Durante o tempo em que passei na Coreia pude observar que o forte aspecto cultural de respeito para com o outro, em especial superiores e pessoas mais velhas, está presente em praticamente todas as relações diárias. É uma característica impossível de se separar da sociedade coreana e algo que todo imigrante deve aprender a lidar e se adaptar. Ao longo do tempo, qualquer indivíduo começa a notar os padrões de comportamento enraizados nos relacionamentos cotidianos.

No caso de estudantes universitários, por exemplo, é preciso lidar com isso desde o momento em que se acorda em um quarto de dormitório ao dar bom dia. E isso se aplica em toda situação envolvendo uma pessoa mais experiente. Mesmo nas relações entre indivíduos considerados amigos, a referência sobre a idade ou experiência está sempre presente. Um exemplo é quando se vai a um restaurante com amigos e a etiqueta coreana dita que se deve esperar o mais velho, ou sênior, começar a comer antes ou que se deve servir um copo de soju a tal pessoa, com a mão esquerda apoiando a mão direita ao servir o copo.

A própria língua coreana já introduz tal hierarquia desde o princípio por meio de sufixos e modos de tratamento específicos para tratar pessoas de hierarquia maior, acompanhada com um dado comportamento ao falar com tais pessoas. É muito comum ver, especialmente em ambiente universitário, um jovem interromper o que estava fazendo para dizer “oi” e fazer uma reverência simples a algum sunbae que passou próximo a ele. É até comum se ver, em uma sexta-feira após o horário de trabalho, um grupo de colegas de terno bebendo juntos e notar exatamente quais no grupo são sunbaes, simplesmente pelo modo como são tratados à mesa ou quando todos se despedem fazendo uma reverência curta e segurando as mãos dos sunbaes de forma semelhante ao gesto de se servir uma bebida.

A etiqueta para com os mais experientes é algo que qualquer um que vai para a Coréia do Sul deve prever. É algo que além de cultural, é muito baseado na história coreana. E por mais que em comparação com a cultura brasileira seja algo bem diferente, e que muitos considerem como um comportamento rígido, tem seu valor para a sociedade coreana e não necessariamente diminui o quão forte são as relações entre as pessoas.

Além da minha experiência pessoal, reroduzo abaixo uma reportagem do jornal Korea Herald, sobre os assunto, que conta com outras opiniões de estrangeiros:

“Um grande número de estrangeiros na Coreia, incluindo celebridades como o comediante australiano, Sam Hammington, o jogador de beisebol americano, Mike Loree, e o modelo e ator francês, Fabien Yoon, confessaram que o aspecto mais peculiar da Coreia é a cultura da relação sênior-júnior.

Em uma tradução palavra-por-palavra, os termos “sênior” e “júnior” podem ser colocados como “sunbae” e “hoobae”, mas a versão coreana possui uma conotação única ao criar uma hierarquia bem restrita.

Sob o sistema sunbae-hoobae, a classificação de pessoas é decidida de acordo com a ordem de ingresso de uma pessoa na organização correspondente.  A hierarquia, deste modo estabelecida, é irreversível, como expressado em um ditado comum “uma vez sunbae, sempre sunbae”.

Não temos essa noção de hierarquia na Austrália”, disse Hammington, diversas vezes em entrevistas, quando pedido para descrever tal característica da cultura coreana.

As pessoas podem expressar respeito àqueles que possuem experiência em um setor específico, mas isso deveria ser por pura cortesia e não obediência”.

Mike Loree, o arremessador para o time de beisebol KT Witz, também admitiu que não foi fácil se acostumar com o conceito de sunbae quando ele se juntou ao time.

Taiwan também tem essa cultura asiática de sênior-júnior, mas a hierarquia não é tão forte quanto na Coreia”, disse Mike, que atuou anteriormente em Taiwan na Liga Profissional de Beisebol. “Mas agora compreendo que essa é uma maneira única dos coreanos de respeitarem e se importarem uns com os outros”.

Talvez ele seja sortudo, ao ver o lado positivo do jeito coreano.  A regra autoritária do sênior sobre o júnior é frequentemente apontada como um obstáculo à comunicação livre e criatividade.

A ordem hierárquica baseada na superioridade é considerada importante para estabelecer disciplina, especialmente em setores guiados pelo objetivo, como o esportivo”, disse Kwon Soon-yong, professor de sociologia do esporte na Universidade Nacional de Seul. “Porém, o excessivo abuso de autoridade, baseado na superioridade, é uma forma distorcida de liderança“, explicou.

Uma pesquisa demonstrou que a cultura autoritária do “sunbae” pode também bloquear a comunicação e deter a organização de um potencial crescimento.

De acordo com a pesquisa conduzida no ano passado pela Câmara de Comércio e Indústria Coreana, 61,8 % dos 100 entrevistados disse que o rígido sistema de comunicação baseado na superioridade era a principal razão para que sua cultura empresarial tenha ficado atrás de líderes mundiais como Google ou Facebook.

Além disso, 87,5 % disse que a cultura conservadora e autoritária deveria ser mudada a fim de que a empresa obtivesse um crescimento sustentável.

 


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



3 COMENTÁRIOS

  1. Como assisto alguns programas e dramas coreano é explícito a tamanha importância desse apecto cultural na sociedade como um todo. Acredito que até certo ponto seja saudável mas nada é perfeito não é mesmo? Assim como pode ser usado para cultivar boas relações pode também servir como um meio de intimidação e abuso.
    Parabéns pelo post.

  2. Isso não é muito verdade quando se trata de sexo. O que vejo, ainda, são homens coreanos mais jovens não tratando e colocando a mulher mais velha como preferência ou prioridade, em se tratando de hierarquia. Ou seja, diz-se que existe essa cultura, mas ela deixa a desejar quando é uma mulher mais velha que um cara. Dá uma pesquisada sobre isso e verá. Depois posta aqui ou edita o seu artigo com novidades.

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