A quarta temporada de Stranger Things não se detém, quando o assunto é conteúdo. Apesar de ser ambientado em meados da década de 80 nos Estados Unidos, o drama retrata o uso de maconha, quetamina, relacionamentos lésbicos, distúrbios alimentares, alcoolismo e traumas mentais. É uma visão um tanto anacrônica do passado, pois filmes e dramas reais da década de 80 geralmente não abordavam tão abertamente essas questões. Mas, como tem sido observado desde Heráclito – tudo flui e nada permanece -, as coisas mudam.

Discussões sobre saúde mental na Coreia há muito tempo, são consideradas tabu. Admitir sofrer de qualquer forma de luta psicológica simplesmente não fazia parte da cultura coreana. Alguns, o consideravam apenas um problema a ser superado com esforço e perseverança.

Ou então, queriam que aqueles que sofressem, ignorassem seus problemas pessoais e, em vez disso, garantissem que a harmonia do grupo – sociedade – fosse mantida. Para uma parte diferente da sociedade, expressar sofrimento mental pessoal indicaria algo errado com a família em geral, em particular com os pais. De maneira mais ampla, acreditava-se que qualquer tentativa de procurar aconselhamento, terapia ou medicação resultava em uma mancha no registro pessoal público, portanto, dificultava a obtenção de um emprego ou seguros no futuro.

Essas atitudes, certas ou erradas, eram todas verdadeiras na época. Elas formaram a narrativa predominante na sociedade sul-coreana em relação à saúde mental. Várias estatísticas, pesquisas e inúmeras manchetes da mídia também apontam para essa realidade. Note, no entanto, que as informações acima, estão escritas em grande parte no passado.

Embora as atitudes descritas acima ainda sejam verdadeiras para grande parte da sociedade, para muitos jovens, as ideias de saúde mental estão sendo desconstruídas e reimaginadas. Eles estão abandonando as crenças tradicionais e buscando engajamento, confissão e comunicação. Eles são a 4ª temporada de uma narrativa coreana atual e contínua. São os “stranger things”.

Isso se tornou mais aparente recentemente ao observar quantos jovens adultos coreanos nas universidades começaram a falar aberta ou privadamente sobre seus problemas. Com palestras presenciais e consecutivamente a interação humana, nos últimos meses tenho testemunhado alunos falarem sobre seus distúrbios alimentares, TDAH, ansiedade, níveis de estresse, uso de drogas e conflitos com a sexualidade.

Além disso, essas conversas têm sido espontâneas. Sem dúvidas, não é meu desejo encorajar sessões de “confissão” porque não sou qualificado para saber a melhor forma de reagir, nem mesmo tenho certeza de quais coisas seriam aconselháveis. Mas, embora isso continue sendo uma simples evidência infundada, ainda assim, aponta para uma mudança, de modo geral, na cultura.

O Centro de Aconselhamento Cibernético Juvenil e seu serviço de suporte 1388, têm visto um aumento contínuo de pessoas entre 9 e 24 anos que procuram ajuda. De pouco mais de 600.000 sessões de aconselhamento em 2011, houveram cerca de 900.000 em 2019. Isso foi favorecido pelo desenvolvimento de sessões de aconselhamento remoto que ocupam agora mais de um quarto de todas as assistências registradas. Esses desenvolvimentos tecnológicos significam que as pessoas não precisam mais atravessar uma barreira física e entrar em um prédio ou consultório quando precisam de ajuda. Em vez disso, eles fazem isso de forma privada e anônima no conforto de suas casas.

Atualmente, as universidades também realizam consultas psicológicas e aconselhamento gratuito de saúde mental para seus alunos. Essas sessões estão em alta demanda e estão normalmente lotadas. Às 13h toda sexta-feira, os alunos competem para fazer ‘login’ para conseguir um agendamento e obter assistência profissional, muitas vezes descrevendo o processo como sendo como tentar obter ingressos para um ‘show’ de K-pop. Em 20 de maio, a Universidade de Hanyang ofereceu 170 diferentes sessões individuais de aconselhamento de 50 minutos, operando em 17 salas diferentes e funcionando das 10h às 21h. Todos os horários foram reservados.

Além do Centro de Aconselhamento Cibernético Juvenil e das universidades, há um notável crescimento de assistência em consultórios particulares. A famosa psiquiatra Young Oh Eun consolidou um lugar de destaque na consciência pública através de suas muitas aparições na mídia e abordagem à saúde mental, principalmente destacando as relações entre pais e filhos. Dramas, celebridades, livros e músicas também impulsionaram estas conversas de várias maneiras.

Além da terapia e aconselhamento, o uso de medicamentos também parece estar se tornando mais comum. Não apenas o uso em si, mas em como essas coisas são discutidas publicamente. Em uma palestra para a Royal Asiatic Society Korea, duas jovens coreanas compartilharam abertamente suas experiências sobre saúde mental, aconselhamento e suicídio.

Por mais de uma hora, elas descreveram para o público o que podiam perceber no mundo em mudança ao seu redor. Esses jovens adultos não estavam mais sendo instruídos a simplesmente lidar com seus próprios problemas e lutar em silêncio. Agora, existem inúmeros recursos medicinais que podem ser usados para tratamento. De Adderall, Ritalina e toda uma série fármacos para altos e baixos.

Alguns deles estão sendo usados ​​por pais em Daechi-dong e em outras partes do país para simplesmente fazer seus filhos superarem o tédio e pela luta da vida em hagwons e na época do suneung (o Enem coreano). Mas, seja qual for o motivo, a realidade é de uma abordagem mais favorável às pílulas do que o país já viu em sua história.

Embora a palestra na Royal Asiatic Society tenha fornecido informações importantes sobre a natureza real das tensões, pressões e medos sentidos pelos jovens adultos coreanos, também demonstrou que estes jovens estavam dispostos a ter essas conversas em público. Eles ficaram felizes em compartilhar a realidade vivida com seus colegas e em transmiti-la para aqueles que, seja por idade ou ‘status’ social, teriam pouca noção de como as conversas sobre saúde mental estão se transformando.

É claro que ainda há muitos problemas e obstáculos a serem superados. Suicídio, alienação e estresse entre os jovens do país são proeminentes em algumas das estatísticas mais angustiantes. Mas se você dedicar um tempo para falar com alguns jovens adultos coreanos sobre o assunto da saúde mental, encontrará uma geração de pessoas que, talvez pela primeira vez, estão mais abertas do que nunca.

Se todas essas mudanças são positivas ou negativas, ou se apontam para um mal-estar cultural mais amplo, é assunto para outro momento. Mas, por enquanto, a realidade está mudando aqui na Coreia. Os jovens adultos estão agora enfrentando o – mundo invertido – publicamente. E tudo parece estar se movendo em uma velocidade, que vai além do que observamos nos noticiários.

Stranger Things e a Saúde Mental Coreana
O Dr. David A. Tizzard, é colunista do Korea Times, tem um Ph.D. em Estudos Coreanos e dá palestras na Universidade Feminina de Seul e na Universidade Hanyang. Ele é um comentarista social/cultural e músico que vive na Coreia há quase duas décadas. Ele também é o apresentador do podcast Korea Deconstructed, que pode ser encontrado online. As opiniões expressas no artigo são do próprio autor e não refletem a direção editorial do The Korea Times ou do Koreapost.

O Dr. David A. Tizzard, é colunista do Korea Times, tem um Ph.D. em Estudos Coreanos e dá palestras na Universidade Feminina de Seul e na Universidade Hanyang. Ele é um comentarista social/cultural e músico que vive na Coreia há quase duas décadas. Ele também é o apresentador do podcast Korea Deconstructed, que pode ser encontrado online. As opiniões expressas no artigo são do próprio autor e não refletem a direção editorial do The Korea Times ou do Koreapost.

 

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