Acompanhe agora, a crônica de Se-Woong Koo, editor chefe da revista eletrônica Korea Exposé sobre o que são os famosos “koreaboos”, pessoas que tem um gosto obsessivo e equivocado pela cultura coreana.

A ideia de pessoas que amam tanto a cultura coreana que gostariam de se tornar coreanos, já existe a alguns anos.

Como eu faço um Oppa me sarang?” É o título do que parece ser um post do Yahoo Answers, circulando desde pelo menos 2014. Oppa[como uma garota se refere a um garoto mais velho que ela, na Coreia do Sul]. “Oppa é tão kawaii, mas Oppa sarang outra unni :-(“ (Esse homem coreano é tão fofo, mas ele ama outra mulher [unni – que é mais velha que eu]), compartilha o escritor, misturando palavras coreanas com inglês e até um termo japonês (kawaii – fofo).

Eu realmente Sarang Oppa, o que eu devo fazer? :3 ><” (Eu realmente o amo, o que eu devo fazer?)

O que são Koreaboos?
Uma captura de tela do post apareceu em todos os lugares online, mas esta vem do twitter

Não há como verificar se esta postagem é verdadeira, uma vez que o Yahoo Answers foi encerrado no ano passado, mas a natureza indutora do apelo não passou despercebida para muitos leitores, e deve ser por isso que ainda está circulando online, levando um internauta anônimo ao fórum online OneHallyu para trollar o autor do post.

Esse termo, Koreaboo, entrou no léxico do Urban Dictionary há cerca de quatro anos para significar “alguém que é tão obcecado pela cultura coreana que denuncia a sua própria cultura e se auto-proclama coreano“. (Na verdade, a pessoa por trás do post do Yahoo Answers começa dizendo “Eu sou um coreano kawaii“, por mais implausível que pareça, dado o estranho domínio da língua coreana, a ponto de misturar com uma expressão japonesa). A isso, pode-se adicionar um amor que beira a obsessão aos coreanos.

Eles são reais? Comentários críticos sobre Koreaboos definitivamente aparecem em todos os lugares, inclusive em coreano, sugerindo que há mais do que um punhado deles por aí. E amar tanto uma certa cultura a ponto de querer fazer parte daquele país não é uma coisa nova. A França há muito tempo é um desses lugares, atraindo legiões de admiradores que se mudam para lá (pense no seriado da Netflix, Emily em Paris como a mais recente expressão dessa francofilia).

O Japão também é conhecido por ter esse efeito em alguns não-japoneses, como uma amiga professora de estudos japoneses gostava de me dizer anos atrás (“Eu vi outro cara branco andando pelo centro de Kyoto em yukata – vestimenta japonesa de verão –  com um leque dobrável“, ela disse com um revirar de olhos).

Na verdade, o termo “Weeaboo” antecede o Koreaboo, denotando uma “pessoa que mantém uma obsessão doentia pelo Japão e a cultura japonesa, normalmente ignorando ou mesmo evitando sua própria identidade racial e cultural“. Vinte anos atrás, o Japão era inquestionavelmente o país asiático em voga, antes que a Coreia assumisse essa posição. Como um coreano estudando a Coreia, eu senti uma pontada de inveja (os especialistas da Coreia tinham dificuldade em encontrar empregos acadêmicos naquela época, enquanto os estudos japoneses estavam crescendo).

Agora é a vez dos coreanos brilharem, e com essa glória vem o Koreaboos como efeito colateral.

Uma definição popular de Koreaboo lista as seguintes características, que são reconhecidamente um tanto perturbadoras: eles tentam parecer e agir como um coreano, são excessivamente obcecados por K-pop e K-drama, usam pauzinhos em tudo, querem um namorado ou namorada coreana e misturam as suas línguas nativas com palavras e frases coreanas.

Eu ainda não conheci alguém assim (diz o autor, mas com certeza vcs leitores, já conheceram) , mas algumas dessas características estão aí  para serem notadas. Em vídeos do YouTube de não-coreanos com parceiros coreanos, comentários como “Preciso de um namorado coreano. Por favor, me ajude“. e “Tem algum menino coreano solteiro por aqui [?], quero um marido coreano” são comuns. E alguns grandes canais são construídos em torno do conceito de exibir namorados coreanos, claramente cientes de que estão atraindo admiração por ter homens coreanos em suas vidas.

Uma mulher chega ao ponto de dar abraços em homens coreanos aleatórios que ela encontra nas ruas. Uma música “subliminar” afirma que fará seus desejos pela Coreia se tornarem realidade, com um ouvinte testemunhando: “Eu ouvi essa música por umas 2 semanas. Eu sonhei que estava em um aeroporto. Eu estava viajando para a Coreia do Sul. Era tão lindo.

E ainda há as chamadas “compilações cringe de Koreaboos” – montagens de vídeo que pretendem mostrar Koreaboos em sua forma mais vergonhosa. A maioria apresenta clipes de jovens mulheres não coreanas fingindo estarem em ligações, falando a língua coreana de nível iniciante, em vozes femininas e estridentes, ou dançando e cantando música K-pop. Embora a intenção dos criadores originais dos vídeos possa ter sido expressar sua afeição por este país (ou um grupo de K-pop) ou gerar visualizações sendo bem-humorado ou exibindo habilidades, tal conteúdo é reformulado pelos críticos do Koreaboo como algo para desaprovar e desprezar.

Em muitos casos, vejo mulheres que parecem jovens demais para ter consciência de como as suas ações podem ser julgadas, e as críticas vão longe demais. Problemático, porém, é um certo tipo de observação de tempos em tempos, como por exemplo: “Eu simplesmente amo homens coreanos, e como eu pareço muito diferente para eles e sou branca e me encaixo em seus padrões de beleza, então eles vão me adorar, eles vão me amar, eu vou ser como uma deusa [na Coreia].

Em tudo isso, há ecos de uma condição da cena do namoro inter-racial, apelidada criticamente de “febre amarela” pela comunidade asiático-americana. Diz respeito a pessoas brancas que buscam validação por estarem em um relacionamento com um asiático, porque não encontram apoio em sua própria comunidade ou na circunstância existente. Eles também não vêem um asiático como um indivíduo e falam de “homens coreanos” ou “mulheres chinesas” como uma entidade coletiva sem a necessidade de distinguir um dos outros.

Para ser justo, essa tendência não atinge apenas os brancos. A popularização da cultura coreana em todo o mundo teve um efeito curioso sobre como os homens coreanos são percebidos. Onze anos atrás eu me mudei para Bangladesh para trabalhar como professor e, sem que eu soubesse, meus alunos em potencial estavam pesquisando meu nome porque eu seria o primeiro homem coreano de verdade com quem eles entrariam em contato.

Quando um deles me contou isso mais tarde, eu perguntei: “Por quê? Ser coreano não é nada de especial.”

Ela respondeu: “Sabe, é que eles assistem dramas coreanos. Eles têm uma fantasia sobre os homens coreanos.”

Mais do que qualquer outra coisa, deve ser essa fantasia que define um Koreaboo. Não há nada de errado em consumir K-pop e K-dramas, ou se divertir um pouco enquanto aprende um idioma. Mas uma fantasia sobre a Coreia reduz o país que eles afirmam amar a um conjunto de estereótipos, e é fascinante ver alguns koreaboos fazendo ‘coreanisses’ com base no que eles acreditam ser uma maneira ‘autêntica’ dos coreanos agirem: colocando maquiagem no estilo ‘coreano’ para se parecerem com os coreanos, falando coreano como eles acreditam que os coreanos falam (mesmo que soe mais como um diálogo dramático exagerado), e ultimamente, recebendo cirurgia plástica para ‘parecer coreano’.

Há oito anos, um brasileiro ganhou as manchetes por ter feito várias cirurgias plásticas para se parecer mais com uma estrela pop coreana. Mas o Koreaboo mais proeminente hoje é, sem dúvida, um influenciador britânico branco chamado Oli London, que quer tanto se tornar coreano que diz estar disposto a se submeter a uma cirurgia de redução de pênis (London se identifica como não-binário, além de coreano). “Estou em transição e agora me assumi oficialmente coreano“, proclamou em uma entrevista em julho passado para uma emissora britânica. (Oli London se diz muito parecido com o integrante do BTS, Jimin. E até realizou uma cerimônia de casamento com o idol, representado em um boneco de papelão com sua imagem).

O que são Koreaboos?
O influencer britânico, Oli London, chama a si próprio de “beleza coreana natural”, em uma postagem no Instagram. Foto: Korea Exposé

Apesar da óbvia necessidade de atenção, eles levantam uma questão interessante sobre identidade, que é performativa em sua essência. Quando o gênero é uma construção social, quem pode dizer que a etnicidade não é também até certo ponto? Afinal, o que é uma pessoa coreana autêntica quando rejeitamos a ideia de sangue coreano “puro”, que há muito governa como a identidade coreana é definida? E os coreanos naturalizados nascidos de outras etnias não são coreanos de verdade?

London, que tem vários vídeos de música em seu canal no YouTube, é pelo menos parcialmente autoconsciente, intitulando um deles de Koreaboo, em uma clara rejeição de seus críticos (dos quais existem muitos só na seção de comentários). Mas é aí que a bola pára: sua outra obra-prima Heart of Korea é um pastiche de elementos de aparência asiática sem origem determinável contra as filmagens de Seul naquela tradição firmemente orientalista de produção cultural ocidental.

Isso também acentua o porque os Koreaboos podem receber tanto ódio – por se apropriarem de uma cultura da qual eles têm pouco entendimento.

Obs. A capa retrata uma cena do videoclipe de Oli London Heart of Korea.

O que são Koreaboos?

Se-Woong Koo obteve seu Ph.D. da Stanford University e lecionou estudos coreanos na Stanford, Yale e na Ewha Women’s University. Ele é editor chefe da Revista Korea Exposé, de onde este artigo foi traduzido e escreve para o The New York Times, Foreign Policy e Al Jazeera.

Disclaimer

As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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