O Gwanghwamun Square em Seul transformou-se em um mar roxo, com milhares de mulheres reunidas para celebrar o Dia Internacional da Mulher. Todo dia 8 de março, celebrações e protestos acontecem em todo o mundo com o objetivo de tornar o mundo um lugar melhor para as mulheres.

A Coreia do Sul celebra o Dia Internacional da Mulher desde a década de 1920, mas foi somente em 1985 que o país começou a realizar eventos para apoiar os direitos das mulheres oficialmente .

5 mil participantes na Celebração do Dia Internacional da Mulher no Gwanghwamun Square. Foto: The Korea Herald

“Hoje é o maior dia do país para as ativistas na Coreia que estão lutando pela igualdade de gênero e pelos direitos das mulheres”, disse Baek Mi-sun, representante permanente da Associação Coreana das Mulheres Unidas (KWAU), organizadora do evento.

 

Integrantes de grupos feministas com placas e faixas, escrito: “Bruxas nunca morrem”. Foto: Korea Herald

“Através dos recentes movimentos feministas, a sociedade coreana está lentamente se transformando em um lugar onde as mulheres podem se expressar e se definir como feministas. À medida que suas vozes explodem, as questões de desigualdade de gênero que prevalecem em nossa sociedade vêm à tona em termos de violência, trabalho e política. Hoje, pretendemos resolver os problemas não resolvidos que precisam mudar e mostrar nossa solidariedade, levantando tais problemas juntos”.

A maior celebração da feminilidade da Coreia

A Associação Feminina da Coreia organiza eventos anuais para marcar o Dia Internacional da Mulher em cidades de todo o país. Neste ano em Seul, mais de 5.000 pessoas participaram, incluindo as multidões marchando, de acordo com a associação.

Promotora Seo Ji-hyun, iniciadora do movimento #Metoo na Coreia ao apresentar alegações de má conduta sexual contra um funcionário sênior do Ministério da Justiça, recebe um prêmio “movimento feminista do ano” na cerimônia. Foto: Korea Herald

Foi um aumento significativo em relação a 2018, quando cerca de 3.000 pessoas de todo o país reuniram-se em Seul para a celebração.

“Esperávamos cerca de 2.000 este ano, mas o número real foi muito mais do que isso, já que muitos pedestres e estudantes de grupos feministas das faculdades se juntaram”, disse Lee Jae-jeong, coordenador do evento do grupo de mulheres.

Foto: Korea Herald

“Sentimos que o Dia da Mulher também se tornou um grande evento entre os cidadãos, quebrando a opinião de que tais eventos são realizados apenas por causa das mulheres”.

Vestindo roxo, a cor que simboliza o dia, os participantes pareciam estar gostando do clima festivo. As bandeiras de grupos feministas estavam em plena exibição e músicas alegres tornavam a praça ainda mais animada.

800 camisetas foram rapidamente vendidas no local do evento. Foto: Korea Herald

O tema central do evento deste ano foi “Eu também – estamos mudando o mundo”, em comemoração ao movimento #MeToo, o qual varreu o país e revelou a enorme extensão da violência sexual e exploração sexual nos locais de trabalho, escolas e muitos outros eventos que afetam a vida cotidiana das mulheres.

O grupo de jovens foi apoiar o movimento de igualdade de gênero no Gwanghwamun Square. Foto: Korea Herald

Paralelamente, cerca de 30 grupos ativistas montaram barracas para promover a consciência da necessidade de expandir a presença feminina na política, acabar com o abuso sexual nos esportes, abraçar o feminismo vegano, impedir jovens de serem exploradas através do comércio sexual, acabar com o assédio sexual no ciberespaço e alcançar a justiça para os idosas sobreviventes da escravidão sexual durante a guerra.

“Me senti um pouco solitária quando aumentei minha voz on-line, mas me senti feliz e encorajada após conhecer muitas pessoas apoiando minhas ideias hoje por meio do evento”, disse Woo-ri, uma ativista que trabalha contra o sexismo na cultura coreana do namoro.

Visitantes escrevem mensagens e fazem cartazes para apoiar o movimento feminista na Coreia. Fotos: Korea Herald

Vivendo como feminista na Coreia

Embora a praça fosse aberta a todos, a maioria dos participantes parecia ser mulher na casa dos 20 e 30 anos. De acordo com uma pesquisa recente conduzida pelo Instituto Coreano de Desenvolvimento da Mulher em julho de 2018, cerca de metade das 1.004 entrevistadas disseram se considerar feministas.

Ativistas de aproximadamente 30 grupos participaram da celebração, promovendo sua agenda e projetos aos cidadãos. Fotos: Korea Herald

Além disso, 81,5% disseram estar interessadas em questões de desigualdade de gênero na sociedade coreana, e 88,5% apoiaram o movimento #MeToo.

Muitas na marcha sentiam que a atitude da sociedade em relação ao feminismo estava mudando lentamente, à medida que os movimentos estão ocorrendo em todo o país para promover a igualdade de gênero e combater a violência sexual.

Kim Ik-joon (direita) se interessou pelo feminismo após perceber que ele e suas amigas viveram vidas muito diferentes na Coreia, apesar de morarem no mesmo país. Kim e Kwon Bo-hyeon (esquerda) querem que a sociedade respeite a todos como eles são. Foto: Korea Herald

“Quando entrei na universidade há dois anos, muitos dos meus amigos me perguntavam: ‘Por que você é tão sensível a tudo?’ Mas agora, mais e mais pessoas estão dizendo: “O que você disse está certo” e apoiam minhas ideias”, disse Ji-hyung, uma estudante universitária do evento.

“Há três ou quatro anos, quando comecei a estudar feminismo, muitas pessoas nem reconheceram a importância dessa área de estudo. No entanto, ao longo do tempo, muitos amigos estão escutando atentamente as minhas opiniões e enviam apoio quando falo sobre as dificuldades de viver como mulher na Coreia”, disse Pyo Jeong, outra participante nos seus 20 anos.

A feminista Pyo Jeong sentia medo de dizer às pessoas que era feminista, já que o estigma social em torno do feminismo na Coreia é frequentemente visto como algo negativo. Pyo ainda se preocupa com esse ponto de vista quando usa crachás #MeToo do lado de fora, mas deseja que seus pequenos atos encorajem mais pessoas a se definirem como feministas. Foto: Korea Herald

Como Ji-hyung e Pyo, muitas pessoas no evento disseram estar esperançosas sobre as perspectivas de mudanças sociais, pois mais pessoas se sensibilizam com as questões levantadas pelas feministas.

“Eu acho que o recente movimento #MeToo trouxe muitas mudanças em nossa sociedade – além de que mais vítimas agora podem lidar com seus pesadelos ao invés de esconder, mais pessoas agora estão censurando suas palavras e comportamento em relação ao assédio de outros”, disse a ativista Do.

A colunista e ativista Do Woo-ri às vezes ouve que ninguém quer namorá-la caso continue lutando contra a cultura de namoro estereotipada e participando do movimento feminista. No entanto, ela ainda se apresenta como feminista e atua em suas crenças. Foto: Korea Herald

Apesar das mudanças, alguns participantes sentem que o movimento feminista na Coreia está apenas começando e ainda há um longo caminho a percorrer para alcançar a igualdade de gênero.

“O movimento criou uma atmosfera onde as pessoas podem levantar questões sobre fatos injustos que nem eram considerados problemas no passado. No entanto, quando penso: ‘A Coreia é um lugar seguro e igual para as mulheres viverem agora?’ minha resposta ainda é não”, disse Kim Ik-joon, um feminista masculino na casa dos 20 anos.

Os participantes também disseram que a dura reação dos haters ao movimento feminista é um fator que dificulta o progresso do feminismo na Coreia. “A nova atmosfera permitiu as feministas a apresentação de alegações de forma mais aberta e confiante em comparação ao passado”. Mais clubes feministas estão sendo criados em faculdades, e o número de apoiadores aumentou significativamente nos dias de hoje.

Kim Ye-eun (à esquerda), estudante universitária feminista, vivenciou uma série de ataques verbais de haters através de comunidades online quando foi candidata à vice-presidente de uma eleição do conselho estudantil em 2018. Viver como feminista na Coreia é duro, mas Kim deseja que sua presença se torne um medo para esses haters, mostrando que continuará lutando, não importa o que os outros digam. Foto: Korea Herald

“No entanto, à medida em que mais feministas levantam suas vozes e se unem, os haters tendem a expressar sua hostilidade contra o movimento diretamente e publicamente”, disse Lee Jae-jeong, participante do grupo organizador da marcha.

Lee, que atualmente está escrevendo um livro sobre feminismo nos campi, disse que muitas feministas estudantis sofrem de vários tipos de ameaças e ataques verbais de “haters”.  O ódio ao feminismo é especialmente proeminente no ciberespaço, disse Lee.

“Quando ativistas organizavam eventos em suas escolas para promover o feminismo, alguns até escreviam em comunidades on-line que as bateriam com seus sapatos até que as alunas ‘acordassem’. Os haters às vezes revelam as informações pessoais dos ativistas online. O mais importante é que esse conteúdo de ódio ainda recebe um tremendo apoio e ‘curtidas’ no ciberespaço”.

“As mulheres pedem uma coisa simples – o direito de viver como ser humano no mundo sem sofrer discriminação e temer ameaças. Isso é tudo. Não estamos tentando prejudicar os outros ou privá-los de seus direitos, mas é frustrante ver pessoas levarem a mensagem do movimento de forma distorcida”, disse Ahn Soo-hyeon, uma feminista de 30 e poucos anos.

Além da reação negativa, jovens feministas disseram que muitas vezes enfrentam dificuldades tentando convencer outras pessoas a considerar suas perspectivas.

Michelle (à direita) e Ji-hyoung desejam que a Coreia possa celebrar o Dia Internacional da Mulher em maior escala no futuro, como a Espanha e outros países. Foto: Korea Herald

“Conheci muitas pessoas, especialmente pessoas idosas, dizendo: ‘Você ainda não entende os caminhos do mundo’ ou ‘Você só viu o mundo pelo Twitter. Sempre que os ouço dizendo ‘é assim que é, então você deve aceitar’, eu me sinto ressentida ”, disse Michelle, uma feminista de 20 e poucos anos.

“Desde que comecei a me chamar de feminista, muitos de meus amigos choramingaram, dizendo que também experimentam a desigualdade de gênero, então eu deveria parar de reclamar”, disse Ji-hyung.

“Alguns dizem que homens e mulheres na Coreia devem estar juntos, pois ambos enfrentam dificuldades para morar aqui, mas acho que as dificuldades que homens e mulheres enfrentam são muito diferentes”, disse outro ativista Baek Jo-yeon no evento.

“Os homens muitas vezes reclamam e sentem-se discriminados porque trabalham mais do que as mulheres, pagam pelos encontros e coisas assim, mas as mulheres estão falando sobre as experiências com risco de vida às quais estão expostas diariamente. As pessoas devem ouvir o que as mulheres estão tentando dizer através do movimento, em vez de se concentrar apenas em como as feministas expressam a mensagem”, acrescentou Baek.

Durante a cerimônia, Lee Hyo-rin, do Centro de Resposta à Violência Sexual Cibernética da Coreia, fez um discurso inspirador, recebendo uma salva de palmas.

“Nós pensaremos mais, falaremos mais alto e agiremos sem medo para fazer com que o novo senso comum que imaginamos se torne natural em nossa sociedade. A Mudança já começou.”


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