O ‘Movimento 1º de Março’ está completando 100 anos. Como sabem foi um dos maiores movimentos nacionalistas ocorridos na Coreia durante a resistência à colonização Japonesa (efetivada em 1910).

O 1º de Março é comemorado com louvor, sendo uma das datas mais importantes no calendário coreano (junto com Ano Novo Lunar e Chuseok). Não por menos, foi um dia histórico, a criação de um fato: a Coreia pertencia ao povo coreano e o mundo deveria ouvi-los.

No calendário, 1º de Março é dito como “Dia da Independência”, mas sabemos que de fato não provocou a independência da Coreia contra o Japão. Além disso, não foi um movimento exclusivo. Quero dizer, movimentos nacionalistas de resistência a dominações estrangeiras já se formavam no final do século XIX e por diversas razões e ideologias. Então porque o 1º de Março é um marco na história da Coreia?

Sabemos o básico de como aconteceu a colonização japonesa na Coreia. Em fevereiro de 1876, Kuroda Kiyotaka desembarcou em Kanghwa com uma força militar substancial, exigiu uma redenção coreana e insistiu que a Coreia abrisse relações diplomáticas e comerciais com o novo governo japonês.  Enfraquecido, o governo coreano assinou o Tratado de Kanghwa, no qual a Coreia reconhecia a nova administração do Japão e concordou em abrir o porto de Busan e outros para os japoneses. O tratado implicou que a Coreia fosse reconhecida como um Estado livre do Estado chinês. Essa concepção, para a comunidade internacional, implicava que a Coreia estava ao dispor do Japão.

Assim, iniciou-se a definição da península coreana como colônia do Japão em seus anos de império. Desestruturada socialmente, a península estava subjugada ao total domínio japonês.

A mudança de um cenário mundial orientou as transformações politicas que serviram de ‘pontapé inicial’ para o movimento acontecer.

Com o fim da Primeira Guerra Mundial, os acordos assinados em Paris na Conferencia de Paz de Versalhes em janeiro de 1919, incentivou a libertação de diversas colônias ao redor do mundo. Isso por que o Tratado de Paz garantia liberdade para muitas colônias e assim, inspirou esperança dos povos colonizados através do mundo.

O rápido crescimento econômico e prestigio internacional japonês com o fim da guerra foi outro estopim a aumentar o descontentamento do povo coreano, pois estava cada vez mais oprimido e dominado.

Apesar de internamente o movimento nacionalista ter sofrido enormes bloqueios através da opressão militar japonesa, motivados com tratados de libertação em outros países, alguns movimentos nacionalistas coreanos atuantes fora do território coreano aumentaram, influenciando alguns grupos que lutavam pela independência coreana.

Exilados na China e Japão, e mesmo na península, diferentes grupos já estavam discutindo a independência desde o inicio de 1919, e com a chegada dos estudantes coreanos de Tóquio com as noticias e com a aclamação de independência, organizaram-se em atividades de grupos distintos, mas que previam ação total e pacifica.

Contudo, o grande estopim foi a morte do Rei GoJong e rumores de que japoneses o envenenaram, porém, simularam um ato de suicídio.

Tirando vantagem da larga elite, que estaria presente no funeral, marcada para chegar em Seul em 3 de março, os grupos de independência se organizaram. Com liderança de grupos religiosos e através de uma petição, que seria enviada ao governo dos Estados Unidos, Japão e Conferência de Paris, os assinantes foram cuidadosos ao enfatizar que o protesto não seria violento, pois não era esperada a criação de uma massa repressora e violenta.

Ativistas coreanos no Movimento 1º de Março. [Fonte:http://blog.daum.net/_blog/BlogTypeView.do?blogid=0cAar&articleno=1628&categoryId=25&regdt=20170301120711]
A leitura da petição aconteceu em um restaurante em 28 de fevereiro de 1919 por razão de segurança, mas uma pessoa com a cópia do documento, entusiasmado, saiu às ruas, lendo o documento, iniciando assim uma marcha pelas principais ruas do país aglomerando pessoas que sonhavam com a liberdade.

Assim, as ruas de Seul foram o local da demonstração do desejo de independência nacional.Essa movimentação iniciou-se em Primeiro de Março de 1919, com aproximadamente um milhão de participantes, em sua maioria, com atos pacíficos, muito embora houvesse alguns grupos violentos e radicais em algumas cidades.

Mas então, após quase dez anos de ser oficializada a situação da Coreia como colônia, o Tratado de Paz não foi o suficiente? Você pode se perguntar: por que se a petição de independência criada em 1º de Março não foi o bastante para realmente concretizar a “independência”, que só ocorreria em 1945 com o fim da Segunda Guerra Mundial?

Pois bem, o fato de que o movimento não atraiu o resultado da independência ao menos serviu como um anúncio do descontentamento e poder da população. A ênfase no sentimento nacional foi de grande impacto interpretado por outras colônias e movimentos nacionalistas como na China e Índia. Obviamente todas as colônias possuíam os mesmos desejos de independência e formações de movimentos de resistência.

Na China, os movimentos que levaram ao Quatro de Maio, se assemelha à Coreia pelo período e de características anti-japoneses.

Não estou dizendo que o 1º de Março foi o grande influenciador de revoltas e movimentos posteriores a 1919 nas colônias, mas devido atenção que foi chamado no estrangeiro, possibilitou um apoio maior nacional em cada colônia particular.

Além disso, as relações internacionais de outros países imperialistas voltassem à atenção ao pedido da Coreia de independência. Estados Unidos tomou parte das tendências de independências mundiais. Não somos ingênuos em achar que as intenções eram puras, afinal haviam interesses maiores em acabar com a colônia japonesa na Coreia. Mas isso é tema para outro dia.

Movimento 1º de Março [Fonte:https://www.koreaboo.com/uncategorized/idols-celebrate-96th-anniversary-march-1st-movement/]
Cria-se um fato a partir de movimento histórico que de certa forma, oculta outros acontecimentos que fazem parte do próprio movimento. Sugerindo que esses acontecimentos deixados de lado, não necessariamente acumulam importância para aquele tempo vivido dentro da organização politica do país. Pode ser algo técnico de historiadores, mas faz entender um pouco o motivo desse 1º de Março ser tão valioso para a história da Coreia.

Podemos ver como a transformação de um movimento pequeno e isolado criado por intelectuais, mas que com o decorrer foi unindo, grupos descontentes de mulheres, pobres, não elites, e população descontente.

A visão da sociedade como uma nação emergiu e se espalhou internacionalmente a partir disso. Ao menos o movimento encorajou através de seus esforços, uma imagem independente possível num ponto de vista politico. Internamente, não foi atingido o objetivo de independência, mas criou uma atmosfera politica voltada para a condição da Coreia, revelando a real importância do movimento.

Hoje, monumentos, homenagens, museus, afirmação da memória do povo coreano continua a exaltar este fato, essa criação de história. Já foram cem anos, e certamente nunca será uma memória apagada. Não houve independência em termos políticos, mas certamente o sentimento florescido jamais se despedaçou.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.



DEIXE UM COMENTÁRIO

Por favor, digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome.