha própria satisfação?

Ainda assim, não foi uma decisão fácil para Shim parar o que ela era conhecida por fazer.

No início, fiquei preocupada com meus assinantes do YouTube”, disse ela. “Se esses inscritos fossem embora, meu canal ainda teria significado?

Sendo assim, Shim ficou surpresa ao ver que os comentários eram em sua maioria positivos. Uma pessoa escreveu: “Ultimamente, tenho pensado muito em “remover o espartilho”. Posso dormir mais antes da escola porque não uso mais sombra ou delineador. É tão conveniente. Eu sinceramente torço por você. Você é incrível.

Outras mulheres também estão se posicionando. Um vídeo intitulado “Eu não sou bonita” de Lina Bae, outra YouTuber sul-coreana, se tornou viral. Nele, comentários insultuosos sobre a aparência de Bae aparecem na tela enquanto ela coloca uma maquiagem pesada. Os ataques continuam mesmo após ela terminar de aplicar a maquiagem, implicando que não é possível escapar dos comentários críticos, mesmo depois de tanto esforço.

Então, Bae tira a maquiagem, sorri pela primeira vez, a tela fica preta e uma mensagem é exibida:

“Não sou bonita. Mas é Ok não ser bonita.”

Esse não é o vídeo original, que foi excluído.Entretanto o canal ainda está ativo e possui legendas em Inglês

Algumas mulheres argumentam que o movimento tornou-se em si um espartilho, envergonhando as mulheres que buscam ser bonitas. Dizem que maquiar-se, frisar o cabelo e usar saias e saltos altos podem ser feitos por livre e espontânea vontade e para auto-satisfação, não simplesmente por patriarcado ou desejo de agradar aos homens.
Min Suh-yeong, cartunista conhecida por desenhar histórias em quadrinhos sobre feminismo, insistiu que beleza significa ser a melhor pessoa que ela pode ser – o que, para ela, inclui descolorir o cabelo, vestir-se bem e usar maquiagem pesada nos olhos.

“Eu realmente gosto de ser bonita”, escreveu em seu blog. “Eu realmente quero mostrar que alguém que declarou publicamente ser feminista pode ter uma vida boa. Para o conseguir, não é natural querer usar tudo o que tenho como mulher, como ser humano?

Os defensores do movimento, porém, afirmam que o ponto crucial é escapar da própria ideia de beleza.

“Não acredito que o problema do espartilho se limite a maquiagem, cabelo comprido ou roupas femininas como saias”, disse um usuário do Twitter. “A menos que quebremos o preconceito de que as mulheres são bonitas, ou que as mulheres devem ser bonitas, esse debate sobre a remoção do espartilho nunca vai acabar.”

Kang, a estudante do ensino médio, disse que também se trata de mudar a própria mentalidade para que não seja tão afetado por validação externa e normas sociais.

Se eu tivesse crescido em um lugar sem tantos preconceitos [sobre a aparência], toda a minha visão da vida não seria diferente também?” ela disse.

Nota

Embora essa seja uma publicação realizada em 2018 o movimento feminista sul-coreano só tem ganhado mais força nos últimos anos. Com o movimento #MeToo e os crescententes casos de spycams, não apenas os padrões de beleza estão sendo cada vez mais questionados mas também sobre o papel designado da mulher dentro da sociedade e a pressão estrutural que é colocada sobre ela.

Nos últimos anos vêm crescendo o número de casos de pedidos de divórcios por parte das mulheres assim como vêm diminuindo o número de jovens que buscam o casamento e maternidade, visando investir em suas carreiras.

A Coreia, conhecida por ser o país de cirurgias plásticas, teve aumento nesse setor durante esse período de pandemia, segundo o South China Morning Post. São pessoas que buscam se favorecer do uso obrigatório de máscaras para disfarçar os efeitos pós-cirurgia.

Entretanto, segundo uma matéria publicada pelo site Business Standart, um segmento que  vem sendo atingindo é a indústria de cosméticos e beleza. De acordo com a matéria, o mercado já vinha sofrendo baixas nos lucros, porém após o início da pandemia diversas empresas vêm passando por crises. O motivo é simples: com o distanciamento social e trabalho remoto diversas lojas tiveram que fechar temporariamente e foi reportado que além disso, a pressão por manter as aparências diminuiu – consequentemente o uso de produtos para mantê-las.

Dessa forma o mercado está se vendo forçado a mudar suas estratégias para não perderem seus consumidores. Lojas físicas são cada vez menos necessárias e agora as empresas buscam investir muito mais em produtos de cuidados de pele e não em maquiagens.

A Coreia do Sul se encontra em um momento profundo de mudanças, mesmo que essas pareçam acontecer lentamente. Com o aumento de manifestações e reinvidicações de diversos grupos minoritários, vemos um avanço social positivo e inevitável.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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