Este ano, 2019, comemora-se o centenário do primeiro movimento de independência da Coreia, chamado de Movimento Samil, que foi inspirado nos 14 pontos propostos por Woodrow Wilson – então presidente dos EUA – para as negociações de paz que poriam fim à Primeira Guerra Mundial.

Background Histórico

A ocupação japonesa começou em 1910 e, apesar dos esforços coreanos, terminou apenas em 1945. De início, a Coreia havia assinado, em 1905, um tratado que a tornava um protetorado do Japão. O tratado de anexação da península nunca foi assinado pelo Imperador Gojong.

Todo o período foi marcado pela exploração. A industrialização da Coreia foi acelerada para benefício japonês e toda cultura e história coreana foi marginalizada.

Em janeiro de 1919, o imperador morreu. Até hoje existem suspeitas que ele, assim como outros líderes, foi envenenado pelos japoneses. As suspeitas são críveis, já que outras tentativas de assassinato são bastante conhecidas.

Como Aconteceu

No dia 1 de março de 1919, às 14h, os líderes do Movimento Samil se reuniram no restaurante Taehwagwan e leram, em voz alta, a declaração de independência da Coreia. O Governador-Geral japonês, foi comunicado e, formalmente informado que os coreanos rejeitavam a dominação japonesa. Todos foram presos no próprio restaurante.

A cerimônia aconteceria no parque Tapgol, porém os 33 líderes preferiram conduzi-la em um lugar mais privado – alguns dizem que por medo de uma revolta popular.

Movimento 1º de março - Tapgol
Coreto do parque Tapgol. Foto: Wikipédia | Steve46814

No parque, estudantes se reuniram para ouvir a declaração. Como os líderes não aparecessem, um estudante – cuja identidade até hoje não é um consenso – foi ao centro do coreto, localizado no meio do parque, e passou a ler o documento.

Após a leitura, os demais começaram com os gritos de “manse“, ou “vida longa” e começaram a marchar pelas ruas, passando por lugares como o escritório da YMCA, a infame delegacia Jongno e pelo Bonsingak.

Durante a caminhada, milhares de cidadãos, de mercadores a visitantes de outras províncias que estavam em Seul para o enterro do Imperador, se uniram aos estudantes. Muitos levaram a proclamação de independência para suas cidades natal.

Grande Participação, Grande Violência

Os protestos se espalharam pela Coreia toda. Fora de Seul, “delegados” liam a declaração de independência, todos ao mesmo horário, às 14h do dia 1 de março.

As autoridades japonesas passaram a reprimir as manifestações com violência, chamando o exército e até mesmo a marinha. Então, notícias de atrocidades começaram a chegar. Uma das mais notáveis aconteceu na vila Je-am-ri. Os policiais japoneses prenderam os protestantes na igreja e a queimaram, atirando em todos que tentavam fugir.

Apesar dos números oficiais serem de 553 mortos e cerca de 12 mil presos, estudiosos coreanos (com apoio da Enciclopedia Britannica) dizem que mais de 7,5 mil protestantes foram mortos, quase 16 mil ficaram feridos e 47 mil, presos.

O Papel Fundamental das Estudantes

Movimento 1º de março - Mulheres sendo presas
Mulheres coreanas sendo presas após gritarem “manse!”

Claro que os protestos não aconteceram apenas no dia primeiro, os japoneses levaram um ano para controlar a revolta. Aproximadamente 2 milhões de coreanos participaram dos mais de 1.500 protestos que aconteceram.

Grupos religiosos se envolveram, lojistas fecharam suas lojas durante semanas e a imprensa underground foi usada extensamente. Porém, um dos grupos mais engajados foi o de estudantes.

Muitas escolas ficaram fechadas durante o mês de março e, segundo estatísticas japonesas, mais de 11 mil estudantes participaram dos protestos.

Frederick Arthur McKenzie escreveu, em 1920:

“O MAIS EXTRAORDINÁRIO DO LEVANTE COREANO É O PAPEL FEMININO. A MENOS DE 20 ANOS, UM HOMEM PODERIA VIVER POR ANOS NA COREIA E NUNCA TER CONTATO COM UMA MULHER DAS CLASSES MAIS ALTAS, NUNCA ENCONTRÁ-LA NA RUA, NUNCA VÊ-LA NA CASA DE SEUS AMIGOS COREANOS”.

Isso acontecia graças à cultura Confuciana, por isso o espanto. As mulheres só haviam começado a estudar no começo do anos 1900.

De acordo com Jung Yoseob, em seu livro A História dos Movimentos Femininos na Coreia: Focando no Movimento Nacional durante a Ocupação Japonesa, publicado em 1971, as mulheres queriam um modelo de educação que não as transformasse no padrão japonês de “boa mulher”, mas, sim, que melhorasse seu status.

Apesar de poderem estudar, as mulheres ainda tinham mobilidade limitada, necessidade da permissão de seus pais para saírem. Além de tudo, não podiam falar sobre política ou sociedade.  Mesmo com tantas restrições, as estudantes organizaram os protestos manse e participaram ativamente do Movimento Samil.

De acordo com Park Yongok, autor do livro Estudo do Movimento Feminino Anti-Japonês, as estudantes encorajaram a multidão e guiaram os protestos, mesmo com a grande repressão japonesa, que nem mesmo os homens tinham coragem de enfrentar.

As mulheres começaram, diziam as notícias

Em 1919, o Maeil Shinbo estava inundado de histórias sobre os protestos que aconteciam em todos lugares, com manchetes como “As estudantes começaram”, “Revolta das estudantes”, “Conspiração das estudantes” ou “Velho Masan – haviam muitas mulheres”.

Existe, inclusive, um livro que comenta sobre a participação feminina e que comemora o aniversário – na época do lançamento – de 60 anos dos protestos: A História do Movimento Feminino de Independência: 60º Aniversário do Movimento Samil.

O livro Os 80 Anos de História da Ehwa diz: “Não há como sabermos os nomes das estudantes que foram presas por liderarem os protestos“.

Movimento 1º de março - Yu Gwansu
Yu Gwansu. Foto: Wikipedia

Não é a toa de Yu Gwansu é tida como a grande heroína dos protestos. Uma jovem estudante que deu sua vida pelo próprio país.

Em 27/02, foi lançado um filme inspirado na heroína do Movimento Yu Gwansu – Resistance: The Yoo Kwan-soon Story. Confira o trailer abaixo:

O que aconteceu depois

Os líderes do movimento se exilaram na Manchúria, Xangai e em outras partes da China, de onde continuaram suas atividades através da criação de um Governo Provisório da República Coreana, em Xangai.

Movimento 1º de março - Líder do governo provisório, 1919
Líderes do Governo Provisório, criado em Xangai.

O movimento inspirou a resistência não-violenta – contra o Império Britânico – na Índia, e em outros países também.

Depois das revoltas, o Governador-Geral foi trocado, a polícia militar substituída por uma força civil e a imprensa conquistou uma liberdade limitada. Infelizmente, muitas dessas conquistas foram revogadas durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa.

No dia 24 de maio de 1949, o dia 1º de março foi decretado feriado nacional da Coreia.


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