A maioria das pessoas imaginam a seguinte situação sobre uma família durante a Dinastia Joseon (1392–1910):

Uma unidade social dominada por homens – consistindo de um pai rígido como chefe da família; uma mãe submissa que se sacrifica pelo marido e pelos filhos; um filho que se prepara arduamente para a promoção social e uma filha que se casou e não é mais considerada uma integrante oficial de sua família.

Esta imagem reflete uma família Joseon ‘tradicional’, de status superior, refletindo o princípio da separação entre homens e mulheres e outros valores confucionistas. No entanto, é errado concluir que esta imagem conta toda a história do Período Joseon.

Tal como acontece com outros aspectos da sociedade, a família estava continuamente se transformando em termos de forma e conteúdo ao longo dos 500 anos da era Joseon. A melhor maneira de aprofundar nosso conhecimento sobre a instituição da família nessa época é nos familiarizarmos com suas várias facetas.

Casamento e Acordo

A Família na Era Joseon: Expectativa x Realidade
Imagem: Ilustração da artista 유환영 (Korea Heritage)

O proeminente estudioso confucionista Yi I (1536–1584) nasceu em uma casa conhecida como Ojukheon (Casa de Bambu Preto) em Gangneung, província de Gangwon-do. Era a casa de sua mãe.

Como a maioria dos integrantes da classe alta (yangban), Yi I nasceu e foi criado na casa de sua mãe. Essa experiência estava profundamente associada à prática do casamento na época. Na cultura coreana, o casamento é descrito com a expressão “ir para a casa de sua esposa” no caso dos homens e “ir para a casa do marido” para as mulheres.

Ir para a casa de sua esposa” era a norma nos primeiros séculos da era Joseon – O noivo ia para a casa da família da noiva, completava a cerimônia de casamento e residia lá por um período de tempo. Era natural ter filhos e criá-los na casa da noiva.

O diário do acadêmico oficial Yu Hui-chun descreve uma história semelhante. Yu nasceu em Haenam em 1513 e, aos 24 anos, casou-se com uma mulher de Damyang com o sobrenome Song.

Após o casamento, Yu e sua esposa continuaram a morar em suas respectivas cidades natais. Esse período de separação se estendeu quando Yu passou por reviravoltas inesperadas em sua vida. Ele passou nos exames para o serviço público dois anos após seu casamento e rapidamente ingressou no serviço público em Seul.

Ele foi banido por motivos políticos depois de ocupar uma série de cargos oficiais, mas depois voltou ao funcionalismo. Somente mais tarde, Yu e sua esposa puderam se estabelecer no mesmo lugar. Eles acabaram em Damyang, a cidade natal de sua esposa. Com isso, os filhos de Yu e Song cresceram na casa dos avós matrilineares.

Esse costume de morar na casa da noiva após o casamento estava intimamente ligado a outro fenômeno social nos séculos 15 a 16. Este foi o período em que as famílias com status yangban foram obrigadas a selecionar uma aldeia específica para estabelecer sua residência permanente e, na maioria das vezes, eles escolheram a cidade natal da esposa.

Essas práticas sociais de realizar a cerimônia de casamento na casa da noiva, morar lá por um certo período de tempo e estabelecer residência permanente na cidade natal da esposa – embora seja difícil desvendar as causas dos efeitos – ocorreram concomitantemente, definindo as tradições da família nos primeiros séculos da Dinastia Joseon.

Perpetuação de uma Linhagem

A Família na Era Joseon: Expectativa x Realidade
Imagem: Ilustração da artista 유환영 (Blog da artista – Naver gaeul93)

A principal prioridade de uma família como um grupo de pessoas que traçam sua descendência de um ancestral comum era a perpetuação da família.

As pessoas da era Joseon buscavam isso por meio da herança de propriedades e do culto aos ancestrais. Um exemplo útil pode ser encontrado nos documentos sobre herança de propriedade pela família Yi de Jaeryeong. Seus documentos de herança abrangendo seis gerações, de 1494 a 1664, ditam o princípio de herança igual entre todos os filhos.

Nenhuma diferença na quantidade de propriedade legada é feita entre o primogênito e outros filhos ou mesmo entre filhos e filhas. Uma herança igual entre os irmãos era a norma na época, conforme confirmado nos documentos de herança de outras famílias.

O princípio da herança igual foi prescrito pelo Código Nacional da Dinastia Joseon (Gyeongguk Daejeon).

Esses filhos e filhas cumpriam igualmente as obrigações do culto aos ancestrais. O estudioso confucionista Gwon Ho-mun (1532–1587) pediu a seus filhos, em seu testamento, que observassem os ritos ancestrais de três gerações anteriores, ou seja, seus pais, avós e bisavós.

Isso representaria um grande número de ritos todos os anos. Eles precisavam ser realizados nos aniversários da morte de ancestrais individuais e em feriados sazonais, como o Dia de Ano Novo, o Quinto Dia do Quinto Mês Lunar, o Dia da Comida Fria e o Chuseok (o Dia de Ação de Graças na Coreia).

Somado a essas ocasiões, havia vários tipos de serviços a serem realizados nas sepulturas. O pesado fardo da adoração aos antepassados ​​não foi colocado sobre um integrante em particular, mas sim distribuído igualmente entre todos, tanto filhos quanto filhas.

Os filhos e genros se revezavam todos os anos para cumprir o dever de adoração aos ancestrais.

Como cada pessoa deveria assumir os deveres a cada vários anos, havia um alto risco de perder inadvertidamente as datas apropriadas para os ritos ancestrais. Para evitar isso, aqueles que compartilham as obrigações de culto criaram um documento conhecido como “registros não esquecidos” (bulmanggi) para listar as datas dos ritos e a ordem dos mestres rituais.

A adoração aos ancestrais era prioridade para uma família yangban, e era compartilhada igualmente entre os filhos e filhas.

Imaginação e Realidade

A Família na Era Joseon: Expectativa x Realidade
Imagem: Ilustração da artista 유환영 (Blog da artista – Naver gaeul93)

Até certo ponto da Dinastia Joseon, a instituição social familiar funcionava de forma diferente do que se poderia imaginar hoje – não existia discriminação entre filhos e filhas na herança de propriedades ou no cumprimento das obrigações de culto aos antepassados.

Pesquisas revelaram que alguns dos elementos que sustentam essa prática familiar foram herdados da dinastia anterior, Goryeo, e alguns foram introduzidos posteriormente. No entanto, é difícil definir o momento em que todos esses elementos se juntaram para dar origem a essa estrutura.

O que é mais certo é quando começou a se transformar. Esta estrutura familiar, dos primeiros anos da Dinastia Joseon, experimentou sinais de mudança na segunda metade do século XVII. Muitos presumem que essa mudança tomou uma trajetória linear em direção ao destino final de respeitar perfeitamente os ditames confucionistas.

Se eles estivessem certos, essa transformação deveria ter ocorrido diretamente de “ir para a casa de sua esposa” para “ir para a casa de seu marido”; de viver na casa da noiva para viver na casa do noivo; de herança igual para o sistema de primogenitura, e de obrigações rituais rotativas para colocar todas as responsabilidades sobre o filho primogênito.

Essa visão da transformação da família apoia o surgimento da imagem estereotipada da família Joseon dominada por homens, amplamente difundida em todo o país atualmente.

No entanto, não foi exatamente isso o que aconteceu: a transformação foi menos clara em sua direção. O primeiro item a ser examinado é o local da residência e o ‘pós-casamento’.

A forma de casamento preferida pelo confucionismo envolve trazer a noiva para a casa do noivo, realizar o casamento e, em seguida, residir lá. Essa forma confucionista não era praticada com perfeição, na verdade, ela foi adaptada aos costumes locais para produzir um tipo híbrido de casamento confucionista.

Nesta nova versão, o noivo ainda ia até a casa da noiva para o casamento, mas o casal não residia lá após a cerimônia. Após a cerimônia de casamento, o noivo voltava para sua casa e, meses ou às vezes anos depois, a noiva ia à casa do noivo, realizava uma cerimônia pyebaek (um ritual coreano que apresentava oficialmente a noiva à família do noivo) e começava a morar lá.

De acordo com estudos, o intervalo temporal entre o casamento oficial e a cerimônia de pyebaek diminuiu com o tempo, mas a prática de realizar o casamento na casa da noiva continuou como norma nas áreas rurais até meados do século 20.

Em seguida, a herança de propriedade e as obrigações rituais não mostraram um caminho claro de evolução na direção esperada. A prática anterior de compartilhar o direito à herança de propriedade e o dever de adoração aos ancestrais igualmente entre todas as crianças foi abandonada no final do século 17, mas o governo da primogenitura agnática não criou raízes até o século 19.

Existem documentos de herança do século XVIII e posteriores que pedem a participação em ritos ancestrais dos filhos e filhas. Em uma família yangban na região de Jeolla, os pais exigiram que seus filhos voltassem à prática anterior de rotatividade de obrigações.

A sabedoria convencional diz que a transformação experimentada pela sociedade Joseon a partir do século 17 é nitidamente definida pelo fortalecimento dos ditames confucionistas e o subsequente estabelecimento de uma forma patriarcal de família.

Na prática, entretanto, a filosofia chinesa importada do neoconfucionismo fundiu-se com as tradições locais para alterar a instituição familiar na Coreia. A transferência para um sistema de primogenitura agnática foi gradativa e ainda estava em andamento no século XIX.

Pode-se concluir que a transformação confucionista da instituição familiar coreana foi menos sobre um puro reflexo dos ditames confucionistas e mais sobre negociação e adaptação. Esse processo resultou em uma instituição familiar que não pode ser definida por uma única imagem.

Ao levar em consideração a dinâmica que ocorre nas classes abaixo do yangban, qualquer tentativa de representar as realidades das famílias Joseon por meio de um estereótipo particular torna-se impossível. As famílias pré-modernas deviam ter formas tão diversas quanto as do presente.

Parece que é hora de abandonar nossa imagem fixa das instituições da família Joseon e começar a explorar sua diversidade e dinâmica.


Disclaimer: As opiniões expressas em matérias traduzidas ou em colunas específicas pertencem aos autores orignais e não refletem necessariamente a opinião do KOREAPOST.

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