Como estudante universitária dos anos 90, Park Hyun-mi relembra a ansiosa espera por seu encontro aparecer em uma cafeteria da universidade de Seul, no distrito de Sinchon. Ela não tinha muita informação sobre o rapaz: seu nome, faculdade ou foto.

Após o estranhamento do primeiro encontro, eles iriam trocar seu número de pager (também conhecido como bip) ou telefone, ela lembra. Caso interessasse, ele iria ligar diretamente para a casa de Hyun-mi, com o risco de outro parente atender a ligação. Ele teria de perguntar, “Posso falar com a Hyun-mi?”

Não havia aparelhos de celular para se manter constantemente conectado ao seu amado, apenas os rudimentares pagers que apareciam os números de telefone.

(Imagem: youtube)
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Pessoas formavam longas filas em frente às cabine telefônicas, esperando discar e conferir as mensagens recebidas dos pagers, chamados de “bbi-bbi” na Coreia do Sul. (Quem passou por isso, ou quem assistiu o drama Reply 1994 vai se lembrar do aparelho e da correria para ouvir as mensagens).

Os encontros aconteciam principalmente no cinema. Casais poderiam fugir para as “salas de vídeo”, espaços privados para assistir vídeos cassete. Na conservadora Coreia do Sul, passar tempo em motéis ou fazer uma viagem noturna eram tabus sociais graves.

Homens eram os responsáveis por pagar a conta nos encontros, pois não era normal permitir que mulheres pagassem. Se você terminasse um relacionamento, era realmente o fim. Casais namoravam com a pretensão de casamento em algum ponto ou outro.

Hyun-mi hoje tem 39 anos, é mãe de dois filhos e está fora da cena amorosa. Muita coisa mudou desde o seu tempo. Agora em 2018, a Coreia pinta um novo quadro completamente diferente quando se trata de namoro, moldado às novas tecnologias e mudanças nas normas e atitudes socioculturais.

(Imagem: 123RF)
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Os Novos Rumos dos Namoros

Algumas partes típicas da cultura sul-coreana de namoro permaneceram iguais, como amigos arranjarem encontros às cegas (소개팅) “sogaeting” um para o outro, enquanto que outras mudaram drasticamente ou foram adicionadas.

Os maiores avanços chegaram com as novas tecnologias, sendo as mais notáveis, dos smartphones, que permitem que as pessoas façam ligações ou mandem mensagens instantâneas uma para outra o tempo todo. O conceito de “espera” foi superado pela expectativa de imediatismo.

A ascensão da internet e mídias sociais, como o Facebook, abriram uma nova era de hiperconectividade. Tornou-se habitual verificar o perfil do seu pretendente antes do primeiro encontro. Momentos do seu cotidiano podem ser documentados e compartilhados em tempo real no Instagram.

(Imagem: Freepik)
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Namorar acontece agora através de canais mais diversificados: por aplicativos de namoro no celular, usados para encontrar relacionamentos casuais e sérios ou grupos (online ou de aplicativos) chamados “dong-ho-hoe”, onde pessoas com interesses similares se conectam e mais tarde se conhecem offline, para perseguir seus interesses em conjunto.

“Relacionamentos amorosos modernos estão ligados agora ao mundo online. No passado, um término significava o fim de qualquer comunicação. Mas na era mobile, os relacionamentos continuam bem após o término e isso cria um novo tipo de etiqueta”, disse Lee Taek-gwang, crítica cultural, professora de comunicação global na Universidade Kyung Hee.

Embora a cultura de namoro tradicional sul-coreana continue conservadora, ela se tornou muito mais aberta em comparação ao passado. Através de esforços de rebranding (construção de nova identidade de marca e estratégias de marketing), os motéis são menos vistos como esconderijos para casais promíscuos, mas como espaços privados para casais jogarem, assistirem TV e passarem seu tempo juntos.

Além disso, fazer uma viagem com o namorado ou namorada é considerado parte natural do namoro agora, embora alguns ainda se sintam relutantes em compartilhar as notícias com os pais mais conservadores.

(Imagem: 123RF)
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“Para a maioria dos casais, fazer uma viagem é normal. Amigos não irão pensar que você é oferecida ou muito mente aberta só porque foi em uma viagem com o namorado”, disse Han Ji-hye, estudante universitária de 24 anos de Seul.

“Mas, muitos de nós ainda sente que nossos pais podem rejeitar a ideia caso saibam de uma viagem feita com o namorado ou namorada, então tendemos a esconder. É uma diferença geracional”, ela acrescenta.

Os aspectos econômicos do namoro se tornaram mais equilibrados. Pagar sua própria conta ou dividir os custos é mais comum hoje, com alguns casais escolhendo a criação de uma “conta de casal”, do qual ambos contribuem uma quantia equivalente de dinheiro para que possa ser gasta em seus encontros.

Tanto homens e mulheres têm um forte senso de independência, refletido em suas atitudes enquanto namoram. Mais casais apoiam a ideia de encontro casual e consideram o casamento apenas uma opção que pode, mas não necessariamente, acontecer no futuro.

“Para os jovens de hoje, casamento e formação de família não são considerados valores absolutos. Muitos percebem que será difícil manter seu estilo independente de vida atual com o casamento (principalmente por questões econômicas)”, disse o professor Lee.

“No passado, não se casar era algo anormal. Mas agora, a nova norma é ser capaz de escolher o mais importante em sua vida, podendo ou não incluir o casamento”, disse ele.

Tais atitudes provocam frequentes críticas da geração mais velha, dos quais muitos desaprovam os jovens, considerando-os “superficiais demais” ou “irresponsáveis” na forma como abordam os relacionamentos.

No entanto, esta não é uma questão a ser julgada como boa ou ruim, mas apenas como um resultado natural das mudanças que ocorreram na sociedade, de acordo com Jung Deok-hyun, um crítico cultural baseado em Seul.

Sim, o namoro moderno é mais superficial. E isso não é algo que deveria ser julgado como bom ou ruim, mas um resultado do status quo. Comparado aos mais velhos, a juventude quer perseguir sua própria felicidade ao invés de se amarrar a um relacionamento ou um relacionamento economicamente estressante,” disse Jung.

“A geração de hoje é geralmente mais aberta à diversidade e esta atitude também se aplica ao namoro. Isso ajuda a explicar o razão dos mais jovens se tornarem mais mente aberta em relação aos relacionamentos românticos.”


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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