Foto: Chicago Tribune

Quando criança, Kim Hye-joon desejava uma figura parental amorosa, algo que seu próprio pai falhou em ser. Este, patriarcal e inflexível, raramente tentava escutar o filho e aplicava punições mais do que se comunicava. Agora com uma filha na casa dos 20, Kim há anos lidera um movimento cívico que tenta mudar esta visão enraizada nos coreanos de que pais devem focar em seu papel de provedores e manter distância da criação dos filhos.

“Desde que me tornei pai, percebi que existe essa cultura em que você é considerado um bom pai se trouxer muito dinheiro para casa. Não foi fácil criar minha filha de acordo com o que eu acreditava ser o certo,” disse Kim em uma entrevista para a agência de notícias Yonhap. O movimento de Kim, “Pais Envolvidos na Coreia”, já realizou diversas campanhas de conscientização. Uma das atividades mais importantes, segundo ele, é conseguir que CEOs e outros líderes da sociedade comprometam-se a trabalhar para tornarem os sistemas corporativo e social em ambientes mais acolhedores para famílias.

Pais Envolvidos na Coreia durante campanha. Foto: arquivo pessoal de Kim Hye-joon
Pais Envolvidos na Coreia durante campanha. Foto: arquivo pessoal

“Mesmo que os pais queiram mudar, eles não conseguem se seus trabalhos não ajudarem nesta mudança. Quando a liderança muda seu pensamento e passa a apoiar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, isso se torna muito mais fácil,” ele disse.

Frente a uma queda considerável na taxa de natalidade, o governo vem tentando aliviar o peso que as mulheres carregam na criação nos filhos – uma das razões que as levam a abandonar o mercado de trabalho, ou desistir da maternidade – e ajudar os pais a serem mais presentes.

Como parte destes esforços, em primeiro de julho o governo introduziu um novo sistema que proíbe trabalhadores de empresas com mais de 300 funcionários, servidores públicos e agentes do governo a trabalharem mais que 52 horas por semana. Um empresário pode ser condenado a até dois anos de prisão ou a pagar uma multa de até 20 milhões de wons (mais de 68 mil reais) se não cumprir a medida.

“Como os pais coreanos estão no centro desta tendência da sociedade de diminuir horas e buscar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, nós precisamos ajudá-los a mudar sua percepção sobre a paternidade, e convencê-los a agir de forma diferente,” afirmou Kim.
Ele completou que esta mudança é necessária para que os pais possam viver suas vidas de forma plena e feliz em um mundo moderno, onde a abordagem sexista de criação dos filhos é cada vez mais vista como ultrapassada, e pais participativos são mais estimados.

Kim Hyejoon em palestra pelo movimento Pais Envolvidos na Coreia. Foto: arquivo pessoal
Kim Hye-joon em palestra pelo movimento Pais Envolvidos na Coreia. Foto: arquivo pessoal

Park Se-won, que é pai de duas jovens e trabalha em uma das maiores empresas de tecnologia da informação do país, concorda. “A geração do meu pai não costumava falar sobre o trabalho, considerava essa reticência uma virtude e acreditava que fazer tarefas domésticas não era masculino. Mas para mim, conectar-se com minha família é muito importante,” disse Park, de 44 anos. Ele completou que isto não é importante apenas para a felicidade da família, mas também para a dele próprio.

Sentindo que o país está deixando para trás a tradição de paternidade representada por “muitas responsabilidades e liderança autoritária”, ele disse que agora se espera de pais mais jovens mais atitude em relação ao cuidado com as crianças e o trabalho doméstico, e que se comuniquem melhor com suas famílias.

Para alguns homens, essa paternidade à distância de antigamente parecia inevitável, de certa forma. Durante os anos 70 e 80, era esperado destes pais que tomassem a frente da rápida industrialização e crescimento econômico da Coreia do Sul. Especialista em medicina tradicional coreana, o médico Cho Seong-jun sente-se solidário com seu pai, já idoso e aposentado. “Acho que ele não sabia como passar o tempo ou brincar com os filhos. Ele acreditava que focar no trabalho e sustentar a casa era a melhor forma de se tornar um bom pai.” 

Com dois meninos, Cho acredita que ser um bom pai é passar tempo com as crianças, fazer atividades físicas com eles e viajar com a família sempre que possível. “Sobre os pequenos, você tem que brincar com eles, fisicamente. Quando você faz isso, você entende melhor a personalidade deles, os sentimentos e o comportamento. Na verdade, fazer parte da criação infantil é bem mais divertida do que se imagina.”

O popular comediante Jeong Jong-chul, mais conhecido na Coreia por seu personagem na televisão “Okdongja”, termina seu dia na cama pensando no que preparar de café da manhã para seus três filhos em idade escolar e sua esposa.

O comediante Jeong Jong-chul em sua casa. Foto: arquivo pessoal
O comediante Jeong Jong-chul em sua casa. Foto: arquivo pessoal

Com o apelido de “Dona-de-casa Ok,” ele é uma estrela do Instagram com mais de 116 mil seguidores. A audiência não foi atraída por seu talento para fazer as pessoas rirem, mas com sua despretensiosa crônica do dia a dia e suas dicas de receitas e atividades domésticas. Ele admite que “costumava ser um típico homem coreano,” em suas palavras, pensava que trabalho doméstico era o domínio da mulher, até que mudou sua visão de forma traumática. Há alguns anos sua esposa, sofrendo de depressão, deixou-lhe uma nota onde dizia que ela não sentia mais alegria, nem via propósito em sua vida.

Depois da carta, ele parou de fazer programas de comédia na TV e passou a ficar em casa para ajudar sua esposa. “No começo, eu não sabia o que falar com ela, porque nós não tínhamos muito em comum. Eu tentei achar interesses afins e pensei em comida,” ele disse, durante entrevista. “Antes de dormir, nós conversávamos sobre o que cozinhar no dia seguinte. De manhã, nós preparávamos e fazíamos comida juntos, e aos poucos nos abrimos mais um com o outro. Quando a vi rindo, eu me senti tão feliz que passei a me dedicar mais em cozinhar para ela.”

Refeição preparada por Jeong Jong-chul para seu filho. Foto: arquivo pessoal
Refeição preparada por Jeong Jong-chul para seu filho. Foto: arquivo pessoal

Ele aconselha que outros homens não pensem na obrigação de dividir o trabalho doméstico. “Divisão de trabalho é o que você faz na sua empresa. Se você não faz uma tarefa em casa simplesmente porque não é o que você combinou que faria, pode causar uma tensão com sua parceira,” ele disse. “Apenas faça o que você puder para que sua amada possa descansar. É a maior recompensa que você pode ter.”

Seus filhos, que gostam de sua comida desde que eram bem pequenos, acordam ele, e não a mãe, para fazer o café da manhã. “Meus filhos perguntam por que outros pais não usam avental ou por que eles deitam no sofá e assistem à TV o dia inteiro. Eu fico feliz quando eles dizem que sou o exemplo deles.” Jeong concluiu, “eu não posso ser um pai perfeito, mas eu quero que eles saibam que tento fazer sempre o melhor e estar presente para o que eles precisarem.”

Jeong Jong-chul e sua filha registrando um jantar feito por ele. Foto: arquivo pessoal
Jeong Jong-chul e sua filha registrando um jantar feito por ele. Foto: arquivo pessoal

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