Estátua em Homenagem às Mulheres de Conforto

No texto passado nós aprendemos um pouco sobre a invasão japonesa na Coreia e hoje vamos aprender um pouco sobre um fato triste que ocorreu durante essa ocupação, e que tem desdobramentos até os dias atuais – as “mulheres de conforto”. Esse termo é um eufemismo utilizado para falar das escravas sexuais que o Japão fez durante a sua expansão pela Ásia.

Durante o período de ocupação, o Japão enfrentou duas guerras de grande escala.  A II Guerra Sino-Japonesa (1937 – 1945) e a Guerra do Pacífico contra os Estados Unidos, também chamada de Guerra Pacífico-Asiática (1941 – 1945). Ambas são escaladas dentro do âmbito da Segunda Guerra Mundial.

À medida que o Japão expandia sua presença militar pelo continente asiático, ele mobilizou um grande número de mulheres para bordéis militares, a fim de que os seus soldados satisfizessem seus desejos sexuais. Com isso, o governo japonês instituiu as chamadas “estações de conforto”, que se localizaram nos países onde o governo imperial tinha bases militares.

O número exato de mulheres mobilizadas para essas estações é desconhecido, tendo em vista que o Japão queimou importantes documentos históricos ligados ao seu período imperial. Porém, com base em alguns documentos, estudos e relatos, estima-se que o número varia entre 80 a 200 mil mulheres, sendo que 80% delas eram de origem coreana. Devido a todo o trauma e humilhação que passaram, muitas cometeram suicídio, outras morreram devido a doenças e algumas foram assassinadas por soldados japoneses, fazendo com que poucas mulheres sobrevivessem.

Apesar da maioria das “mulheres de conforto” serem de origem coreana, também existiam mulheres de outros territórios que foram invadidos pelo Japão imperial como: Filipinas, Taiwan, Cingapura, Indonésia, Birmânia, Tailândia e Vietnã. Além disso, as coreanas também sofreram a discriminação étnica, o que fazia com que elas fossem tratadas de forma mais cruel, e que ficassem com os piores quartos nas “estações de conforto”.

"Mulheres de conforto" chinesas e coreanas junto a soldados japoneses. Fonte: google
“Mulheres de conforto” de Taiwan e da Coreia com soldados japoneses. Fonte: Google

Outro motivo para a utilização de mulheres coreanas, é que o governo japonês supôs que a escolha de mulheres das suas colônias não iria contra as leis internacionais que proíbem a venda de mulheres para a prostituição. Mesmo que tenham ratificado a Convenção Internacional para a Repressão do Tráfico de Mulheres e Crianças em 1921, o Japão exerceu sua prerrogativa, segundo os termos do artigo 11, para declarar que nenhuma de suas colônias estaria dentro do âmbito da convenção.

Os japoneses conseguiam as “mulheres de conforto” através de raptos, falsas promessas de emprego e coerção. Como a Coreia era colônia do Japão, o meio coercitivo era mais eficaz com elas do que com mulheres de outras etnias.  As promessas de emprego também eram efetivas, tendo em vista que a invasão japonesa no país trouxe dificuldade econômica para a população local. Isso porque a política econômica colonial japonesa devastou a agricultura coreana e, com isso, muitas jovens de famílias pobres precisavam de trabalhos significativos, o que significava – muitas vezes – sair da zona rural.

Em 1942, o recrutamento de mulheres se tornou legal e este ocorria, normalmente, baseado em participação “voluntária”*. É por causa disso que, até 1993, o governo japonês negou que existiu qualquer coerção no recrutamento de mulheres coreanas para as Yoja Chongsindae, as Divisões Femininas de Trabalho. Algumas mulheres se voluntariaram para trabalhar em fábricas e hospitais, mas muitas foram recrutadas com falsas promessas de que iriam trabalhar nesses lugares e receber uma boa recompensa e bons benefícios. Ao invés de serem enviadas para esses locais, elas foram enviadas para os “centros de conforto”.

Com relação as que eram raptadas, a polícia japonesa cometia tal ato contra jovens de famílias de agricultores pobres, tendo em vista que essas eram mais “impotentes e indefesas” e isso minimizaria a crítica pública. As jovens de famílias rurais que eram economicamente mais privilegiadas, geralmente, escapavam da mobilização laboral e, com isso, dos “centros de conforto”.

"Mulheres de conforto" coreanas com um soldado japonês. Fonte: google
“Mulheres de conforto” coreanas com um soldado japonês. Fonte: Google

Apesar do recrutamento ocorrer de forma legal a partir de 1942, isso não significa que ele começou a ocorrer nesse mesmo ano, assim como não significa que os “centros de conforto” não existiam antes. Esses centros existiram – no mínimo – desde 1932. Além disso, eles existiram tanto no Japão quanto fora do país, em lugares onde as tropas imperiais estiveram até o fim da Guerra do Pacífico, em 1945.

Nesses centros, as jovens eram confinadas em pequenos cubículos de aproximadamente 1,85m², e forçadas a ter relações sexuais com soldados japoneses. Geralmente, a quantidade de relações por dia variava entre 10 a 30, porém existiam casos de 50 a 60 vezes por dia. Além disso, essas moças eram tratadas de forma degradante e chegavam a sofrer espancamento, queimaduras de cigarro e até mesmo esfaqueamento. Caso tentassem fugir, elas eram perseguidas sob ameaças de tiros.

Algumas dessas mulheres morreram de doenças venéreas, outras se suicidaram e diversas foram assassinadas. Os testemunhos das sobreviventes revelam que os soldados japoneses abandonaram as escravas sexuais quando o Japão foi derrotado em 1945. Os soldados também mataram algumas dessas mulheres.

A utilização de preservativos era recomendada pelas autoridades japonesas, mas devido a sua quantidade restrita, essas moças tinham a tarefa de lavar e reciclar os preservativos usados, com o objetivo de tentar evitar o contágio de doenças sexualmente transmissíveis. Elas passavam por exame periodicamente e eram constantemente submetidas a remédios e procedimentos que induzissem ao aborto. Casos de doenças como infecções uretrais eram precariamente tratados.

A vitimização e o sofrimento das “mulheres de conforto” não acabaram quando o Japão perdeu a guerra e a Coreia saiu do domínio japonês. Ao retornarem à Coreia, as sobreviventes se viram obrigadas a levarem, ao longo das suas vidas, a vergonha e a humilhação pelo abuso que sofreram. Isso fez com que muitas mulheres não falassem sobre o que ocorreu nas “estações de conforto”.

Mas, isso é história para o próximo post, quando iremos aprender sobre como foi a vida desses mulheres após 1945 até os dias atuais. Até a próxima!!

*As aspas aqui são utilizadas porque nem todas as mulheres foram recrutadas, mas sim raptadas, coagidas ou enganas.

Textos utilizados como referência: 

BBC. (2015), “A vida das coreanas escravizadas por japoneses em bordéis militares durante a Segunda Guerra”. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/12/151228_escravas_sexuais_japao_rs>

OKAMOTO, Julia Yuri. (2013), “As ‘mulheres de conforto’ da Guerra do Pacífico”. Ricri vol. 1, No. 1, pp. 91-108.

SOH, Chunghee Sarah. (1996), “The Korean Comfort Women: Movement for redress”. Asia Survey, Vo. 36, No. 12, pp 1226-1240.

YAYORI, Matsui; SHARNOFF, Lora. (1977) “Sexual Slavery in Korea”. A Journal of Women Studies, Vol. 2, No. 1, pp. 22-30.


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