Mulher celebrando seu aniversário por vídeo chamada Reprodução: 123rf

Um streamer começa a fazer uma transmissão dele comendo — um tipo de entretenimento também conhecido pelos coreanos como mukbang.

Os fãs que assistem à transmissão, pegam seus próprios snacks (aperitivos) e drinks (bebidas), tiram uma foto e compartilham na página do streamer junto com histórias e comentários. O streamer então vai até às fotos e lê o que foi compartilhado, quase como se estivessem conversando em uma mesa. Ele ainda levanta seu copo e propõe um brinde com sua dezena de milhares de seguidores.

Pandemia Consolida Hábitos Solitários Dos Coreanos
Mukbang coreano do canal do youtube sio asmr

Apesar de estarem apenas conectados pela internet, de alguma forma eles se sentem unidos e íntimos.

Mais pessoas estão usando canais online para fazer compras e se divertir, e seus padrões de consumo e os locais onde se conectam está se tornando cada vez mais privado.

O número de pessoas morando sozinhas cresceu par 6,17 milhões na Coreia do Sul, de acordo com dados coletados pelo Statistics Korea. É esperado que esse número cresça 150 mil anualmente, nos próximos 5 anos.

De acordo com uma pesquisa feita pela KB Finalcial Group, entre 2 mil pessoas que moram sozinhas nas áreas metropolitanas do país, cerca de 60% delas disseram estar satisfeitas em viverem assim.

O documento ainda mostrava que pessoas que moram sozinhas preferem voltar para casa logo após o trabalho ou escola durante os finais de semana, desistindo de socializar — algo que havia se tornado uma marca cultural dos coreanos.

5 entre 10 entrevistados responderam que vão direto para casa, ao invés de encontrarem os amigos para um jantar ou para qualquer outra atividade social e de lazer.

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Passageiros mantendo distanciamento enquanto esperam para atravessar uma rua em gwanghwamun, em seul.
reprodução: yonnhap

No ano passado, mais de 70% da pessoas dessa mesma pesquisa disseram que antes gastavam mais tempo na rua, antes de chegarem em casa. Eles iam para eventos culturais, faziam compras na mercearia, iam à academia ou se encontravam com os amigos.

O número médio de dias que as pessoas passaram fora de casa durante a semana, neste ano, diminuiu de 1,92 para 1,76, principalmente em razão da pandemia de COVID-19, de acordo com a pesquisa.

No passado, os coreanos evitavam comer sozinhos, mas em 2020, as pessoas que moram sozinhas comeram, em média, 10 vezes por semana sem companhia de ninguém. Em 2019, o comum eram 9 vezes por semana, de acordo com a KB Financial Group.

E se eles gastavam seu tempo e dinheiro saindo, era em lugares próximos às suas casas.

Estar Sozinho

O número de pessoas utilizando serviços online para atividades físicas cresceu muito. De acordo com um relatório publicado pela plataforma Kakao, a utilização desses serviços por meio de aparelhos alto-falantes de inteligência artificial (tipo Alexa) cresceu em torno de 50% de janeiro a abril — antes da propagação do coronavírus.

Os usuários que utilizam serviços por demanda também cresceram. O Rewhite é uma operadora de aplicativos de lavanderia por demanda, pelo qual as pessoas podem consultar aquelas que ficam mais próximas de onde moram. Esta Startup, que já possuí 50 mil usuários e têm 450 parceiros, espera atingir a marca de 1500 no próximo ano.

O número de pessoas indo assistir filmes sozinhas também cresceu na última década.

Apenas 7,7% dos cinéfilos foram sozinhos ao cinema em 2012, mas aumentou para 9,2% em 2014, 13,3% em 2016 e 17,1% em 2019, de acordo com uma pesquisa feita pela CJ CGV, a maior rede de cinemas do país.

Durante os três primeiros meses de 2020, a proporção de pessoas indo assistir filmes sozinhos foi de 26,04%, disse a CGV.

A rede local de cinemas introduziu novos serviços para atender esse aumento.

A Megabox COEX, por um momento, lançou no início do ano assentos únicos para visitantes que gostariam de assistir filmes sozinhos. Outro operador de salas de cinema, o Cine Q, abriu em junho em Sindorim, com 30 assentos que possuíam espaços entre si.

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Distanciamento social sendo aplicado nos cinemas de yongsan-gu, em seul. Reprodução: yonhap

A região em que as pessoas mais foram sozinhas ao cinema foi em Gangnam-gu, com 2,7 milhões de visitantes, seguido por Yongsan-gu com 800 mil visitantes, de acordo como os dados coletados pelo Governo Metropolitano de Seul.

Até mesmo aspectos da tradicional cultura coreana, como o Kimjang, que era um momento de união, vem mudando ao longo do tempo.

Durante o outono, muitas famílias costumavam ficar juntas para o Kimjang, um processo no qual todos se reunem para fazer grandes quantidades de kimchi. Entretanto, o costume de fazer isso em conjunto vem entrando em declínio.

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Pessoas reunidas na tradição kimjang, para a produção em conjunto de kimchi. Reprodução: soomyland

De acordo com uma pesquisa local com 2.845 famílias, cerca de 56,2% delas responderam que não fariam kimchi por conta própria, sendo 1,3% maior que no ano passado.

Já entre os que responderam que iriam comprar kimchi pronto neste ano, alcançaram 62.6%, cerca de 4.6% a mais que no ano passado.

Comunidades locais que costumam realizar reuniões para o Kimjang, cancelaram seus eventos neste ano. Algumas empresas também começaram a vender produtos de kimchi individuais para pessoas que moram sozinhas ou tem famílias pequenas.

Por exemplo, a cadeia de lojas de conveniência da GS Retail, a GS25, apresentou este mês kits de kimchi DIY (do it yourself/faça você mesmo) com tamanhos tanto para quem mora sozinho quanto para residências pequenas.

Juntos, mas em particular

Entre daqueles que ainda desejam se conectar com seus colegas, muitos vem optando por fazer isso de forma mais particular, se não, on-line.

Kim Jae-hyun, fundador e CEO do amplamente conhecido Danggeun Market, acredita que as pessoas vão continuar a se encontrar e a se reunir fisicamente, apesar da tecnologia ou da pandemia.

O Danggeun Market também atua em um aplicativo de compras, o qual foi projetado para permitir que seus usuários comprem de vendedores nas proximidades. O aplicativo também permite encontrar pequenos grupos para realizar atividades nas redondezas.

Ainda que as barreiras de tempo e espaço tenham sido ultrapassadas, graças aos avanços da tecnologia, isso não necessariamente significa que a distância entre as pessoas se tornou restrita. É por isso que eu acredito que as pessoas vão continuar consumindo serviços diversos ou produtos com seus grupos sociais”, disse Kim para a The Korea Herald.

”As pessoas vão continuar procurando por relações com outras pessoas que moram na mesma região, enquanto aproveitam dos serviços locais e mercados nas proximidades”, disse.

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Distanciamento social sendo seguido em um estabelecimento de café em seul
reprodução: yonhap

O número de usuários do aplicativo da Danggeun Market aumentou exponencialmente, principalmente por permitir que os coonsumidores se sentissem mais seguros para comprar das comunidades as quais pertencem. O app tinha 12 milhões de usuários ativos mensalmene em Outubro.

”O Danggeun Market recebeu diversos feedbacks de usuários usuários que dizem ter se tornado mais atraídos pelos locais onde moram, graças ao aplicativo. Algumas pessoas usam o app para encontrar seus animais perdidos, encontrar seus amigos e compartilhar informações sobre restaurantes, hospitais e outros estabelecimenos. Em particular, áreas com muitas casas de pessoas morando sozinhas têm mostrado um número muiot bom de ngajamento e comunicação dentro da plataforma”, disse Kim.

Enquanto isso, muitos restaurantes e bares que geralmente eram locais agitados, estão sofrendo com quedas na demanda. Por outro lado, pequenos bistros e galerias que permitem jantares ou vistas privadas estão surgindo para atender essa demanda que deseja gastar seu tempo sozinhos.

De acordo com uma pesquisa da HS Ad, a demanda por “speakeasy bars” (bares mais reservados) vem crescendo na Coreia nos últimos meses.

Esses estabelecimentos eram, inicialmente, locais ilegais que serviam álcool durante a Era de Proibições (1920 – 1933) nos Estados Unidos.

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Eulji brewing é um dos bares escondidos que é possível encontrar na coreia do sul.
reprodução: will arndt/the daily beast

Além de não serem mais ilegais no século 21 na Coreia, esses novos restaurantes de agora também confiam numa divulgação boca-a-boca ao invés de promoção maciça, além de operarem com reservas.

Jean Fri Go, em Dongdaemun, é um lugar desses. Por fora é disfarçado como um estabelecimento de horti-fruti, mas assim que se entra, é revelado um bar de vinho e whiskey, disse HS Ad.

Conceitos similares foram adotados por empresas de cozinha compartilhada, restaurantes de uma única mesa, galerias e vários restaurantes “omakase”. Originados de restaurantes de sushi no Japão, os omakases na Coréia têm os chefs que servem diretamente sushi, carne e até mesmo chá para grupos particulares de clientes em lugares mais privados.


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