Navios de pesca japoneses no final do século XIX Imagem: Coleção de Robert Neff

Uma das primeiras tentativas ocidentais em estabelecer comércio com a Coreia, aconteceu no verão de 1791, pelas bandeiras de navegações inglesas comandadas pelo Capitão James Colnett. O navio de 400 toneladas contava com uma tripulação de 19 homens (além do capitão), assim como o prussiano Thomas Beal, o jovem irmão de um dos donos do navio, e um chinês “contrabandeado a bordo do navio, que pretendia ser um intérprete japonês“.

Os marinheiros (argonautas) partiram de Macau em 27 de julho, com uma carga de peles. Em 9 de agosto, a Ilha Jeju foi avistada mas nenhum contato foi feito com os nativos. Depois navegaram ao longo da costa ocidental do Japão, tiveram uma série de encontros com barcos japoneses, que aparentemente pensaram que eles eram marinheiros holandeses que haviam se perdido. Cuidadosamente, os japoneses apontaram na direção de Nagasaki, ao mesmo tempo em que deixavam clara a importância dos ocidentais deixarem os arredores.

No entanto, a frota continuou a explorar a linha costeira e no dia 16 de agosto encontraram um “pequeno esquadrão de juncos (grandes embarcações de origem chinesa)”, que tentaram segui-los sem sucesso, em razão das embarcações japoneses se mostrarem mais rápidos que as europeias. Na manhã seguinte, nas proximidades de um extenso vilarejo, os marinheiros britânicos novamente encontraram um grande número de navios japoneses não muito distantes dali, buscando por informações.

Colnett enviou um de seus pequenos barcos com um grupo de navegadores ao encontro dos navegadores japoneses, na esperança de que pudessem se comunicar. Enquanto esperavam pelo retorno da embarcação, alguns dos homens a bordo avistaram e recuperaram um modelo de embarcação japonesa flutuando na água.

A Chegada De Marinheiros Ingleses À Coreia Em 1791
A área de tongyeong no início do século xix
imagem: coleção de robert neff

Havia um pedaço de papel preso ao mastro que, de acordo com o tripulante chinês, era uma oferta da tripulação japonesa em agradecimento pelo retorno seguro que fizeram de um país rico do leste. O tripulante inglês, que recebeu o navio, foi avisado pelo colega chinês para não aceitar, uma vez que havia um par de barcos japoneses próximos observando atenciosamente o que os forasteiros fariam com a oferta. Colnett acrescentou alguns “pequenos artigos” e carimbou o papel com a identificação do navio — tanto em inglês e chinês — e então soltou a embarcação.

Logo se tornou claro que eles não eram bem-vindos — assim como em experiências anteriores no Japão —, e então navegaram para a Ilha Tsushima. Os nativos ali não eram amigáveis, e quando os ingleses navegaram para o porto de Tsushima, foram recebidos por barcos armados e uma tripulação que deixou claro que as ordens eram de “serem cegos e surdos” para quaisquer solicitações que o capitão inglês pudesse fazer.

Em um esforço para conquistá-los, Colnett apresentou-os um par de peças feitas de pele de lontra. Ele foi recompensado com uma pequena quantidade de água, mas ainda assim os nativos permaneceram inflexíveis sobre a entrada da tripulação inglesa. Destemido, Colnett então decidiu esperar que saíssem.

Por volta da noite, um grande grupo de homens navegaram até a frota inglesa, com intensão claramente nada amigáveis. Colnett então ordena primeiro um mosquete, e depois um três-libras, de abrir fogo nas proximidades dos hostis moradores da ilha. Os disparos desencorajaram temporariamente a sua aproximação, mas era claro que a presença inglesa não seria tolerada por muito mais tempo.

A Chegada De Marinheiros Ingleses À Coreia Em 1791
O antigo porto de tongyeong na colecção de 1910
imagem: coleção de robert neff

Convencido de que poderia ter mais sorte na Coreia, Colnett partiu em direção à costa inexplorada. Em 25 de agosto, os navios ingleses “estabeleceram a terra coreana” (provavelmente em algum lugar próximo a Tongyeong, na província de Gyeongsang do Sul), e foram recebidos “de braços abertos, sem qualquer sinal de pavor ou apreensão”.

Diversos navegadores coreanos embarcaram no navio inglês e tentaram estabelecer algum contato, entretanto o intérprete não foi capaz de compreender uma palavra sequer. O “comportamento extremamente amistoso” dos coreanos, e suas constantes sinalizações em direção à costa, fizeram Colnett de alguma forma ficar apreensivo. E tal apreensão foi notada por muitos coreanos que “pareciam estar barrando suas casas com arbustos”.

Um dos tripulantes ingleses embarcou em um dos navios coreanos e começou a sondar a baía. O barco foi se afastando lentamente da segurança do navio inglês e, para desagrado e suspeita de Colnett, um dos coreanos — provavelmente ao estilo “olho por olho” — tentou assumir controle do navio inglês. Esse ato foi a gota d’água.

A tripulação inglesa se armou e deixou claro que o seu homem a bordo da embarcação coreana fosse trazido de volta imediatamente. De má vontade, os coreanos cumpriram o pedido, recuando com seus barcos uma curta distância, mas com uma tripulação que parecia continuar a se questionar de atacar ou não. Mas com uma mudança repentina do tempo, o vento forte e a subsequente agitação do mar desencorajaram a maioria dos coreanos, com exceção de um barco que se aproximou e, de acordo com Colnett, gesticulou suas intenções em “bater bater em nossos cérebros com um taco”.

A Chegada De Marinheiros Ingleses À Coreia Em 1791
Um barco coreano no final do século xix
imagem: coleção de robert neff

Seguindo o protocolo, Colnett ordenou que seus homens abrissem fogo com seus mosquetes sobre as cabeças dos marinheiros coreanos. Mas suas ordens “foram excedidas”, e os tiros foram em direção aos barcos, ferindo um dos marinheiros. Assustados e justamente indignados, os coreanos retornaram para seu vilarejo e a tropa inglesa abandonou a segurança questionável da baía — a salvo das condições climáticas mas não da fúria dos anfitriões asiáticos —, resistindo ao mar agitado.

Na manhã seguinte, os inglêses partiram para a China, desembarcando no dia 6 de setembro. Colnett, mais tarde, reportou que os habitantes da costa sul da península coreana, bem como de Tsushima, não eram nada mais do que piratas e não estavam sujeitos aos chineses. O capitão então aconselhou que quaisquer tentativa de estabelecer comércio naquela região deveria sempre ser feita “sob o uso de artilharia”.

Quase um século mais tarde, a Diplomacia de Canhoneiras (Gunboat) abriu comércio com a Coreia.

Robert Neff, autor original deste texto, foi autor e co-autor de vários livros, incluindo, Letters from Joseon, Korea Through Western Eyes e Brief Encounters.


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