As notícias de 2017 na Coreia, foram marcadas pelo feminismo, desde o romance feminista de Cho Nam-joo, “Born in 1982, Kim Ji-young”, até a cobertura de diversos acontecimentos misóginos pela mídia. Tal consciência sobre a identidade das mulheres e do feminismo moderno na Coreia veio com o surgimento das “novas mulheres”, ou “New Woman”, no início do século XX.

The Arrival of New Woman”, uma exibição do Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, em Deoksugung, oferece uma perspectiva compreensiva de como tais mulheres pioneiras, moldaram a sociedade coreana moderna. O termo New Woman, ou nova mulher, surgiu pela primeira vez no fim do século XIX na Europa e nos Estados Unidos, descrevendo o número crescente de mulheres feministas, bem educadas e com carreiras independentes. O termo se espalhou para a Ásia no século XX.

No fim da Dinastia Joseon (1392-1910), as mulheres começaram a receber educação em moldes modernos, tornando-se cultas, e o termo New Woman passou a ser frequentemente utilizado pela mídia. As “novas mulheres coreanas” vivenciaram contradições em diversos níveis, vivendo em uma sociedade marcada pelo patriarcado tradicional, o imperialismo, o colonialismo japonês e o choque cultural entre o Ocidente e o Oriente. Tais mulheres foram ícones da modernidade, mas não puderam liderar os novos rumos do país por serem mulheres.

Entretanto, as novas mulheres coreanas foram também o centro de uma nova onda de objetificação sexual, enquanto intelectuais masculinos mostravam tanto curiosidade como hostilidade contra as tais “garotas modernas”, que eram representadas por elementos como vaidade, luxúria e decadência.

Assim, a exibição destaca as mulheres complicadas que foram as pioneiras da modernidade coreana. Cerca de 500 pinturas, esculturas, bordados, ilustrações e fotografias das “novas mulheres coreanas” estão em exibição.

Instalação "New Women on Parade", parte da exibição "The Arrival of New Women", no Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, em Deoksugung. Foto: 민중의소리/VOP
Instalação “New Women on Parade”, parte da exibição “The Arrival of New Women”, no Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, em Deoksugung. Foto: 민중의소리/VOP

O talento ignorado

Na exibição “New Women on Parade”, há objetos retratando como era a vida das mulheres na Coreia moderna. O período de modernização viu o início da utilização do corpo feminino pela mídia. Muitas revistas destinadas ao público feminino foram publicadas, mas tais revistas refletiam a inveja, desejo e frustração das mulheres em suas tentativas de acompanhar a cultura Ocidental, e não refletiam as mulheres de fato, reais.

Era difícil para uma mulher se tornar uma artista, em uma era em que a educação moderna focava-se em nutrir o ideal de que as mulheres deveriam ser mães sábias e boas esposas.

A geração pioneira de pintoras mulheres na Coreia era formada por antigas “gisaeng” (cortesãs de entretenimento, da Dinastia Joseon), que se especializaram em caligrafia e “Four Gracious Plant Paintings”, pinturas de formas abstratas. Porém, as pintoras nunca poderiam atingir o status de artistas modernas devido ao seu status social e a eliminação de suas obras das exibições anuais de arte.

Em 1920, um grupo de novas mulheres que recebeu treinamento em artes de escolas modernas, como a Universidade de Joshibi de Arte e Design do Japão, ganhou atenção como a nova geração de pintoras modernas.

Parte da exibição “The Arrival of New Women”, no Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, em Deoksugung. Foto: 민중의소리/VOP
Parte da exibição “The Arrival of New Women”, no Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea, em Deoksugung. Foto: 민중의소리/VOP

Na Hye-seok (1886-1948) foi uma das pintoras modernas pioneiras, assim como uma escritora feminista. Seu autorretrato “Self-Portrait” exibe sua identidade como uma artista, diferente dos retratos de mulheres pintados por artistas homens. Ela também escreveu uma coluna intitulada “Confessions from a Divorce” em 1930, quatro anos após seu divórcio de Kim Woo-young, o que gerou controvérsia e fofocas.

Trazer de volta essas mulheres ambiciosas e talentosas no século XXI é animador e triste ao mesmo tempo, já que a vida das mulheres hoje em dia não é tão diferente do passado, em diversos aspectos.

Na Hye-seok contribuiu com uma ilustração intitulada “Home Life of Kim Ir-yeop” para a edição de junho de 1920 da revista “Sinyeoja” (New Woman). Kim Ir-yeop, um monge budista e escritor, é retratado enquanto cozinha, costura, e realiza outras tarefas domésticas enquanto encontra tempo para ler livros e escrever poemas. A ilustração se relacionada com as mulheres do dia de hoje, que lutam para manter um balanço entre trabalho e vida doméstica.

Obra "Self-Portrait" (1928) de Na Hye-seok, ao lado de "A Pair of Modern Women: Thinking of Research in Lab" (1994) de Lee Yoo-tae. Imagens: MMCA/Korea Times
Obra “Self-Portrait” (1928) de Na Hye-seok, ao lado de “A Pair of Modern Women: Thinking of Research in Lab” (1994) de Lee Yoo-tae. Imagens: MMCA/Korea Times

Homenagem para as novas mulheres coreanas

As novas mulheres coreanas do início do século XX passaram por anos de turbulência. Elas estavam no meio de um período de mudanças no qual a mulheres foram de “boas esposas e mães sábias” para um indivíduo independente. Porém, apesar de seu talento, foram seriamente subestimadas pela sociedade centrada nos homens.

Em “Woman Is Everything: 5 New Women”, uma parte da exibição, cinco mulheres revolucionárias mas desconhecidas que estiveram a frente de seu tempo são destacadas, e artistas contemporâneos reinterpretam suas obras, pagando tributos para as mulheres que superaram as limitações de seus tempos.

Além das obras da pintora Na Hye-seok, a romancista Kim Myeong-soon, a dançarina Choi Seung-hee, a cantora Lee Nan-young e a ativista dos direitos das mulheres Ju Se-juk são retratadas na exibição.

A romancista Kim Myeong-soon (1896-1951) foi uma escritora proeminente que produziu inúmeros poemas, romances e ensaios. Ela foi a primeira pessoa a traduzir e introduzir os trabalhos de Edgar Allan Poe na Coreia, em 1922, e escreveu mais de 170 trabalhos em 20 anos. Entretanto, ela foi evitada pelo mundo da literatura do país, dominada pelos homens, e se tornou conhecida por estar envolvida em “escândalos”. Dizem que a escritora terminou sua vida em um asilo no Japão. A artista de vídeo Kim Se-jin criou “The Chronicle of Bad Blood”, um vídeo de seis canais sobre Kim Myeong-soon. Palavras dos trabalhos da escritora são justapostas a fotografias de mulheres, revelando o sentimento de derrota da escritora como filha ilegítima e dona de um apetite intelectual incansável.

A cantora Lee Nan-young (1916-1965), conhecida por sua música “Tears of Mokpo”, expandiu os limites da música popular na Coreia ao combinar os ritmos de jazz e folk. Ela também foi pioneira em um protótipo inicial da “hallyu” (onda da cultura coreana), ao produzir o primeiro grupo feminino da Coreia, chamado de Kim Sisters, e composto de suas filhas e sobrinhas, enviando-as para promover suas músicas nos Estados Unidos da América. A instalação audiovisual de Kwon Hye-won, “Unknown Song”, retrata uma mulher que troca suas roupas e maquiagem seis vezes, com as músicas de Lee ao fundo. O trabalho homenageia a cantora, que renovou a si mesma diversas vezes.

Ju Se-juk, como a mulher menos conhecida entre as cinco, lutou pelos direitos das mulheres com base na ideologia socialista durante o domínio colonial japonês. Porém, ela foi exilada para o Cazaquistão pela União Soviética, onde passou a viver como fazendeira. O vídeo “SF Drome: Ju Se-juk” de Kim So-young visita a vila do Cazaquistão onde Ju viveu e relaciona sua vida aos sonhos de revolução.

A exibição ocorre até 01 de abril e o valor de entrada é de 3,000 wons, incluindo entrada gratuita para o Palácio Deoksugung. Para mais informações, visite o site da exposição.


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