Os grandes feriados coreanos tem má fama entre as noras.

O feriado do Chuseok, também conhecido como Festival da colheita “Hangawi”, é um feriado de 3 dias na Coreia, celebrado no 15º dia do 8º mês do calendário lunar.

Enquanto os maridos aproveitam o luxo de serem banidos da cozinha, algumas mulheres passam vários dias inteiros cozinhando e lavando os pratos durante o feriado.

Já outras noras, casadas com famílias menos tradicionais, têm mais sossego. Para as mulheres estrangeiras, a linguagem e barreira cultural são outros problemas potenciais.

“Realmente depende da família, se você tiver sorte, você terá um Chuseok melhor”, disse Katherine Corteza, que passou 12 anos na Coreia e escreveu uma tese sobre a experiência das esposas estrangeiras no país.

Chuseok

O país de origem também faz diferença. Suwanna Phatratanasan veio da Tailândia e parte de sua família é de Hong Kong. Familiarizada em parte com a cultura de honrar os ancestrais, ela se surpreendeu com o número de pessoas e a importância do preparo do “jesa”, rituais ancestrais da Coreia.

“Nós realmente não tínhamos que cozinhar nada. Apenas comprávamos a comida para oferecê-la aos ancestrais. Mas aqui é mais o preparo, com uma forma muito específica de cozinhar, o tempo de cozimento dos alimentos e a forma em que a mesa é posta. Ainda estou confusa” disse ela.

Os sogros de Phatratanasan fazem o jesa com frequência, cerca de sete a oito vezes por ano. Sua sogra tenta não pressiona-la e às outras mulheres na família, mas sua cunhada ainda sente uma certa obrigação.

“É mais pressão para ela, pois é casada com o filho mais velho e também por ser coreana e eu não, logo não sinto a mesma pressão do que ela”, ela afirma.

Foto: goal.or.kr
Ritual Jesa. Foto: goal.or.kr

Nem todas as famílias fazem os rituais jesa. Anne Campos disse que sua família não realiza o ritual por serem Cristãos, mesmo visitando os túmulos de seus familiares antes do Chuseok para pagar seus tributos.

Ao invés disso, o feriado torna-se uma reunião familiar. Ainda há muita comida envolvida, mas eles também saem para fazer trilhas, irem ao parque ou cinema. Ano passado, eles alugaram um ônibus e viajaram pela província de Jeolla do Sul.

Contudo, Anne precisou se acostumar, pois sua família nas Filipinas não é tão próxima. “Me sinto como ‘Porquê você está fazendo isso? Você precisa reunir a todos para comer?” disse ela.

“Antes, eu apenas queria sair com o meu marido ou algo assim. Agora que tenho filhos, acho que é bom eles estarem próximos de seus primos, tias e tios. Na verdade, estou me ajustando mais, ao invés de reforçar para eles que sou uma estrangeira na família. Eles realmente são muito abertos”.

Os pais de Anne se mudaram para a Coreia e participam de algumas reuniões familiares. Isto também significa que ela pode agir como as outras mulheres da família, passando o segundo ou terceiro dia do feriado com seus próprios pais.

Katherine já conhecia bem o feriado e ouviu muitas histórias, entre elas boas e ruins. O problema mais comum é a questão das esposas estarem imersas em um ambiente muito intenso e desconhecido, do qual precisam cozinhar, curvarem-se e agir de uma forma específica.

“E quando elas não conseguem fazer isso adequadamente, são reprimidas”, ela explica. “Por não falar muito bem o idioma coreano, elas não conseguem se explicar. Alguém precisa ensiná-las para que possam aprender estas coisas”.

As esposas estrangeiras aprendem a fazer o "songpyeon," (bolo de arroz no formato de meia-lua, tradicional do Chuseok) em um centro comunitário de Songpa-gu, Seul. Foto: Yonhap
As esposas estrangeiras aprendem a fazer o “songpyeon,” (bolo de arroz no formato de meia-lua, tradicional do Chuseok) em um centro comunitário de Songpa-gu, Seul. Foto: Yonhap

Foi ainda mais difícil para as mães cujo os filhos ainda são bebês. “É mais difícil para mulheres que estão trabalhando, pois elas têm de fazer as três funções”, disse Katherine Corteza. “Acho que em comparação às mulheres coreanas, a nossa maior vantagem é não possuir a bagagem emocional de não poder ver nossas famílias no Chuseok”.

Mulher do filho mais velho, Corteza sentiu inicialmente muita pressão em seu primeiro Chuseok em 2014. “Eu cozinho comida coreana, mas é sempre com alguma mudança, pois sou estrangeira e costumo preparar o que eu gosto de cozinhar”, disse ela.

Por sorte, sua família não tem feito o jesa desde que estão casados e possuem menos expectativas para a cozinha tradicional. Seu marido a sugeriu, que ela deveria apenas cozinhar o que ela quisesse como anfitriã. “Então eu preparei comida filipina para eles, pois sou filipina. Fiz pancit (macarrão) e muita comida filipina”, disse ela.

A comida foi popular, embora ela sinta que alguns familiares escolheriam algo mais tradicional. Para ela, a comunicação é um de seus maiores problemas. Ela fala coreano bem, mas está preocupada em cometer gafes, pois seus sogros são um tanto rígidos nas reuniões.

“Sei que sou estrangeira e a sensação de ser uma intrusa é algo do qual estou acostumada, mas quando estamos todos reunidos, as vezes ainda me sinto como uma visitante”, disse ela. “Poderia apenas dizer à minha sogra que lavarei os pratos. Eu prefiro lavar a louça do que ficar lá parada sem jeito, olhando e esperando alguém falar”.

Comunicação também é um problema para Leila Quintos. Ela está gostando de sua vida de casada em Seul, mas a barreira do idioma é o seu maior desafio. Chuseok é uma época tranquila, porém, ela ainda não é capaz de se juntar à conversa. Enquanto seus sogros jogam ‘Go Stop’ (고스톱 – jogos de cartas coreano), ela passa mais tempo com seu filho e as outras crianças.

O feriado ainda deixa Leila com um desejo não saciado de pertencimento, então ela desenvolveu o seu próprio ritual. Tirar fotos dela mesma usando o hanbok. “Isso é o melhor que posso fazer para mim mesma na comemoração do Chuseok. Não é realmente tradicional, mas de alguma forma, me sinto parte deste país usando aquele hanbok”, disse ela.


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