Tropas norte americanas desembarcando em Pohang, na costa leste da Coreia, em julho de 1950, durante a Guerra das Coreias. Foto: Associated Press

A Guerra da Coreia tem sido chamada de “A Guerra Esquecida” nos Estados Unidos, onde a cobertura dos conflitos da década de 1950 foram censurados e a sua memória de décadas passadas é frequentemente ofuscada pelas Segunda Guerra Mundial e Guerra do Vietnã.

Mas o conflito de três anos da Coreia, que marcou a oposição de forças comunistas e capitalistas, marcou um cenário de décadas de tensão entre Coreia do Norte, Coreia no Sul e Estados Unidos.

Ele também contribuiu com o tom de rivalidade Soviético-Estadunidense durante a Guerra Fria, que moldou profundamente o mundo em que vivemos hoje, historicamente falando.

Enquanto as tensões entre Coreia do Norte e Estados Unidos continua a aumentar entre testes e ameaças de mísseis, aqui está um pequeno guia para a Guerra da Coreia e os impactos que perduram por mais de 60 anos, desde seu fim.

Soldados reunidos em Seul em 1948 para celebrar a criação da Coreia do Sul
Foto: Associated Press

COMO A GUERRA DA COREIA COMEÇOU?

A Guerra da Coreia começou quando tropas da Coreia do Norte se deslocaram para a Coreia do Sul em 25 de Junho, de 1950, e durou até 1953. Mas especialistas dizem que o conflito militar não poderia ser entendido adequadamente sem considerar o seu contexto histórico.

A Coreia, uma colônia japonesa de 1910 à 1945, foi ocupada pelos Estados Unidos e União Soviética ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos propuseram dividir temporariamente o país no Paralelo 38, como uma forma de manter sua influência na península, que era fronteiriça com a Russia, disse Charles K. Armstrong, professor de história coreana na Universidade de Columbia.

Uma Coreia dividida era algo sem precedentes”, disse ele.

Mas a divisão durou, em partes, por causa das visões conflituosas entre os coreanos a respeito do futuro do país. “Fundamentalmente, foi uma Guerra Civil, que discutia questões que remetiam à experiência colonial coreana”, disse Bruce Cumings, professor de história na Universidade de Chicago.

Em 1948, a administração sulista, anticomunista e apoiadora dos norte americanos, baseada em Seul, declarou-se como República da Coreia. Esse momento foi liderado por Syngman Rhee, que viveu exilado nos Estados Unidos por muitos anos e foi colocado como líder Sul Coreano pelo Escritório de Serviços Estratégicos, precursor da Agência Central de Inteligência, disse o Professor Cumings.

Pouco tempo depois, a administração nortista, comunista e apoiadora dos soviéticos, baseada em Pyongyang, declarou-se como República Democrática Popular da Coreia. Esta era liderada por Kim Il-sung, que lutou ao lado das forças comunistas durante a Guerra Civil Chinesa e era avô do atual ditador Norte Coreano, Kim Jong-un.

Cada um dos regimes era instável, rejeitando a legitimidade do outro e considerando a si mesmo como a única Coreia genuína. Conflitos na fronteira entre os dois países eram frequentes antes da Guerra da Coreia realmente começar.

Um oficial do exército Sul Coreano checando membros de seu batalhão posicionado no 38º Paralelo, em junho de 1950
Foto: Associated Press

QUEM ERAM OS COMBATENTES?

A guerra colocou Coreia do Sul e Estados Unidos, lutando sob a tutela das Nações Unidas, contra a Coreia do Norte e China.

Outras nações também contribuíram com tropas, mas as forças Norte Americanas lutaram mais no conflito. “As tropas sul coreanas praticamente colapsaram no início da guerra”, disse o Professor Cumings.

A União Soviética apoiou a Coreia do Norte no início da guerra, dando armamentos, tanques e informações estratégicas. Mas a China rapidamente surgiu como um dos seus mais importantes aliados, mandando soldados para a Coreia, como uma maneira de manter o conflito longe de suas fronteiras.

O líder chinês, Mao Zedong, também viu na participação chinesa na guerra uma forma de agradecer aos coreanos comunistas por terem lutado na Guerra Civil Chinesa, disse o Professor Cumings.

Existiram muitos contatos em campo entre as forças norte americanas e chinesas”, disse o Professor Armstrong. “De certo modo, essa foi a primeira e única guerra entre a China e os Estados Unidos, até agora”.

Dois soldados norte americanos alinhando uma bazuca adiante do fronte de batalha na Coreia, em julho de 1950 Foto: Associated Press

QUÃO DEVASTADOR FOI O CONFLITO?

A guerra devastou a Coreia. Historiadores dizem que entre 3 a 4 milhões de pessoas foram mortas, embora dados concretos nunca tenham sido gerados, especialmente pelo governo Norte Coreano. Cerca de 70% das mortes podem ser de civis.

A destruição foi particularmente grave no norte, que esteve sujeito à anos do bombardeio norte americano, inclusive Napalm. Aproximadamente 25% da população pré guerra foi morta, disse o Professor Cumings, e a maioria dos sobreviventes viveram no subterrâneo até o fim da guerra.

A Coreia do Norte foi arrasada”, ele disse. “Os norte coreanos viram o bombardeio estadunidense como um holocausto; e toda criança foi ensinada sobre isso”.

Os danos também se estenderam pela Coreia do Sul, e Seul “trocou de mãos” quatro vezes. Mas a maioria dos conflitos se concentraram ao norte e centro da península coreana, ao redor da atual Zona Desmilitarizada que divide os países, disse o Professor Cumings.

Civis e soldados situados abaixo de uma bandeira durante uma demonstração em Seul, em abril de 1953, contra a retomada do acordo de paz coreano.
Foto: Associated Press

COMO SE DEU O FIM DESTE CONFLITO?

Tecnicamente, a Guerra da Coreia ainda não acabou.

A batalha foi interrompida quando a Coreia do Norte, China e Estados Unidos firmaram um tratado de armistício em 1953. Mas a Coreia do Sul não concordou com o armistício, portanto, nenhum tratado de paz formal foi assinado.

Tecnicamente ainda existe uma situação de guerra entre os combatentes”, disse o Professor Cumings

Nem a Coreia do Sul ou do Norte alcançaram seus objetivos: a destruição do regime oposto e a reunificação da península dividida.

Desde 1953, houve uma coexistência desconfortável entre a Coreia do Norte e a do Sul, que hospedou mais de 20 mil tropas norte americanas. Na época, centenas de armas nucleares estadunidenses foram baseadas no território.

Foi após a Guerra da Coreia que nós tivemos uma global e permanente presença militar norte americana que nunca tivemos antes”, disse o Professor Armstrong. Outros países que hospedaram tropas estadunidenses são: Catar, Japão, Itália e Alemanha. “Esse foi um momento decisivo para a mudança de papel global dos Norte Americanos”.

Nas décadas posteriores à guerra, a Coreia do Sul se transformou em uma potência econômica. O Professor Cumings diz que, agora, muitos de seus cidadãos sabem sobre o conflito e tem “uma inclinação pessimista” em relação à economicamente isolada Coreia do Norte.

Enquanto isso, a Coreia do Norte se tornou “o Estado com o forte militar mais incrível do mundo e com o quarto maior exército do mundo”.

Seus generais ainda estão lutando esta guerra”, disse o Professor Cumings . “Para eles, isso nunca acabou.


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