Milhares de pessoas marcharam pelo centro de Seul no sábado, 11 de Junho, para defender a igualdade e respeito às minorias sexuais na maior parada LGBT da Coreia do Sul, apesar da constante oposição de protestos de grupos conservadores.

Cerca de 50.000 lésbias, gays, bissexuais, transgêneros e outros apoiadores da causa compareceram ao Seul Plaza para demonstrar seu orgulho e lutar contra a homofobia com o slogan “Queer I am”.

O slogan simboliza a determinação do comitê organizador em permanecer como são, apesar do ódio e discriminação contínuos contra as minorias sexuais na sociedade.

Eu tenho muito orgulho de ser gay, de ser eu mesmo”, Han Beom-Yong, 18 anos, disse ao The Korea Herald com alegria ao participar das festividades. “Eu estou muito feliz! Finalmente posso ser livre já que a maioria das pessoas aqui não liga para a minha sexualidade! Meu único desejo é que as pessoas respeitem as minorias sexuais e aceitem-nos como seres humanos sem preconceitos”, continuou o estudante, que adicionando que não pôde contar aos pais devido ao receio de que a revelação fosse prejudicar a relação com sua família. “Mas gostaria que minha mãe me aceitasse. Eu nasci assim e nunca me arrependi”.

Após o evento de abertura do “Queer Cultural Festival” desse ano, os participantes marcharam 2.9 quilômetros ao lado de caminhões decorados, dançando com a música que emanava dos caminhões e carregando bandeiras e leques com as cores do arco-íris. Alguns casais homoafetivos foram vistos demostrando afeto em público.

Em alguns momentos à tarde houve chuva, mas isso não impediu os participantes de aproveitar o festival e desfilar por Seul.

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Goo Soo-Hyun, uma estudante universitária de 21 anos, venho de Daejeon com outra amiga lésbica para participar da parada. “Eu sempre tive medo de ser discriminada por ser lésbica, mas aqui, no meio dessa multidão, eu posso ter orgulho de ser quem eu sou”.

O grande dia para a comunidade LGBT aconteceu quase três semanas após o Tribunal Distrital de Seul deliberar contra uma petição iniciada pelo cineasta gay Kim Jho Gwang-Soo e seu parceiro Kim Sung-Hwan que pedia por status legais de seu casamento homoafetivo. O casal se casou abertamente em 2013.

O tribunal declarou no parecer que outro procedimento legislativo é necessário. Isso porque o casamento legal deve ser considerado como uma união entre homem e mulher que possa gerar descendentes para sustentar a sociedade.

A estudante Soo-Hyun, que se assumiu há dois anos, criticou fortemente a recente decisão do tribunal contra casamentos homoafetivos. “A consciência sobre a comunidade LGBT está crescendo, mas o país ainda tem um longo caminho pela frente”, ela disse. “Eu espero que o país possa um dia aceitar uniões homoafetivas, já que minorias sexuais estão se declarando cada vez mais e pedem que suas uniões sejam legalmente reconhecidas.”

Os participantes depararam-se diversas vezes com protestantes de grupos conservadores que se encontravam ao longo das calçadas das maiores ruas da capital. Eles gritavam contra os participantes e carregavam placas como “Homossexualidade! Suas crianças estão em perigo” em coreano ou “Homossexualidade é pecado. Volte para Jesus” em inglês, mas os que aproveitavam o festival mantiveram seus sorrisos, torceram e bateram palmas em frente aos opositores.

Eu vim aqui apoiar a minha filha lésbica”, disse a mãe da cineasta Lee Young, que esperava na fila para se juntar a parada. “Sempre tive em mente que a homossexualidade era história de outras pessoas, não minha, então me senti desconfortável quando ela se revelou há 10 anos atrás. Mas nada muda o fato de que ela é minha filha, que nunca me desapontou de modo algum, e que nunca fez nada do que sentir culpa.”

O Queer Cultural Festival, com duração de nove dias, começou às 11 da manhã, com mais de 100 grupos de direitos humanos, entidades políticas, embaixadas de 14 países e companhias globais que montaram suas barracas para defender a igualdade de direitos para minorias sexuais, assim como vender itens de consumo.

Como um bissexual, viver nesse país às vezes parece perigoso. Eu ouvi relatos sobre ataques homofóbicos contra alguns de meus amigos no ano passado, então às vezes sinto-me constrangida em me assumir em alguns lugares”, disse Jacqueline Carrilho, uma professora americana de 30 anos de idade. “O festival foi realmente incrível e a energia ao redor era de muito amor e positividade. Mas os manifestantes nos deixaram desconfortáveis com seus olhares críticos”. Jacqueline lamentou que um manifestante anti-gay cuspiu no seu rosto por cima da grade em frente à Prefeitura da Cidade quando ela vendia bebidas nas barracas do LGBTQIA e Allies of Korea.

Do outro lado das festividades, centenas de manifestantes anti-LGBT, em sua maioria de direita e grupos religiosos protestantes, conduziram protestos contra o Queer Festival em três localidades ao redor do Seul Plaza. A maioria deles expuseram sua oposição à homossexualidade por meio de rezas em meio de lamentos e canções religiosas.

Enquanto pediam que os participantes se arrependessem, eles seguravam placas com os dizeres “Fora lei anti-discriminação, Fora Islã” ou “Homossexualidade não é nem genética, nem direitos humanos” em frente a uma barraca de coleta de assinaturas para uma petição para tornar ilegal a homossexualidade na Coreia. Alguns ainda condenaram o prefeito de Seul Park Won-Soon por permitir o comitê organizador do festival de realizar tal evento e o Secretário Geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon por defender as minorias sexuais.

Cerca de 40.000 policiais foram enviados para o Plaza e aos arredores da rota da parada com o intuito de separar defensores LGBT de seus opositores. Nenhum incidente maior foi reportado.

Eu acho que a homossexualidade vai contra a ordem criada por Deus, logo tem um impacto negativo sobre a sociedade. Pessoas LGBT não apenas não podem se reproduzir, como também causam uma carga tributária na sociedade”, disse Jang Dong-Nam, estudante de mestrado e membro da multidão opositora. “A comunidade LGBT não deveria ter permissão de fazer um festival desse tipo, nem fazer tanto barulho ou tumulto no centro de Seul”.

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Mas algumas igrejas protestantes se opuseram ao movimento antigay e mostram solidariedade à comunidade LGBT. “Eu estou aproveitando o festival com meus amigos gays. O festival é muito maior do que ano passado, com mais pessoas e performances”, disse Kim Jeong Woong-Ki, um freelancer de 40 anos de idade.

Como um protestante, Kim disse que se sentiu “envergonhado” pelos demais frequentadores de igrejas por se manifestarem contra as minorias sexuais, e os descreveu como pessoas cheias de ódio. “Eu acredito que Jesus nos ensinou a respeitar uns aos outros e coexistir juntos em uma sociedade, como um arco-íris”.

Um funcionário de escritório de 32 anos, que quis apenas ser identificado por seu sobrenome Jung, disse que ele foi ao evento por curiosidade e que ficou assustado com a cena incomum. “Mas conforme eu passei mais tempo aqui, olhando essas pessoas, eu pude me acostumar e começar a aproveitar isso tudo. Colocando de lado meus sentimentos pessoais, eu acho que as pessoas deveriam ter o direito de ser quem são de verdade”.

Quando o coro de uma igreja pró-LGBT anunciou a abertura do evento às 14 horas, os espectadores gritaram de alegria e balançaram leques coloridos de arco-íris no calor escaldante. A variedade de performances de bandas LGBT e grupos de dança vieram logo em seguida.

Kang Myeong-Jin, líder do comitê organizador, disse no discurso de abertura que realizar o evento no Seul Plaza carrega um significado muito grande para que a comunidade LGBT possa se comunicar livremente com os cidadãos coreanos e possa falar sobre diversidade.

A parada do ano passado, na qual o slogan era “Queer Revolution”, reuniu cerca de 30.000 cidadãos no coração de Seul, atingindo números recordes que foram facilmente superados esse ano. O evento anual aconteceu pela primeira vez em Seul em 2000, em Daehang-no.

O Queer Cultural Festival irá até o dia 19 de junho, juntamente com duas exibições que acontecem em Seul. Quase 60 filmes de 23 países serão apresentados no Korea Queer Film Festival de 16 a 19 de junho no Lotte Cinema em Sinsan-dong, no lado sul de Seul.


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