Uma pequena universidade dirigida por estrangeiros nos arredores de Pyongyang tem treinado jovens norte-coreanos em habilidades capitalistas há anos. Inaugurada em 2010 pela Fundação do Nordeste Asiático para a Educação e Cultura, uma organização de caridade cristã da Coreia do Sul, a Pyongyang University of Science & Technology (PUST) é a única universidade de controle privado no país, em que a educação é oferecida de modo gratuito.

Com seu quadro de funcionários composto por professores estrangeiros e voluntários, a universidade oferece cursos totalmente em inglês sobre finanças internacionais e administração, engenharia de computação e biologia para cerca de 550 estudantes universitários e de pós-graduação com o objetivo de promover a globalização da Coreia do Norte e sua independência econômica.

“No momento de inauguração da universidade, mais de 90% da liderança da Coreia do Norte estava contra o projeto, pensando que a escola poderia colocar a nação em risco”, disse Yu-taik Chon, presidente da PUST, em uma palestra de apresentação de sua universidade em Seul. Ainda hoje, após muitos anos de funcionamento de universidade, para o regime norte-coreano “a principal preocupação é se os estudantes serão influenciados pela universidade”, o coreano-americano disse, referindo-se ao medo que o regime tem da influência ideológica vinda do exterior e o subseqüente controle de informações externas.

Tais preocupações impactaram negativamente as relações entre a universidade e os estudantes no início, antes de o regime e os estudantes, gradualmente receberem de modo positivo, o raro acesso ao treinamento profissional geralmente oferecido em países capitalistas e o conhecimento de experts.

Prédio principal Pyongyang University of Science & Technology (PUST). Imagem: Yonhap News.
Prédio principal Pyongyang University of Science & Technology (PUST). Imagem: Yonhap News.

Um grupo especial de oficiais norte-coreanos se manteve presente para assistir os professores e alguns alunos denunciaram comentários ideologicamente suspeitos ou críticas feitas ao regime pelos professores para as autoridades. Calouros da universidade encontraram dificuldades em como se portar com os professores estrangeiros, incluindo aqueles vindos dos Estados Unidos da América, Chon disse, indicando o antagonismo do sistema de educação norte-coreano frente ao que o regime chama de “imperialismo dos Estados Unidos”. Porém, após cerca de dois anos de vida universitária, os estudantes diminuem suas atitudes “hostis” e conseguem se relacionar de modo amigável com os professores.

“Não importa de onde viemos ou qual cor de pele nós temos, nós somos uma família na PUST”, disse o presidente da universidade, citando um representante dos alunos que disse tal frase ao se despedir em sua cerimônia de graduação.

Com anos de construção de confiança com os alunos e o regime, a universidade se estabeleceu na Coreia do Norte como uma instituição popular e prestigiosa que atrai os melhores e mais brilhantes formandos do ensino médio. “É a única universidade internacional no país, ensinando sobre tecnologia, finanças e a economia capitalista. Assuntos que estão fora de questão em outras universidades do país”, o presidente disse. “Os estudantes da universidade também tem acesso à Internet e seletivamente recebem a oportunidade de buscar mestrado na Europa, Brasil, China e outros países”, Chon disse.

Agora os estudantes formados na PUST formam um grupo raro de trabalhadores cobiçados na nascente indústria financeira da Coreia do Norte, que tem aberto empresas de seguro e bancos para troca de moeda estrangeira. “Conforme o país realiza trocas comerciais com diversos outros países, eles precisam de mais bancos e pessoas que saibam lidar com contratos financeiros. Então eles criariam uma espécie de banco para troca de moedas estrangeiras, mas não possuem pessoas que possam trabalhar lá. É aí que nossos estudantes entram com seu conhecimento financeiro”, ele disse. “Agora eles são entusiasticamente bem recebidos”.

Outros podem freqüentar cursos livres em assuntos monetários em outras universidades prestigiosas como a Kim Il-sung University e a Kim Chaek University of Technology ou optar por se juntar a um instituto de pesquisa cientifica afiliado.

Estudantes norte-coreanos da Pyongyang University of Science & Technology (PUST) posam para foto com uma professora estrangeira. Imagem: Yonhap News.
Estudantes norte-coreanos da Pyongyang University of Science & Technology (PUST) posam para foto com uma professora estrangeira. Imagem: Yonhap News.

Entretanto, a PUST enfrentou um grande obstáculo ao seu funcionamento no ano passado com as imposições do governo dos Estados Unidos que proibiram a entrada de seus cidadãos na Coreia do Norte, uma ação punitiva tomada após a morte de um estudante universitário estadunidense, Otto Warmbier, que estava preso na Coreia do Norte.

A restrição de setembro de 2017 deixou muitos professores americanos, incluindo o presidente da universidade, incapacitados de apresentarem palestras na universidade, enquanto ao mesmo tempo a escola sentia os efeitos das sanções econômicas da Organização das Nações Unidas (ONU) e dos Estados Unidos contra a Coreia do Norte. “Pessoas com a nacionalidade dos Estados Unidos estão atualmente impossibilitados de ir à Pyongyang. No momento, como presidente da universidade, não posso sequer visitar a escola menos de um ano após eu assumir o cargo. Então estou apoiando as atividades da universidade à distância da China”, Chon disse.

Cerca de metade dos 75 professores da universidade são americanos. Com a ausência de metade do quadro de funcionários desde o fim do ano passado, muitos cursos estão temporariamente substituídos com lições de chinês oferecidas por professores chineses voluntários. “A proibição de entrada no país causou um grande caos, já que professores de outras nacionalidades também estão relutantes em viajar para a Coreia do Norte”, ele disse.

O ambicioso plano da universidade em incluir um novo departamento de medicina foi colocado em espera devido à dificuldades em transferir fundos para a construção de um novo prédios, assim como pela dificuldade em trazer professores de medicina americanos. “As nações da ONU estão criando uma série de inconveniências. Nossa universidade não está presente na lista de sanções, então a transferência de dinheiro não é ilegal para nós. Mas não podemos realizar a transferência dos fundos que temos nos Estados Unidos já que os bancos americanos estão relutantes em realizar as operações. Talvez o motivo da relutância seja que os bancos estão preocupados de as operações podem influenciar seus outros negócios”, o presidente disse.

Com cerimônias de graduação marcadas para este ano, ele pediu para os Estados Unidos uma permissão especial para que ele possa ir à Coreia do Norte participar dos eventos.

Chon tem a visão de que a PUST pode vir a servir como modelo para mostrar como uma Coreia unificada pode trabalhar junto no futuro. “A PUST é um lugar em que pessoas (de ambas as Coreias) podem se encontrar e onde introduzimos perspectivas internacionais para as futuras gerações coreanas e as preparamos para o mundo lá fora”, concluiu o presidente.


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