A alguns quarteirões de distância dos grandes e movimentados escritórios de Seul, existe uma antiga vizinhança que resistiu a devastação do tempo.

Euljiro é uma avenida de 3 quilômetros, estendendo-se desde a prefeitura de Seul até o Parque de História e Cultura Dongdaemun, o coração da indústria manufatureira coreana em seu auge.

Enquanto a Euljiro 1-ga  e 2-ga (“ga” significa rua em coreano) formam uma floresta de arranha céus, repleta de sedes de grandes corporações. As ruas 3-ga e 4-ga ainda estão cheias de lojas familiares, abrigando os traços da rápida industrialização do país nos anos 70 e 80.

Hoje, os jovens que estão voltando para a vizinhança não são fabricantes, mas artistas.

Vista aérea de Euljiro (Imagem: Yonhap)
Vista aérea de Euljiro (Imagem: Yonhap)

A designer de joias, Won Hye-rim de 31 anos, é uma das muitas pessoas que procuram por locais de trabalho com preços acessíveis na capital.

Junto com outros dois designers, Won inaugurou o seu ateliê e café Hotel Soosunhwa em 2015, no quarto andar de um prédio antigo em Euljiro, que nem sequer possui elevador.

“Euljiro foi decisivo para mim e os outros designers, cada um especialista em joias, bolsas e roupas para adquirir materiais para o nosso trabalho” disse ela.

Won não esperava tantas pessoas visitando o café, que não possui uma placa. “Parece que mais pessoas estão circulando na vizinhança, pois estão surgindo novos lugares interessantes aqui.”

Foto tirada em julho de 2018, mostrando a localização da Cafeteria Soosunhwa, no quarto andar do prédio branco à esquerda. (Imagem: Yonhap)
Foto tirada em 3 de julho de 2018, mostrando a localização da Cafeteria Soosunhwa, no quarto andar do prédio branco à esquerda. (Imagem: Yonhap)

Cho Chan-seok trabalha como corretor de imóveis há mais de 38 anos na região e disse que a procura dos jovens começou a aumentar por volta de 2 ou 3 anos atrás. Hoje, ele recebe cerca de 20 consultas por mês.

“A maioria são artistas nos seus 20, 30 anos, buscando um lugar pequeno em que possam usar como uma combinação de espaço de trabalho e cafeteria”, disse Cho.

Euljiro está localizado no centro da capital, mas os alugueis estão em um nível que não é facilmente encontrado em nenhum outro lugar na região.

“Os andares superiores dos prédios de quatro a cinco andares estão praticamente vazios. Os estabelecimentos são tão velhos que não possuem elevadores, mas os jovens encaram como se não fosse importante”, disse o corretor. “Para os proprietários, os espaços estão vazios por tanto tempo que eles prontamente alugam por um preço baixo”.

Cafeteria Baekdugangsan (Imagem: Yonhap)
Cafeteria Baekdugangsan (Imagem: Yonhap)

Diferente de muitos novatos em bairros antigos, dos quais expoem seu negócio e transformam o local em pontos modernos da cidade, os artistas e donos de cafeterias de Euljiro apreciam a atmosfera nostálgica que o bairro possui.

“Amo as imagens contrastantes de Euljiro, que é tão ocupada na tarde e tão silenciosa à noite. Com os arranha céus em um canto e prédios antigos no outro lado”, disse Kang Kyeong-mi, escultor e dono da cafeteria ‘Baekdugangsan’ inaugurada em março. 

A chegada dos jovens em Euljiro está alinhada com o projeto de renovação urbana do Distrito de Jung, atuando na criação de ateliês para jovens artistas, para a revitalização do local.

Sob o Projeto Euljiro de Design e Arte lançado em 2015, o Distrito de Jung concedeu subsídios de aluguel aos artistas com idades entre 19 e 39 anos, para buscar atividades criativas e dar nova vitalidade ao antigo bairro.

25 artistas em nove equipes estão atualmente baseados em Euljiro, com a autoridade local pagando 90% de seu aluguel. Os pagamentos dos arrendatários da renda restante variam de 40.000 won ($36 dólares) a 130.000 won por mês.

Foto tirada da cafeteria Hanyakbang, com vista para a sua própria padaria em Eljiro. (Imagem: Yonhap)
Foto tirada da cafeteria Hanyakbang, com vista para a sua própria padaria em Euljiro. (Imagem: Yonhap)

Para os artistas, há muito mais do que o fácil acesso e aluguel baixo em Euljiro.

“A parte mais incrível é a presença de artesãos com pelo menos 20 anos de experiência. De ferragens, lojas de impressão e iluminação, eles estão todos aqui”, disse Ko Dae-woong de 28 anos, artista contemplado pelo projeto de renovação urbana.

O espaço de 155 metros compartilhado por ele e outros três artistas foi abandonado há quase uma década, antes deles inaugurarem sua sala de trabalho em 2016.

Em meio aos esforços de renovação urbana do governo, a preocupação de que Euljiro possa se tornar uma outra vítima da rápida gentrificação está aumentando.

Ruas de Euljiro (Imagem: Yonhap)
Ruas de Euljiro (Imagem: Yonhap)

Seul já experienciou múltiplos casos de gentrificação. Alguns, como em Garosugil, foram há muito tempo transformados em distritos comerciais, onde as marcas mais sofisticadas (como a Apple) abrem suas lojas próprias, enquanto as outras lutam para encontrar maneiras entre os ocupantes originais e novos inquilinos de coexistir.

Pequenos lojistas em áreas semelhantes a Euljiro em muitos aspectos, como Seongsudong no leste de Seul e Mullaedong na parte sudoeste da cidade, foram gradualmente se retirando após um aumento nos aluguéis.

Louis Park, que abriu um bar chamado Sikmul em Ikseondong, testemunhou o bairro se transformar em um dos destinos turísticos mais populares em apenas alguns anos e previu o desenvolvimento de Euljiro, com uma evolução diferente das outras regiões.

“Euljiro é muito maior do que Seochon, Bukchon ou Ikseondong. Mais cafés, restaurantes e lojas serão abertos, mas o ritmo será muito mais lento”, disse ele.

Foto de 2016, com o grupo R3028 se apresentando nas ruas de Euljiro (Imagem: Yonhap)
Foto de 2016, com o grupo R3028 se apresentando nas ruas de Euljiro (Imagem: Yonhap)

O professor Park Jin-a, da Universidade Hanyang, em Seul, disse que a questão é quão bem os artistas podem cooperar com as empresas existentes, ressaltando que sua colaboração parece estar em um estágio inicial no momento.

“A chave é encontrar um interesse público ou objetivo em comum entre os recém chegados e a indústria existente para incluir mais pessoas que participem dos projetos conjuntos e da revitalização da área”, disse o professor.


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