Gaebyeoksa, uma das primeiras editoras coreanas a publicar vários tipos de revistas que funcionaram como a principal agência na formação e desenvolvimento da Coreia colonial na década de 1920, comemora seu centenário neste ano.

Começando com a publicação da revista mensal “Gaebyeok“, seguida por “Byeolgeongon“, “Children“, “Shinsonyeon” e “Student” – Gaebyeoksa liderou o crescimento do jornalismo, criando um renascimento na literatura sul-coreana.

Uma das revistas mais polêmicas que cativou as leitoras foi a publicação de “Shinyeoseong” (신여성), que pode ser traduzida como “Mulher Moderna”. A primeira edição de “Shinyeoseong” data de 1º de setembro de 1923 e foi publicada mensalmente durante 10 anos.

Apesar de desempenhar um papel importante na condução de novos valores e atitudes, bem como na formação do discurso feminista nas décadas de 1920 e 30, nenhuma exposição foi organizada para celebrar a história desta revista.

O Korea JoongAng Daily aproveitou a oportunidade para exibir em texto como “Shinyeoseong” desempenhou um papel muito importante na criação e propagação de novos valores para as mulheres coreanas da época.

Para as editoras, a capa de uma revista é a cara da mídia correspondente que atrai os consumidores. Portanto, sua apresentação visual é considerada a mais importante e é o fruto da análise desse texto.

Para as capas de “Shinyeoseong”, diferentes rostos de mulheres que estavam entrando na nova época de 1920 foram apresentados, permitindo que as pessoas hoje testemunhem a imagem de mulher sonhada e exigida naqueles dias.

Aparência de mulheres modernas

Imagem: Capas da revista publicadas em 1920 (Blog Daum)

Em 1920, o governo imperial do Japão foi transformado no chamado governo cultural após o Movimento pela Independência de 1º de março de 1919. O governo cultural foi uma política de linha suave que o Japão adotou em seu país colonial – a Coreia – depois de perceber a necessidade de conciliar o povo de Joseon.

Isso envolveu a autorização no estabelecimento de editoras coreanas, bem como a realização de assembleias. Embora muitos coreanos hoje critiquem essa abordagem política como a “trama do Japão para eliminar lentamente a cultura coreana e impor a sua ao povo Joseon“, na verdade ela permitiu que os coreanos fossem relativamente mais livres para expressar sua vontade política e cultural.

No regime cultural, tornou-se possível a publicação de jornais e revistas, o que esclareceu o público ao enfatizar a necessidade de aquisição de novos conhecimentos e promover a educação.

Com ênfase na “nova cultura”, aumentou o interesse pelas mulheres como agentes principais. Por exemplo, a educação das mulheres tornou-se pauta nas discussões e as mulheres começaram a avançar na sociedade. Tal mão de obra disponível e a atmosfera transformada levaram ao nascimento da revista feminina moderna, “Shinyeoseong“.

Incluindo a suspensão da publicação por cerca de quatro anos (do final de 1926 a 1930), cerca de 40 edições de “Shinyeoseong” foram publicadas ao longo de 12 anos. Não há nenhuma informação exata sobre a circulação ou o canal de distribuição desta revista.

Mas velhos artigos de notícias e anúncios em outras revistas da editora, detalhando a venda de “Shinyeoseong” atestam a popularidade da revista. “Shinyeoseong” não era apenas distribuída em livrarias em todo o país, mas também era vendida por meio de filiais da Gaebyeoksa em várias cidades.

Uma edição possuía cerca de 100 páginas, apresentando uma ampla gama de artigos sobre mulheres, como contos, poemas, ensaios, bem como artigos sobre a cultura pop e as tendências mais novas.

Algumas seções também eram bastante políticas, apresentando teses que defendiam o esclarecimento das mulheres coreanas, com títulos como “O status de classe das mulheres”, “A origem das mulheres fracas e da classe trabalhadora” e assim por diante. Essa característica a diferenciava das outras revistas femininas.

Na verdade, “Shinyeoseong” era uma palavra recém-criada (shin significa novo e yeoseong significa mulher). Diferentes palavras/termos começaram a surgir referindo-se às mulheres modernas que na época eram categorizadas de acordo com nível de escolaridade, estado civil, idade e assim por diante e recebiam títulos como jubu (dona de casa), cheonyeo (solteira) e soneyo (menina). Em uma sociedade centrada no homem, tal mudança significou que uma nova visão de mundo estava sendo formada e que reconheceu mulheres e homens como “igualmente diferentes”.

As revistas femininas daquela época continuaram a criar novas representações das mulheres, constantemente nomeando e definindo-as.

Shinyeoseong” era uma importante revista feminina que exibia essas visões modernas do mundo. Ele moldou muitas das discussões sobre os assuntos relacionados às mulheres, dominou essa mudança e apresentou uma imagem de mulher ideal. Histórias e imagens que introduziram diferentes tipos e imagens, desde as “novas mulheres de Joseon”, que se referiam a jovens estudantes com uma aparência inteligente e elegante, à imagem de “garota moderna internacional”, que mostra belezas urbanas e estilosas cativaram os leitores de “Shinyeoseong“.

As novas mulheres de Joseon

Imagem: Capas de edições do final de 1920 e início de 1930 (Korea JoongAng Daily)

A imagem da mulher moderna que “Shinyeoseong” apresentou no início dos anos 1920 era uma jovem inteligente e sofisticada, vestida com uniforme de colégio. A aparência permaneceu semelhante a imagem típica de uma estudante feminina com cabelo bem cortado, vestindo um jeogori branco (parte superior do hanbok) e uma saia preta.

Mas, ao adicionar expressões faciais únicas, “Shinyeoseong” conseguiu criar uma nova imagem para a nova mulher.

Por exemplo, na capa da edição de setembro de 1924, há uma aluna com pele clara, sobrancelhas bem aparadas e lábios vermelho cereja, sugerindo que ela colocou cuidadosamente a maquiagem. Seus olhos são profundos e escuros e seu nariz bem levantado. A imagem está um pouco distanciada da imagem típica de uma mulher asiática.

Shinyeoseong” continuou a apresentar estudantes do sexo feminino com essa aparência e logo se tornou a imagem da mulher moderna da época. Todas elas exibiram expressões faciais semelhantes – suas cabeças ligeiramente inclinadas e seus olhares vagando para o espaço.

Os lábios estão firmemente fechados, fazendo-os parecer rígidos. Suas expressões muitas vezes parecem estar contemplando algo.

Por que eles fizeram tal expressão?

Imagem: Kmib

Kim Ki-jeon, que era um escritor editorial de “Shinyeoseong“, criticou na edição de agosto de 1924 que as mulheres daquela época apenas “desejavam os prazeres da burguesia” e argumentou que “elas deveriam se auto examinar e se atormentar“.

De acordo com Kim, a verdadeira mulher moderna deveria saber como “estabelecer um sistema de ideais e emoções de sua família por meio do sofrimento”. Em outras palavras, para os líderes de opinião da época, as mulheres modernas eram aquelas que se comportavam bem para colocar a família e a casa em ordem.

Como enfatizado no editorial, os rostos das mulheres modernas nas capas de “Shinyeoseong” parecem dignos e solenes.

O rosto de uma mulher moderna naquele período, com uma expressão solene de angústia e ostentando beleza com traços ocidentais, reflete a confusão da época, perdida entre a tradição e os valores modernos. Ela desconfia da cultura moderna, enfatizando valores internos como a angústia e introspecção, mas por fora mostra um rosto semelhante ao das mulheres ocidentais.

Na primeira edição de “Shinyeoseong”, havia um artigo que apontava como cada vez mais gisaeng (cortesãs) tentavam seguir o visual da aluna Joseon, alertando para a necessidade de encontrar uma forma de diferenciar os dois, como distribuir uniformes “reais” com crachás escolares para alunas “reais”.

Essa imagem de uma mulher moderna continuou a aparecer nas capas de “Shinyeoseong” no início dos anos 1920. Essas mulheres frequentemente apareciam com itens como livros, sombrinhas e instrumentos musicais na tentativa de criar uma imagem sofisticada e intelectual.

Durante os primeiros anos da revista, as pinceladas tradicionais eram usadas para representar o título “Shinyeoseong” em caracteres chineses. Os caracteres foram escritos em negrito, mas formando uma curva suave que transmite uma sensação de suavidade.

Conforme ilustrado, a suavidade, a delicadeza e a delicadeza do ponto de vista tradicional foram corporificadas não só pela imagem de uma mulher na capa, mas também pela tipografia. Essa imagem de capa contrasta com a revista “Shinsonyeon” (Homem Moderno), publicada durante o mesmo período.

A revista, que tinha como alvo os jovens na década de 1920, usava fontes ousadas, mas angulares, para transmitir a impressão de ser forte e áspero.

Menina moderna internacional

Imagem: Capas da revista Shinyeoseong (Korea JoongAng Daily)

A partir de meados da década de 1920, as mulheres na capa de “Shinyeoseong” começaram a mudar.

A imagem de menina moderna ao estilo Joseon logo foi substituída por uma nova imagem – a de uma mulher cuja nacionalidade não podia ser realmente distinguida. As ilustrações costumavam ser usadas para representar essas mulheres de uma forma mais simplificada.

As imagens eram mais vanguardistas, sem fixação em um único olhar. A partir da década de 1930, as imagens ilustrativas foram usadas com mais frequência. Mais atenção foi dada às características e expressões faciais.

Essas mulheres geralmente tinham sobrancelhas compridas e finas e um nariz pontudo e estreito, criando uma impressão bastante sensível. Os lábios não eram mais vermelho cereja, mas atenuados e o olhar era direto, fazendo contato visual com o leitor. Essa imagem contrastava fortemente com as mulheres da capa das edições anteriores, que davam uma impressão passiva, como se estivessem evitando algo olhando para o horizonte à distância.

Os pesquisadores afirmam que tal transformação também está relacionada à ampla gama de técnicas de pintura que o mundo da arte abraçou. A introdução de ilustrações ocidentais em meados da década de 1920 permitiu que os estilos de pintura coreanos se afastassem de sua técnica tradicional, onde a descrição realista era essencial.

Imagem: Pintura de Romain de Tirtoff, designer russo que ficou conhecido como Erté (Artnet)

No livro “As Faces de uma Era: Estudando a modernização com capas de revista” (traduzido), o autor Seo Yu-ri escreve que as imagens femininas na capa de “Shinyeoseong” se originaram do designer frances Erté. Esses trabalhos de estilo Erté usam abundantemente linhas bem finas e as mulheres são enfeitadas com acessórios. O estilo ganhou popularidade em meados da década de 1910 por meio da Harpers Bazaar, uma revista americana popular. A tendência então chegou no Japão, aparecendo na capa de sua revista feminina, “Josei”.

Pintores coreanos de meados ao final da década de 1920 se referiram ativamente a este novo estilo de arte e tentaram criar a “imagem coreana“. Como resultado, o chamado “look internacional de mulher moderna” foi introduzido.

Essas mulheres foram retratadas usando versões ocidentais ou modernizadas do hanbok, encantando os olhos dos leitores. Às vezes, a mulher usava vestidos ocidentais fortemente amarrados, fazendo-a parecer uma princesa do Ocidente (edição de outubro de 1932), enquanto outras pareciam uma deusa grega usando elegantes vestidos drapeados.

As senhoras ricas da cidade ostentavam seus próprios looks sofisticados e elegantes, exibindo itens da moda como um chapéu cloche em cima de um cabelo curto em camadas.

Por exemplo, a mulher na edição de abril de 1931 mostra um senso de estética envolvendo suavemente um lenço de cores vivas e padrões em volta do pescoço.

Outras edições desse período também apresentaram vários estilos diferentes, como uma vestindo maiô e outra vestindo roupas com estampas exclusivas, enquanto tinha o cabelo trançado na cabeça. Como tal, a moda ocidental tornou-se amplamente popular entre as mulheres coreanas.

As tendências modernas do Ocidente também influenciaram o estilo tipográfico da revista mais uma vez. Não havia mais caligrafia com pincel e, em vez disso, surgiu um novo estilo de tipografia gráfica. Além disso, os personagens de design japoneses conhecidos como “personagens de kinema“, projetados sob a influência da Art Nouveau e Art Déco, foram introduzidos na Coreia e foram aplicados ao design do título de “Shinyeoseong“.

Conforme ilustrado na capa da edição de março de 1926, o design do título é nítido e reto, como se tivesse sido desenhado com a ponta quadrada e dura de uma caneta de feltro. A espessura das pinceladas é diferente, que é outro aspecto contrastante com as fontes anteriores.

Devido a esse design, a imagem tradicional e suave desapareceu, criando um visual moderno e sofisticado.

Desde então, diversas tentativas foram feitas pela “Shinyeoseong” para alterar o desenho de sua tipografia, cada uma delas se harmonizando com os elementos da imagem na capa, contribuindo na formação da imagem da mulher moderna.

Como pode ser visto através das capas de “Shinyeoseong”, a imagem das mulheres modernas da Coreia se transformou de uma estudante séria no início dos anos 1920 para um visual mais ocidentalizado com um espírito mais livre. Essa transformação foi feita por meio da troca mútua de influências não apenas com vários fenômenos sociais e culturais da época, mas também com as leitoras da época.

Os pesquisadores insistem que a capa de “Shinyeoseong” funcionou como um meio para projetar os desejos modernos dos coreanos. Ao se identificar com a mulher da capa, as leitoras sonhavam com a era moderna.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

2 COMENTÁRIOS

    • Eu que agradeço o comentário! Realmente é bem interessante poder observar tanto as manifestações culturais quanto a influência que o “estilo ocidental” teve na Coreia do Sul. Como designer eu fico fascinada com essas publicações e como curiosa fico mais ainda hahahaha Sempre que tiver conteúdos assim eu trago aqui para o blog! ^^

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