O KoreaPost reproduz hoje a segunda reportagem da série sobre educação do site Korea Exposé. A série é voltada para um conjunto de críticas feitas ao sistema educacional sul coreano, que de modo geral é considerado um dos melhores do mundo apesar de seu caráter conservador. A reportagem a seguir aborda o tabu da educação sexual, que como no Brasil, recebe críticas por propagar esteríotipos conservadores e falha em reconhecer e incluir minorias.

Como os estudantes podem prevenir agressão sexual durante uma viagem com amigos? Em primeiro lugar, não vá, disse a primeira sugestão de currículo padrão de educação sexual do Ministério da Educação em 2015. E para prevenir agressão sexual quando sozinho em casa com um amigo do sexo oposto? Não fique sozinho(a) com eles de modo algum.

Então, quando a organização sem fins lucrativos Diversity Korea começou uma petição online em maio para abolir o currículo, os sul coreanos não ficaram em silêncio: Mais de 10.000 pessoas assinaram a petição em menos de duas semanas. O CEO Kim Ji-hak disse que devido ao inesperado nível de apoio recebido, a Diversity Korea – dedicada a pesquisa, educação e campanhas por direitos humanos e diversidade – aumentou sua meta para 100.000 assinaturas.  A petição deve ser enviada para o Ministério da Educação em agosto.

As diretrizes foram estabelecidas sem consultar profissionais de educação sexual e as partes interessadas que trabalham nesse campo a muito tempo,” diz a petição. “Recebeu uma crítica contínua por perpetuar estereótipos de gênero, espalhando informações falsas de agressão sexual e promovendo um conteúdo irrealista e ultrapassado.

A Diversity Korea também postou fotos do currículo, no qual Kim informou serem do lançamento inicial em 2015, mas que foram retiradas do site do ministério devido à reação negativa.  As orientações, aparentemente, foram enviadas para escolas, onde professores podem desenvolver suas próprias aulas, mas não estão mais disponíveis online ao público-geral, como confirmou um representante do Ministério da Educação.

A educação sexual da Coreia do Sul há muito tempo recebe críticas por ser atrasada e impraticável, mas é difícil saber exatamente seu conteúdo a menos que se seja um estudante.  Mesmo para pesquisadores interessados, desenterrar os conteúdos não é uma tarefa fácil (como o Korea Exposé descobriu ao longo deste artigo).

Então, o que as crianças estão aprendendo de verdade?

Estudantes do secundário durante uma aula. (Crédito: Samuel Orchard/Wikipedia Commons)
Estudantes do ensino fundamental durante uma aula. (Crédito: Samuel Orchard/Wikipedia Commons)

O Infame Pyojunan: O Padrão de Educação Sexual

Em uma versão disponível das orientações feitas pelo ministério aos professores no site do Departamento de Educação da Província de Chungcheong do Norte, os tópicos são divididos em três grupos etários diferentes (ensino primário, secundário e médio).  Cada grupo etário recebe um caderno com perguntas e atividades destinadas a reforçar as lições. As orientações e cadernos juntos cobrem uma vasta gama de questões, mas não explicam o que é sexo na verdade.

Por exemplo, o caderno do ensino médio contém seis seções: a vida humana e paternidade; relações com o sexo oposto e papel dos pais; como lidar com questões sexuais; comportamento sexual e responsabilidade; saúde sexual; e entendendo e prevenindo “ações sexuais ilegais”.

Enquanto as orientações fornecem alguma informação beneficial – uma seção define as diferenças entre sexo biológico e noções culturais de gênero, outra inclui ilustrações de órgãos sexuais e genitália. As seções são repletas de conteúdos vagamente ligados ao sexo sobre “a cultura do sexo”, mas nada específico ao ato sexual em si.  Na maioria das vezes, isso refere-se a interações com membros do sexo oposto, ou valores familiares e o conceito de amor.

Em uma seção intitulada “Técnicas de Comunicação com o Sexo Oposto”, o caderno do ensino médio apresenta uma lista para ajudar os alunos a “compreenderem” seus próprios “estilos de comunicação”. A próxima página é um tipo de cenário de perguntas, oferecendo aos estudantes exemplos de experiências hipotéticas frustrantes – incluindo uma na qual seu namorado(a) sempre chega atrasado(a) e tenta usar o trânsito como desculpa.

E em uma das raras referências à tópicos polêmicos, o currículo discute a industria do sexo e percorre uma linha tênue entre a humanização dos trabalhadores sexuais e oposição ao trabalho sexual. (Comprar e vender sexo é ilegal na Coreia do Sul.)

Na introdução das orientações, existe uma alegação de que “um comportamento sexual adequado decorre de atitudes e percepções adequadas sobre o sexo.” Em seguida, enfatiza a necessidade de inocular os estudantes com uma “compreensão abrangente sobre a educação sexual.”

Mas as centenas de páginas com ilustrações e atividades resumem-se a uma educação sexual obcecada com tudo remotamente relacionado ao sexo…menos o sexo em si.

Homossexualidade e a Invisibilidade das Minorias Sexuais

Apesar da fala do representante sobre as mudanças das orientações em resposta às críticas de 2015, o Ministério da Educação ainda não deixou claro quais melhorias serão feitas no currículo, especialmente em relação a completa ausência de informação a cerca da homossexualidade e outras minorias sexuais.

Em fevereiro, o Human Rights Watch afirmou que “um currículo que se recusa a incluir informação sobre orientação sexual e identidade, falha com os estudantes,” em uma crítica direta a educação sexual da Coreia do Sul.

Temos visto apenas mais retrocessos do Ministério da Educação sobre a questão da educação sexual inclusiva,” Kyle Knight, pesquisador do HRW, disse em um e-mail ao Korea Exposé em junho. “A insistência do ministério em excluir as referências a homossexualidade na educação não apenas é contraditório com as obrigações do governo para com os direitos humanos, como também anuncia um futuro de experiências estigmatizadas para a juventude LGBT na Coreia do Sul.

As orientações de fato não fazem nenhuma menção à homossexualidade, minorias sexuais ou qualquer questão LGBT. O mais próximo que se chega é uma discussão superficial sobre HIV e AIDS, mas estas são mencionadas apenas em relação a doenças sexualmente transmissíveis e métodos contraceptivos.

Um funcionário do governo explicou mais tarde que o currículo é apenas “uma orientação”, e que professores podem adicionar e ajustar as diretrizes se assim desejarem.  Mas para o HRW, “programas de treinamento opcionais ou particulares para professores não são um substituto adequado.

De fato, 2017 não foi a primeira vez que o HRW expressou desapontamento sobre a Coreia do Sul. Em maio de 2015, enviou uma carta aos ministros da educação, e saúde e bem-estar sul coreanos quanto ao mesmo assunto.

A influência dos grupos religiosos contrários ao ensino aberto sobre homossexualidade no início do desenvolvimento do currículo continua forte.  Para a Associação Coreana de Comunicação Religiosa, uma organização que “monitora e pressiona o governo, agências e ONGs a realizarem a vontade de Deus,” uma boa educação sexual é uma que enfatiza os valores familiares e a preciosidade do sexo, disse Shin Manseok da organização.

Shin disse ao Korea Exposé que não é correto as escolas ensinarem de modo aberto sobre a homossexualidade quando a lei em si não apoia a homossexualidade explicitamente.  (Aliás, o lobby religioso bloqueou o progresso de uma legislação contra a discriminação, que ofereceria proteção para as minorias, incluindo a comunidade LGBT.)

Sul Coreanos Insatisfeitos Procuram Alternativas

Uma pesquisa de 2007 conduzida pela Aha! – O Centro de Educação e Aconselhamento Sexual descobriu que 44 por cento dos adolescentes sul coreanos pensam que a educação sexual que receberam na escola não foi prática, nem útil, de acordo com um artigo do Korea Herald.

Conscientes da insatisfação dos estudantes, o governo lançou planos e conduziu pesquisas para melhorar a educação sexual como parte das mudanças de políticas nacionais em 2013. O primeiro passo para melhorias foi criar as diretrizes oficiais para escolas, e o conjunto inicial foi lançado em 2015.  Ainda assim, dois anos depois, alguns sul coreanos continuam insatisfeitos.

O Aha!, de acordo com seu site, é dedicado a promover o empoderamento da juventude e criar uma cultura de sexo respeitosa através de uma educação sexual de gênero. Em 2015, o centro respondeu que as diretrizes apoiaram o surgimento de “um currículo intolerante que não tem nenhum conteúdo experiente e apenas opiniões conservadoras.

Kim, da Diversity Korea, disse que o problema com o sistema educacional do país – a educação sexual incluída – é que não encoraja os estudantes a pensarem livremente sobre si mesmos.

Acredito que o maior problema é que (a educação sul coreana) está presa em um estado que tenta proteger, controlar e regular os estudantes,” ele disse. Acrescentou, ainda, em uma mensagem ao Korea Exposé que a educação deveria “reconhecer e respeitar a individualidade do aluno em todos os aspectos de suas vidas, desde seus corpos, gênero e sexualidade, até carreiras e visões.

Os sul coreanos, em especial os jovens, aventuram-se com novas abordagens para a educação sexual e tópicos de tabus tradicionais na ausência de uma instrução significativa inicial.

A internet, em particular, tornou-se lugar para sul coreanos insatisfeitos descobrirem e compartilharem uma educação sexual segura e divertida. A startup de mídia Woori, por exemplo, espera destigmatizar o sexo, masturbação, pornografia e afins. Os vídeos da Woori são divertidos, mas informativos, usando adereços e incluindo informação sobre masturbação feminina e outras questões que anteriormente espreitavam nas sombras inexploradas pelo discurso social. Eles também usam entrevistas com jovens coreanos para mostrar opiniões sobre questões-chave como o sexo no primeiro encontro e fantasias sexuais.

Os jovens estão interessados, mas ninguém diz nada. Então eles aprendem coisas vendo pornografia,” Park Yong-ho da Woori disse ao Korea Exposé. “Queriamos evitar que fossem por um caminho ruim por isso iniciamos o site. A sociedade sul coreana está se tornando cada vez mais aberta em relação ao sexo, mas a educação não está acompanhando este processo.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



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