Para a maioria das pessoas modernas, comer insetos seria a última opção antes da inanição. Com um profundo sentimento de nojo, muitos chamam esse comportamento de “não-civilizado”, apesar do potencial que os insetos têm de ser uma fonte alimentar extremamente viável e saudável.

Kim Young-wook, o chef coreano do Edible Insect Laboratory, posa em frente a seu restaurante em Seul. Foto: Yonhap

Mas Kim Young Wook, um especialista em pesquisas de alimentos e marketing, tem se esforçado para mudar a percepção pública negativa em relação aos insetos e está fazendo um trabalho para transformá-los em parte de uma dieta nutritiva, saborosa e ambientalmente amigável.

Muitos anos de grande esforço culminaram, no ano passado, na abertura do “Cozinha do Papillon”, o primeiro restaurante que serve insetos da Coreia do Sul, em Seul, e que possui uma grande variedade de alimentos, inclusive os considerados normais, que vão desde cookies até sanduíches e massas com frutos do mar e tomate.

O grande desafio, acima de tudo, tem sido o “nojo” que está profundamente enraizado na psique das pessoas. Eles nem sequer experimentam para ver se o sabor parece agradável ao paladar, eles se baseiam na aparência do inseto“, disse Young Wook, chefe do Laboratório Coreano de Insetos Comestíveis.

Mas, uma vez que você faça com que os pratos tenham uma boa aparência e explique o valor nutritivo dos insetos para elas, as pessoas podem começar a pensar de forma diferente – uma razão pela qual temos focado nossa atenção no desenvolvimento de tecnologias de processamento de alimentos”, acrescentou.

Young Wook, abriu seu restaurante a menos de um ano atrás. Ele deu este nome ao restaurante por causa de um filme americano, de 1973, “Papillon”, que conta a vida de um preso em uma cadeia de segurança máxima, que come baratas e centopeias para sobreviver.

O restaurante de uma só mesa é como um laboratório onde Young Wook e seus funcionários – principalmente seus alunos – quebram a cabeça para encontrar uma maneira de atingir uma população mais ampla e diversificada, e esculpir um nicho no mercado de alimentos.

Para ajudar a reprimir o sentimento de repugnância para com os insetos, Young Wook vem promovendo seus produtos alimentícios como sendo de “baixo teor de carboidratos, e ricos em proteína”, em vez de mencionar explicitamente os seus ingredientes, tais como larvas de farinha, bichos da seda, grilos e outros insetos.

Seu restaurante tem usado principalmente bicho da farinha em pó e óleo para fazer massas, bolinhos de arroz frito, sopa, macarrão, sorvete e vários molhos de forma que pareçam comestíveis aos olhos de uma gama cada vez maior de clientes.

O Bicho da Farinha, ou a forma larval do Besouro Darkling, já é amplamente conhecido como uma fonte de alimento e rico em proteínas.

Bolinhos fritos de arroz, feitos de pó de besouro, na cozinha do Papillon em Seul. Foto: Yonhap

Os esforços de Young Wook para atrair os clientes que tem aversão a insetos parece estar valendo a pena.

Motivado por sua curiosidade “insaciável”, Kim Seol de 29 anos, que trabalha em um escritório na cidade de Seul, experimentou um macarrão feito com farinha de larva e descobriu que não era diferente da massa tradicional. Ele disse que frequentaria o restaurante com sua família e amigos.

No começo, eu estava dominado pelo nojo, achando que eu sentiria os insetos enquanto eu comia o macarrão”, disse o cliente depois de terminar o prato principal. “Mas, para minha surpresa, o sentimento de nojo passou durante a refeição. Agora eu posso recomendar à minha família que venham aqui e experimentem este novo conjunto de pratos únicos”.

Sobremesas feitas de farinha de larva na cozinha do Papillon em Seul. Foto: Yonhap

Incrementando sua campanha de marketing para além, Young Wook foi recentemente inserido no mercado dos EUA. No mês passado, sua empresa participou do evento “Comendo Insetos em Detroit” como representante Sul-Coreano. Esta foi a primeira conferencia nos Estados Unidos dedicada inteiramente ao tema de insetos comestíveis.

Mas o profundo preconceito contra os insetos continua a ser um grande desafio para superar, disse Lee Jun Yeop, que faz parte da equipe de culinária no restaurante do Young Wook.

Muitas pessoas ficam boquiabertas quando elas descobrem que estão comendo insetos”, ele disse.  “Algumas imediatamente cospem fora, outras poucas realmente experimentam por curiosidade”.

Sentindo o preconceito generalizado, Young Wook está depositando suas esperanças sobre o valor nutricional que é elevado e em uma alimentação à base de insetos, e assim promover seus produtos.

Em 2013, de acordo com o relatório da Food and Agriculture Organization (FAO) – Organização da Agricultura e Alimentos da ONU, insetos são uma fonte de comida saudável, com alta concentração de gordura natural, proteínas, vitaminas, fibras e minerais.

Por exemplo, a composição de gorduras de ômega-3 e seis ácidos encontrados na farinha de larva é comparável com a do peixe – mais elevado do que no gado e no porco – e o teor de proteínas, vitaminas e minerais de farinha de larvas é semelhante ao encontrado em peixes e outros tipos de carnes, disse o relatório.

Os benefícios ambientais da criação de insetos para alimentação oferecem um apelo mais substancial para os consumidores cada vez mais ambientalmente conscientes.

O relatório da FAO ressalta que os insetos são responsáveis por liberar muito menos gases de efeito estufa e de amoníaco do que o gado ou porcos, e que eles exigem menos terra e água que o gado e outros animais convencionais.

Além de tudo isso, insetos necessitam ser alimentados menos que outros animais. Em média, os insetos podem converter 2 Kg de ração em 1 kg de massa, enquanto que o gado exige 8 Kg de ração para produzir um 1 Kg de ganho de peso corporal, de acordo com o relatório.

Ryu Si-doo, CEO da Edible Inc., posa para foto em sua cafeteria, Edible Coffee, no sul de Seul. Foto: Yonhap

Também lucrando com o potencial dos insetos como fonte de alimento, está Ryu Si-Doo, CEO da Edible Inc., uma empresa iniciante de engenharia de alimentos em Seul. Sua empresa tem uma cafeteria que tem como produto principal o “Shake Cascudinho 500,” uma bebida fria feita de 500 bichos-da-farinha, e uma série de biscoitos e barras energéticas que são feitas com bichos da seda e gafanhotos.

Si-Doo abriu sua empresa a menos de dois anos, com o objetivo de fornecer uma experiência “intrigante e refrescante” para seus clientes e ajudá-los a mudar seus preconceitos contra os alimentos feitos de insetos.

“Eu mesmo não gostava de insetos por si só. Eu odiava cria-los… que dirá comê-los”, disse Si-Doo. “ Mas depois de experimentar a comida para poder falar, minha percepção em relação a insetos mudou e eu pensei que as outras pessoas também poderiam mudar”.

Ao contrário dos produtos de Young Wook, Si-Doo não esconde o fato que os insetos estão em seus biscoitos e outros petiscos, uma vez que os produtos, mesmo revelando seus ingredientes, vendem muito bem.

Há várias razões pelas quais as pessoas compram biscoitos de insetos. Elas compram porque os biscoitos são interessantes ou apenas por curiosidade” disse ele. “Se os insetos não são revelados, eles não são diferentes dos outros produtos alimentares comuns, ou seja, as suas características atraentes desapareceriam”.

Para Si-Doo, administrar a cafeteria é como andar por um caminho cheio de aventuras. Suas aventuras ainda precisam de um ponto de equilíbrio, mas ele tem um grande orgulho no fato de que é um pioneiro numa indústria de alimentos que está crescendo.

Eu tenho experimentado e desenvolvido constantemente novas comida e bebidas aos quais meus clientes tem mostrado interesse“, disse ele . “O fato de que eu estar fazendo a cabeça dos outros me deixa satisfeito e orgulhoso”.

O mercado de insetos na Coreia do Sul está crescendo drasticamente nos últimos anos, prometendo ser uma indústria promissora no futuro.

Em um relatório divulgado no início deste ano, o Instituto de Economia Rural da Coreia (IERC) estimou o tamanho do mercado em 313,9 bilhões de won (R$ 885 milhões) no ano passado, um aumento de 90 % dese 2011. O governo visa aumentar este mercado siginificativamente até 2020.


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