Dragons in the palace - CAPA
O palácio de emergência na região da fortaleza de Pukhan no início de 1900. Coleção de Robert Neff

Para muitos jovens diplomatas estrangeiros, viver em Seul no final da década de 1880 foi uma aventura selvagem e emocionante. Esta época foi cheia de intrigas políticas e assassinatos; onde os principais integrantes destas narrativas eram funcionários descontentes da corte coreana, membros da família real e, supostamente, e até mesmo o sobrenatural.

De acordo com Charles Chaille-Long, secretário da embaixada americana em Seul:

O Palácio do Rei em 1888 era uma coleção de yamen, construções semelhantes a templos, sombrias o suficiente durante o dia e muito escuras e difíceis de iluminar à noite – o melhor lugar para as brincadeiras do Dragão Maligno.”

Certa manhã – possivelmente na primavera – um grande tumulto surgiu no palácio. No meio da noite, enquanto dormiam, vários soldados coreanos no palácio tiveram os seus coques (“sangtu”) despenteados. Este ato foi um duro golpe para suas masculinidades, já que os coques eram um símbolo de masculinidade – adquirido apenas após o casamento.

Sangtu - INTERNA
Um trabalhador coreano no início de 1900. Observe o sangtu em sua cabeça. Coleção de Robert Neff

Segundo o observador americano, os astrólogos e sábios da corte foram todos consultados e, após alguns debates, chegaram à conclusão de que a brincadeira, era obra do “dragão maligno” que habitava a cidade. Naturalmente, isso alarmou o monarca coreano e sua corte, que emitiu um decreto onde o dragão deveria ser morto ou expulso do palácio e da cidade.

Mensageiros foram enviados para várias embaixadas estrangeiras na cidade – incluindo a embaixada americana – e os diplomatas foram informados de que não deveriam se assustar, pois “haveria disparos de arma no palácio”.

Charles Chaille-Long descreveu:

Durante a noite, de fato, houve uma descarga contínua de rifles Remington, carregados de cartuchos de balas que atingiam os telhados. Vários tiros estes, que certamente não acertaram o dragão, passaram pelas laterais da minha casa, e essa evidência de pontaria ruim me induziu a colocar barricadas na forma de colchões, travesseiros etc.

Na manhã seguinte, um mensageiro chegou à embaixada americana e disse a Charles Chaille-Long que o dragão havia sido expulso e agora a cidade voltaria novamente à paz. Mas claro, ele estava errado.

Alguns dias depois, vários dos guardas do palácio acordaram e descobriram que haviam tido seus sangtus despenteados novamente. O monarca coreano ficou profundamente espantado e, segundo o narrador americano, “estava prestes a abandonar a sua capital e buscar seu refúgio nas montanhas“.

Foi nessa época que o representante japonês da Companhia Elétrica Edison apareceu na capital e propôs construir uma usina de energia no palácio e “transformar a noite em dia”, o que afastaria o dragão.

O monarca coreano ficou extremamente satisfeito com essa proposta e concordou imediatamente. A usina de energia elétrica transformou o palácio de um sombrio refúgio de dragão em um palácio resplandecente de luz, permitindo que os negócios da corte fossem realizados mesmo à noite. “O dragão… não atormentou mais a corte.

O relato de Charles Chaille-Long é realmente divertido, especialmente quando ele acrescentou a essa intriga – que supostamente, “o agente japonês da Companhia Elétrica Yankee cortou e roubou o [sangtu] de um dos guardas do rei, tentado por um punhado de moedas de ouro em ienes“.

Os incríveis dragões que fugiram da luz elétrica
Charles Chaille-Long, a testemunha não confiável do passado da Coreia. Imagem de domínio público retirada de sua página da Wikipedia

Chaille-Long tem sido uma das minhas testemunhas oculares favoritas da história coreana na década de 1880; não devido a suas muitas experiências – incluindo uma viagem à ilha de Jeju e por seu suposto papel na história do sequestro de bebês no ano de 1888 – mas porque ele era um narrador não confiável. Muitas de suas anedotas eram auto engrandecedoras, cheias de exageros, erros (se estou sendo generoso) e invenções diretas (se estou sendo honesto) e essa história dele sobre a introdução da eletricidade não é exceção.

Robert Neff é autor e co-autor de vários livros, incluindo Letters from Joseon, Korea Through Western Eyes e Brief Encounters.

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