A Guerra da Coreia de 1950-53 ainda é um fator muito importante na vida dos coreanos e a paz continua sendo apenas uma esperança no 70º aniversário da eclosão do conflito.

Desde então, as duas Coreias seguiram caminhos divergentes, experimentando uma proximidade intermitente durante certos períodos, como nas administrações liberais dos ex-presidentes Kim Dae-jung e Roh Moo-hyun, e no começo da presidência de Moon Jae-in sob um enfoque centrado no engajamento com a política da Coreia do Norte.

Uma das perguntas que estão na mente de muitos defensores da paz coreana é: Por que os dois países, mesmo depois de tantas décadas, não estão mais próximos, apesar de vários acordos de paz e reconciliação?

Como um “impulsionador” do processo de paz da Península Coreana, o Presidente Moon envidou todos os esforços, mas as relações inter-coreanas despencaram recentemente para o nível mais baixo em anos, após a destruição de um escritório de ligação inter-coreano e outros movimentos que provavelmente descartarão a Declaração de Panmunjeom assinada entre Moon e o líder norte-coreano Kim Jong-un em 27 de abril de 2018.

Fatores que Perpetuam a Divisão

Imagem: The Korea Times

Especialistas contatados pelo The Korea Times destacaram uma série de fatores internacionais e domésticos que perpetuaram a divisão.

A Coreia do Norte possui armas nucleares, algo que os EUA simplesmente não admitem ou elaboram políticas para mitigar. Em vez disso, Washington exige que Pyongyang renuncie o seu arsenal nuclear – sua única segurança, a última apólice de seguro militar – algo que provavelmente nunca dará certo“, disse Harry J. Kazianis, diretor sênior de estudos coreanos do Centro para o Interesse Nacional.

Muitos especialistas sugeriram que o objetivo final de Kim em conversar com os EUA é obter reconhecimento como potência nuclear.

Até que Washington seja capaz de reunir a coragem política para lidar com a Coreia do Norte como ela é – em vez de como querem que ela seja ou atue – nunca haverá um avanço diplomático que garanta a verdadeira paz” disse Kazianis.

Donald Kirk, um colunista veterano e correspondente que cobre questões da Península Coreana por décadas, destacou a rivalidade entre as principais potências como uma das grandes razões que impediram as duas Coreias de alcançar a paz nos últimos 70 anos.

A Península Coreana está no centro de interesse de grandes países que estão envolvidos em grandes rivalidades de poder“, afirmou ele. “Os reis coreanos prestaram homenagem aos governantes chineses por séculos antes de os japoneses derrotarem os chineses em 1895 e dominarem o país. A Rússia, derrotada pelo Japão em 1905, também tinha um interesse estratégico na Península Coreana. Os Estados Unidos lutaram pela preservação do Sul anticomunista na tentativa de impedir o comunismo, como percebido na invasão da Coreia do Norte com o apoio da China recém comunista e da União Soviética. Essas mesmas grandes potências continuam a ter um interesse na Coreia do Sul“, afirmou ele.

As rivalidades entre eles podem não ser a única razão para o fracasso em alcançar a paz, mas certamente estão no topo da lista de fatores que perpetuam a divisão da península“.

Há também fatores domésticos, de acordo com Lee Seong-hyon, diretor do Centro de Estudos Chineses do Instituto Sejong. “Antes de unir as duas Coreias é preciso unir os sul-coreanos”, disse Lee, acrescentando que o país precisa primeiro de um líder com um “entendimento sofisticado da política e sabedoria globais para curar a política polarizada da Coreia do Sul” antes de falar sobre unificação.

Caminho à Seguir

Imagem: Military Times

Analistas sublinharam que, para superar o impasse atual e neutralizar a tensão política, as principais partes envolvidas – as duas Coreias, EUA e China – devem manter os canais diplomáticos abertos.

A primeira regra para manter as tensões baixas é manter os canais de diálogo abertos. Todas as quatro partes reduzem os riscos de conflito ao permanecerem à mesa, mesmo quando as negociações não estiverem progredindo. Os EUA e a China podem apoiar o processo de diálogo intensificando suas esforços quando as duas Coreias estiverem reduzindo ou rompendo as linhas de comunicação, como está ocorrendo atualmente“, disse John Delury, professor de Estudos Chineses na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Yonsei.

Especialistas destacaram que os esforços em direção à confiança mútua, cooperação e várias trocas devem continuar, apesar das dificuldades atuais. Tais esforços podem levar a resultados reais, como reuniões de famílias divididas.

O melhor que eles podem fazer é continuar tentando conversar. O problema é que nenhum acordo com a Coreia do Norte parece funcionar. Apesar de todas as palavras no papel, a Coreia do Norte continuou produzindo ogivas nucleares e outras armas de destruição em massa e mais mísseis para alvos distantes“, disse Kirk.

Um dividendo da cúpula entre Kim Dae-jung e Kim Jong-il foi um acordo sobre reuniões regulares de famílias divididas pela Guerra da Coreia“.

Mason Richey, professor associado de política internacional da Universidade Hankuk de Estudos Estrangeiros, disse que as partes envolvidas precisam “trabalhar juntas seriamente, estrategicamente, de maneira sustentada e de boa fé, para construir confiança através de ação por ação simultânea e em fases, incluindo a desnuclearização da Coreia do Norte, cooperação econômica, fortalecimento da confiança militar e intercâmbio de pessoas para pessoas“.

Para uma verdadeira conquista da paz, uma declaração do fim da guerra é vista como crucial, segundo alguns especialistas.

Para que haja um avanço real nas relações inter-coreanas e EUA-Coreia do Norte, é essencial uma declaração de fim de guerra. Todos os lados precisam ter algum tipo de fechamento histórico e também aceitar o fim da guerra como o primeiro passo de um longo processo de reconciliação e compromisso que levará a uma redução geral das tensões“, afirmou Kazianis.

Ao encerrar a Guerra da Coreia, se Donald Trump, Moon Jae-in e Kim Jong-un assinassem algum tipo de acordo, todos fariam algo que nenhum outro líder que abordou essa questão tenha feito – e ganharão politicamente com isso. Eles também terão a capacidade de, posteriormente, assumir duros compromissos que são necessários para continuar qualquer tipo de pacificação – como adotar o controle de armas, em vez de exigir que a Coreia do Norte entregue completamente todas as suas armas nucleares“.

Política de Paz

Imagem: The Korea Times

Com a Coreia do Norte tomando um caminho rumo a mais conflitos ultimamente, surgem preocupações sobre a política de abordagem de Moon à Coreia do Norte. Os resultados de seus esforços anteriores, como as três cúpulas com Kim, já estão sendo duramente contestadas.

A história registrará que Moon falhou porque não obteve apoio suficiente do principal aliado de Seul, Washington. Em conversas privadas em Washington, Moon é visto como uma figura pró-China. Este é o ponto cego na diplomacia pública da Coreia do Sul em Washington“, disse Lee.

Moon demonstrou um foco intenso em realizar uma cúpula com o presidente chinês Xi Jinping, principalmente por razões econômicas, mas solicitar a ajuda de Xi na questão da Península Coreana também é uma grande motivação para os intensos esforços de Moon para melhorar as relações com Pequim este ano.

Lee, especialista em relações Coreia-China, diz que a Coreia do Sul precisa de um entendimento mais claro da posição da China na questão da península. “A China prefere um status quo estável na Península Coreana, que está dividida. Isso significa que a China é boa em gestão de crises, mas é ineficaz na resolução de crises da questão nuclear. A Coreia do Sul não consegue distinguir as duas. Xi não pressionará Kim a desistir de armas nucleares, mas ele pode dizer a Kim para atenuar as provocações“.

Uma mudança na administração dos EUA também pode ser boa para Moon, de acordo com o professor Delury.

O presidente Moon pode ter mais uma chance de progredir em direção à paz se houver uma mudança de administração em Washington. A transição para um novo presidente dos EUA abriria possibilidades, embora o sucesso exija habilidade diplomática extraordinária, coragem política e uma dose de boa sorte“.

Perspectiva de Unificação

Imagem: The Korea Times

Setenta anos após o início da trágica guerra, alguns coreanos se perguntam se a unificação ainda é uma meta atingível a longo prazo. Mas especialistas dizem que é melhor permanecerem separados até que possam realmente aprender a conviver e coexistir primeiro.

No futuro próximo, é melhor que as pessoas estejam separadas até que aprendam a se entenderem – em outras palavras, que possam coexistir pacificamente. Nenhum dos lados parece pronto para a unificação. Seria importante o suficiente, alcançar a paz“, disse Delury.

As diferenças ainda parecem tão grandes que tornam a unificação pacífica um sonho impossível“, afirmou Kirk.

Não parece haver maneira de a Coreia do Norte e do Sul concordar em unificar dois sistemas tão diferentes. Enquanto a dinastia Kim e o sistema de controle total do Estado prevalecerem na Coreia do Norte, a reunificação pacífica não acontecerá. Melhor que o Norte e o Sul permaneçam separados até que seja possível a adoção de um sistema de coexistência. 


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