Um bonde passa pela Porta Oeste, por volta do início do século XIX. Imagem: Coleção de Robert Neff

Os bondes elétricos começaram a operar em Seul em 1899. Esse foi um período marcado por grandes mudanças, e um dos maiores problemas enfrentados pelo operador Seul Electric Street Railroad foi o tempo.

Os relógios da época, feitos no exterior, eram extremamente valiosos na Coreia e muitas vezes eram dados como presentes caros. Em julho de 1883, um oficial coreano visitando o Japão comprou diversos relógios de ouro cravejados em diamante de um mercador americano, como um presente para o monarca e sua rainha.

Em 1892, um americano observou: “Os coreanos possuíam uma curiosa propensão a relógios de cuco. O cuco é um nativo da península [coreana] e a população parece não se cansar de entrar em lojas para ouvir o grito dos pássaros, que saem de dentro dos relógios e indicam as horas. Dezenas desses estão presentes em lojas chinesas, que sempre vendem facilmente por um bom valor”.

No entanto, aqueles que não podiam comprar um relógio eram forçados a se contentar com outros métodos para contar o tempo, como um grande sino usado para sinalizar a abertura e fechamento dos portões da cidade (uma prática que, ironicamente, terminou com a introdução dos bondes). De acordo com outro visitante ocidental em 1893, pessoas comuns “também calculavam o tempo pela quantidade de cachimbos fumados. Assim, você os ouvia dizer ‘Ele apenas parou tempo suficiente para fumar um cachimbo'”.

Entretanto, os bondes não podiam funcionar com base em um horário ditado pelo número de cachimbos fumados por seus motoristas e condutores. O gerente da empresa, James H. Morris, recordou: “Assim que estabelecemos os horários, encaramos o nosso primeiro problema. Por serem caros, havia poucos relógios, e a maioria dos nossos homens não sabiam dizer as horas. Então nós realizamos aulas noturnas para instruí-los em como ver o horário. Após alguns deles já conseguirem fazer isso, pudemos colocar os veículos para funcionar dentro de um horário”.

Contudo, os problemas não pararam por ai. As vezes, a cultura os impedia de checar as horas. Um motorista partiu 20 minutos atrasado porque ele estava discutindo questões familiares com um parente do interior. Morris deixou claro que se isso voltasse a acontecer, o motorista iria aproveitar uma folga muito longa sem receber qualquer pagamento.

Como A Chegada De Bondes Elétricos Transformou A Era Joseon
Mulheres embarcando em um nonde elétrico por volta de 1900. Imagem: coleção de robert neff

A Yangban (aristocracia coreana) ― que era famosa por ter um ritmo lento mas digno ― teve que se adaptar rápido. Os bondes “não ficavam demorando nem mesmo face às exigências dos criados de um dos aristocratas, e mesmo quando o próprio aristocrata simplesmente parava nos degraus do vagão e dava algumas ordens aos seus homens, era provável que o veículo fosse embora e o deixasse ali parado na estrada”.

Não só os bondes exigiam pontualidade dos Yangbans, como também sua complacência em viajar com plebeus. Os choques de cultura eram muitas vezes divertidos: “Outro problema era fazer as pessoas que andavam no veículo que mantivessem seus sapatos calçados. Eles os deixavam na plataforma. Esta era uma situação complicada, uma vez que causavam atrasos na procura dos sapatos, que caíam aos redores nas curvas. Levamos mais de um ano para que as pessoas entendesse que aquele era um lugar indelicado o suficiente para continuarem usando os sapatos assim que entrassem”.

Um dos exemplos mais divertidos envolveu um funcionário coreano chamado Yun In-sik. Ele era encarregado da emissão de passagens na última parada perto do túmulo da Rainha Min (Imperatriz Myeongseong) e era constantemente incomodado. O custo das passagens do túmulo até o portão leste era de cinco cents, mas os passageiros sempre tentavam viajar por um preço mais baixo. Eventualmente, ele resolveu esse problema ao aumentar o preço em seis cents e então passou a permitir que os passageiros pagassem apenas cinco [como se fosse um desconto].

Como A Chegada De Bondes Elétricos Transformou A Era Joseon
Um bonde elétrico na estrada para o túmulo da rainha min, próximo ao início do século xix. Imagem: coleção de robert neff

A inteligência de Yun e seu talento comercial não passaram despercebidos e logo ele foi transferido para uma nova estação próxima a Yongsan. Ele foi encorajado a escolher um nome em inglês (talvez para facilitar com seus supervisores estrangeiros) e rapidamente começou a assinar todos os documentos como “A.N John”. Após alguns meses, um de seus supervisores perguntou o que “A.N” significava, e ele respondeu calmamente, “American Name” (Nome Americano).

O tempo desempenhou um papel importante em alguns acidentes envolvendo bondes. As vezes, os passageiros tentavam entrar ou sair do veículo antes que ele parasse, e acabavam caindo debaixo das rodas. Um incidente particularmente horrível aconteceu em uma noite de verão quando o último bonde estava atrasado e três homens cansados ― acreditando que o bonde já havia passado ― decidiram usar trilho como travesseiro, e acabaram sendo decapitados quando o bonde finalmente apareceu.

Ocasionalmente, as pessoas intencionalmente pulavam em frente aos bondes ― não porque elas eram suicidas, mas por acreditarem que eles estavam assombrados por fantasmas. Eles pensavam que se eles tivessem um timing perfeito, o bonde simplesmente passaria através deles e levariam seus fantasmas, sem os atingir.

Havia outras superstições associados aos bondes. Alguns acreditavam que as frequentes secas eram culpa da perturbação causada pelos bondes no sono dos dragões que habitavam sobre a cidade. Outros afirmavam que os cabos de eletricidade sugavam a umidade das nuvens.

Como A Chegada De Bondes Elétricos Transformou A Era Joseon
Um bonde elétrico em seul, por volta de 1902. Imagem: coleção de robert neff

De acordo com Morris, um dia quando ele estava na central elétrica do portão leste, ele encontrou um velho senhor de Gangneung (na costa leste) que estava de passagem. O senhor disse a Morris que ele havia ouvido histórias inacreditáveis de pessoas que diziam ter visitado Seul. Antes de morrer, ele gostaria de ver com seus próprios olhos as pequenas casas que foram puxadas pelas ruas por cordas no ar e as luzes que iluminavam sem o uso de fósforos e fogo (luzes elétricas).

Morris atendeu à curiosidade do homem e o mostrou os arredores, explicando como cada coisa funcionava. O senhor ficou verdadeiramente impressionado e quando chegou a hora dele ir embora, disse a Morris que tudo o que havia ouvido sobre Seul e as maravilhas da eletricidade eram verdade. Contudo, ele estava determinado a guardar esse conhecimento para si quando retornasse para sua casa, porque ele tinha certeza de que todos o acusariam de mentir. E, assim que chegasse a hora dele deixar este mundo para trás, ele não queria ser lembrado como um mentiroso.


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